…

“O mundo vive uma nova Guerra Fria”

Mundo

A retirada do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês) anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sábado 20 pode ser sinal da irrelevância atual de pactos de desarmamento nuclear firmados no fim da Guerra Fria, avalia o russo Pavel Felgenhauer, analista militar e político.

Para o especialista independente baseado em Moscou, a situação mundial atual difere totalmente do fim da Guerra Fria, em que pactos como o INF – firmado entre EUA e a ex-União Soviética para reduzir arsenais nucleares – foram criados. É por isso que esses acordos não espelham mais o quadro de uma “nova Guerra Fria” que se vive no mundo atualmente, diz.

Felgenhauer afirma ainda que a Rússia está pronta para usar mísseis desenvolvidos – mas ainda não testados com lançadores de solo – se o INF realmente acabar.

DW: Quão séria é para a segurança global a decisão dos Estados Unidos de sair do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF)? Há uma nova corrida armamentista à espreita?

Pavel Felgenhauer: É como voltar a 1983. Naquela época, parecia que uma guerra nuclear podia começar a qualquer momento – e podia mesmo. Estamos mais ou menos de volta à estaca zero nesse assunto.

Esses tratados [o INF e outros acordos de desarmamento nuclear] surgiram no final da Guerra Fria e criaram um quadro legal para a situação que se instalou após o fim do conflito, depois que o regime comunista entrou em colapso na Rússia e depois que o Pacto de Varsóvia foi extinto.

Agora, temos uma nova Guerra Fria. Então, os tratados que acabaram com a anterior são irrelevantes, porque correspondem a uma situação mundial totalmente diferente. Isso significa que, provavelmente, era inevitável que esses acordos fossem por água abaixo.

Leia também:
As três faces da Rússia sob Putin
O desastre nuclear à espera de um erro

DW: Os Estados Unidos indicaram que considerariam renegociar o tratado se ele fosse expandido para incluir a China. É uma opção realista?

PF: [Vladimir] Putin falou nisso publicamente em outubro de 2007, dizendo que a Rússia abandonaria o tratado se os EUA não ajudassem a torná-lo internacional, já que a Rússia e os Estados Unidos não possuem esses mísseis – mas a China, sim. Agora, o mesmo pretexto está sendo usado pelos americanos com a China.

Dos mísseis chineses, 90% podem ser agrupados na classificação do INF. Portanto, se eles aderirem ao tratado, terão de destruir 90% de seus mísseis – o que se recusaram e vão se recusar a fazer. Então, essa não é uma opção.

DW: A Rússia tem interesse num novo acordo INF?

PF: Num futuro imediato, os EUA não têm nada a ganhar do ponto de vista militar ao anular o INF – mas a Rússia tem muito a ganhar. Apesar de não terem sido muitos, a Rússia desenvolveu e, aparentemente, instalou mísseis de cruzeiro baseados em sistemas lançadores modificados, ainda que não tenham sido testados por lançadores em solo. Testamos [modificação de mísseis] e implementamos esse sistema, e estamos prontos para instalá-lo assim que o INF sair de circulação.

Os americanos não têm nada para implementar que seja proibido pelo tratado. No futuro, os Estados Unidos poderiam começar a desenvolver mísseis se o INF acabar, mas isso vai levar anos para se concretizar.

A Rússia já instala o mesmo tipo de míssil em fragatas, cruzeiros, corvetas e submarinos, mas se o INF acabar teremos a possibilidade de instalá-los em caminhões lançadores, e estes são bem mais baratos que uma fragata, e mais fáceis de esconder. Faz muito sentido para a Rússia abandonar o INF. Putin e generais russos vêm criticando o acordo desde 2007.

O presidente americano, Donald Trump, fez outro favor ao presidente russo, Vladimir Putin, ao assumir a culpa por denunciar o INF.

DW_logo

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Compartilhar postagem