Mundo
O passado ronda
As manifestações em 24 de março servem de resposta à relativização da ditadura pelo governo de Javier Milei
A manifestação de 24 de março pelo 50º aniversário do golpe de Estado de 1976, na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, produziu uma imagem marcante. Foi enorme, diversificada e politicamente significativa. Isso se deveu não apenas à praça lotada de colunas organizadas e a multidão espalhada pelas avenidas adjacentes, mas à força da mensagem. A comparação entre o modelo econômico da ditadura e aquele do atual presidente, Javier Milei, ficou mais clara que nunca.
Não foi uma comemoração rotineira. Foi, sobretudo, uma reavaliação do passado no tom do presente. Explica-se: números redondos sempre encerram um simbolismo especial, e meio século representa uma ótima oportunidade para análise e recordação. A manifestação ocorreu dois anos após o início do mandato de Milei, presidente que negou com maior veemência o terrorismo de Estado desde o retorno da democracia, em 10 de dezembro de 1983. Nesse quadro, um tema central emergiu com força em discursos, documentos e conversas informais, a comparação entre o programa econômico da ditadura, elaborado pelo ministro José Alfredo Martínez de Hoz durante o período do general Jorge Rafael Videla, e as políticas econômicas de Milei sob a gestão de Luis Caputo no Ministério da Economia.
Segundo o ex-deputado de oposição e líder cooperativista Carlos Heller, “esse programa econômico não é novo. É uma reedição da lógica de Martínez de Hoz: liberalização, queda dos salários e um modelo concebido para a especulação financeira, não para a produção”. Heller fala sobre os “quatro Ms” do neoliberalismo: o M de Martínez de Hoz, o M de Menem, o M de Macri e o M de Milei. “Claro, não estou dizendo que a ditadura seja igual à democracia, mas que Milei está reproduzindo o programa da ditadura, usando até as mesmas frases sobre livre mercado e livre importação, mesmo que isso destrua a indústria.”
De sua posição no comando da província de Buenos Aires, onde vivem 17 milhões dos 47 milhões de habitantes da Argentina, o governador peronista Axel Kicillof faz um alerta histórico: o país “já viveu esses experimentos: desindustrialização, endividamento e destruição do mercado interno. Os resultados foram mais desigualdade e mais crises”.
A manifestação de 24 de março atraiu centenas de milhares de argentinos na capital e em outras grandes cidades, como Córdoba e Rosário. Uma parte da multidão estava organizada em colunas, representando as diversas facções do peronismo, a esquerda trotskista e o setor da União Cívica Radical, que apoia o Julgamento das Juntas militares, iniciado em 1983 pelo presidente Raúl Alfonsín. Como de costume, milhares de manifestantes foram à Plaza de Mayo por conta própria, muitos com suas famílias. Em cartazes, objetos feitos em casa e camisetas, uma imagem se repetia, a dos lenços usados pelas Mães da Praça de Maio desde sua primeira marcha, em 1977. “O que realmente me indigna é que eles querem negar o que sabemos ser real”, diz Taty Almeida, 95 anos, mãe de um desaparecido. Ela levou a questão para um nível mais político com uma frase que foi repetida em vários veículos de comunicação: “Que Milei e sua turma saibam que eles não nos derrotaram”.
Por meio de uma campanha maciça e anônima nas redes sociais e um vídeo oficial, o governo argentino começou a minimizar a importância do golpe de 24 de março de 1976. O texto incluiu argumentos de que os acusados de crimes contra a humanidade e seus advogados repetem desde o Julgamento das Juntas: que a Argentina estava numa situação de caos em 1975, que houve confrontos armados no peronismo antes do golpe e que foi a então presidente María Estela Martínez de Perón quem ordenou a participação das Forças Armadas na repressão interna.
O general Reynaldo Bignone, último presidente da ditadura, reconheceu publicamente perante os tribunais, no entanto, que “em 1976 o movimento guerrilheiro foi derrotado militarmente”. Essa declaração é significativa, pois partiu de alguém que fazia parte da cúpula do regime. Na mesma linha, o jornalista Ceferino Reato, que costuma ser crítico do kirchnerismo e das organizações de direitos humanos, escreveu que, “em março de 1976, as organizações guerrilheiras já haviam sido desarticuladas e não representavam uma ameaça estratégica para o regime”.
Há 50 anos tinha início o mais sangrento regime militar do Cone Sul
A última grande ação guerrilheira ocorreu em dezembro de 1975, quando o Exército Revolucionário Popular, guevarista, tentou tomar um regimento na zona sul da Grande Buenos Aires. A tentativa fracassou. O outro grupo guerrilheiro, os Montoneros, estava enfraquecido. Nenhuma força armada insurgente ainda possuía poder de fogo.
O golpe não respondeu a uma ameaça militar real, mas a um projeto de reorganização econômica e social da Argentina. Milei busca o mesmo objetivo, que inclui o fim do poder de negociação dos sindicatos e a completa abertura da economia. Isso explica por que, além de homenagear os 30 mil desaparecidos e condenar os autores do genocídio, em 24 de março, o presidente deu maior importância aos objetivos econômicos e sociais da ditadura.
O programa de Martínez de Hoz, implementado a partir de 1976, teve estas características centrais:
• Liberalização comercial repentina;
• Reforma financeira de 1977 e desregulamentação das taxas de juro;
• Aceleração da dívida externa;
• Desvalorização cambial como âncora;
• Queda nos salários reais e disciplina social.
Esse modelo deslocou o foco da produção para a especulação financeira. Diversas vozes que hoje traçam paralelos com o modelo anterior se baseiam nessa interpretação.
O atual programa econômico implementado por Milei pode ser visto como uma continuação do anterior, devido a estes fatores:
• Ajuste fiscal drástico;
• Desregulamentação;
• Abertura econômica;
• Política monetária contracionista;
• Redução do Estado.
O programa econômico da ditadura exigia condições específicas para sua implementação, que também faziam parte de seus objetivos: disciplina social, desarticulação dos sindicatos e neutralização do conflito. A repressão era parte integrante desse sistema.
A praça lotada em Buenos Aires não apenas homenageou os desaparecidos, mas reativou um debate histórico. Que tipo de país se constrói quando a especulação financeira é posta acima da produção e da renda dos trabalhadores, aposentados e pequenos e médios empresários? •
*Jornalista, colunista do programa de tevê QR, codiretor do www.yahoraque.com.ar. Foi subdiretor do jornal Página/12, funcionário do Ministério das Relações Exteriores e presidente da Agência Nacional de Noticias Télam.
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.
Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O passado ronda’
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