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O filho é teu

Trump é abandonado por aliados europeus enquanto patina no conflito e vê o preço do petróleo disparar

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Aventura. Na Ásia, a disposição em embarcar no conflito é próxma de zero. Depois de ameaçar a Otan, o republicano disse não precisar da organização no Estreito de Ormuz – Imagem: Jung Yeon-Je/AFP e iStockphoto
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Passados quase 20 dias do início da guerra no Irã, Donald Trump tinha como resultado a apresentar a disparada no preço mundial do petróleo, provocado pelo fechamento parcial do Estreito de Ormuz, e uma situação de total desconexão e isolamento em relação aos países europeus, que eram, até aqui, aliados incondicionais dos Estados Unidos.

Ao longo da semana, a cotação do preço do barril chegou a passar dos 120 dólares, enquanto o republicano apelava, sem sucesso, para países como o Reino Unido, a Alemanha e a França entrarem, juntamente com ele e com Israel, na batalha contra o Irã. Para quem prometeu uma guerra rápida e proclamou vitória antes do tempo, o cenário de isolamento pode ser considerado um fracasso, mesmo que ainda não seja definitivo. No momento de maior abandono, Trump pediu socorro até a duas nações tidas como as maiores rivais dos Estados Unidos. À China, requisitou um engajamento na liberação no Estreito de Ormuz, enquanto à Rússia foi dada a liberdade de voltar a vender seu petróleo no mercado internacional, pondo fim a um embargo que vigorava desde o início da guerra na Ucrânia. Ambas as medidas dão conta do desalento do presidente norte-americano.

As consequências desses reveses se mostram ainda mais duras quando, no front interno, Trump enfrenta maior desaprovação popular e até mesmo a deserção de figuras-chave de seu governo, como o diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, Joe Kent, que renunciou na terça-feira 17, dizendo que não pode “em sã consciência apoiar a guerra em andamento”.

Sozinho, contando apenas com a companhia de Israel nessa campanha militar incerta, o republicano tenta agora correr atrás do tempo perdido para apresentar qualquer coisa que soe como uma vitória, antes de voltar os olhos a algum novo foco de instabilidade mundial. Em ano eleitoral, o presidente norte-americano precisa desviar a atenção de suas recentes derrotas domésticas, provocadas pela abertura dos arquivos de Jeffrey Epstein, pelas mortes causadas por sua polícia migratória em Minnesota e pelos dois reveses recentes sofridos na Justiça, no caso da guerra tarifária e na anulação de medidas antivacinais adotadas por seu governo.

Nesse cenário de desalento, a deserção do líder da divisão contraterrorista dos Estados Unidos foi só a expressão mais visível de um descontentamento que parece espalhar-se entre a base trumpista de maneira mais ampla. Influenciadores de renome no movimento MAGA, como o apresentador Tucker Carlson, ex-âncora do canal Fox News, passaram a assumir posição abertamente crítica ao presidente norte-americano. A decepção, no caso deles, é com o fato de os Estados Unidos terem sido arrastados para um conflito no qual o maior interessado é Israel.

Para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a guerra é dura, mas conveniente. Israel conseguiu, em duas semanas, debilitar a cúpula do poder iraniano, além de avançar militarmente sobre grande parte do território do Líbano, onde enfrenta o grupo armado xiita ­Hezbollah. Nesse sentido, os EUA funcionaram como um aríete das causas israelenses, que agora seguem seu próprio curso.

No campo ocidental, o futuro da Otan tornou-se ainda mais nebuloso com a recusa dos aliados em prestar apoio em uma hora aguda. “Esta não é a nossa guerra”, disse o presidente da França, Emmanuel ­Macron, enquanto até mesmo o dócil e reticente chanceler alemão, Friedrich Merz, fazia coro ao discurso subitamente rebelde da Europa: “A guerra no Oriente Médio não é assunto da Otan. Portanto, a Alemanha não se envolverá militarmente”. No Reino Unido, o primeiro-ministro Keir Starmer foi taxativo ao dizer que seu país “não será arrastado para uma guerra mais ampla”.

O presidente dos EUA também sofre internamente com críticas crescentes de apoiadores

Trump, que havia pedido e, depois, cobrado agressivamente o apoio da Otan, passou a desdenhar dos aliados. “Devido ao fato de que nós tivemos tamanho sucesso militar, não mais ‘precisamos’ ou desejamos assistência de países da Otan – NÓS NUNCA QUISEMOS”, escreveu com as já tradicionais letras maiúsculas que costuma usar em suas redes sociais. Nem mesmo aliados asiáticos, como a Coreia do Sul e o Japão, responderam ao apelo do presidente norte-americano para que se juntassem em operações ofensivas para desbloquear o Estreito de Ormuz.

Do lado do Irã, as perdas se acumulam, mas o objetivo é mais modesto. O regime só precisa seguir existindo para que possa proclamar vitória contra os Estados Unidos e Israel. Além disso, a capacidade iraniana de bloquear o estreito por onde passam dois de cada dez barris de petróleo comercializados no mundo é, em si, um logro.

Depois da morte do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, atingido por um bombardeio logo nas primeiras horas do conflito, foi a vez, na terça-feira 17, de o chefe do Conselho de Segurança do Irã, Ali

Larijani, ser eliminado. As baixas iranianas não parecem, no entanto, arrefecer o ímpeto de um regime que segue fustigando alvos norte-americanos nos países ao redor.

O cenário de degradação e abandono que Trump enfrenta faz com que ele se volte para a censura interna como forma de controlar o discurso sobre a guerra. O presidente da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos, Brendan­ Carr, ameaçou cassar a licença de emissoras de televisão que têm realizado uma cobertura crítica do conflito. “As emissoras devem operar em prol do interesse público e perderão suas licenças caso não o façam”, escreveu Carr em um post nas redes sociais. A postura só endossa a conclusão publicada pelo V-Dem, projeto de monitoramento da qualidade da democracia nos países do mundo todo, realizado pela Universidade de Gotemburgo,­ na Suécia, que detectou uma deterioração acentuada na situação dos Estados Unidos, desde o início do segundo mandato de Trump. O país simplesmente deixou de ser uma “democracia liberal” segundo os critérios de monitoramento. •

Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O filho é teu’

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