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O espantalho

A Casa Branca age sob o pretexto de conter um programa atômico que os próprios EUA criaram há 69 anos

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Vento e tempestade. Eisenhower forneceu a tecnologia ao aliado Pahlevi, derrubado em 1979 pela Revolução Iraniana. Hoje, Trump mobiliza um enorme contingente militar – Imagem: Acervo/President Carter Library e Marinha dos Estados Unidos
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Quem criou o programa atômico iraniano foram os Estados Unidos. Em 1957, o então presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower forneceu ao país tecnologia e matéria-prima necessárias para a construção de um primeiro reator nuclear, em Teerã. Com o programa batizado “Átomos para a Paz”, Eisenhower pretendia espalhar o conhecimento científico entre nações consideradas aliadas à época, antes que a União Soviética o fizesse.

A amizade só foi possível porque, quatro anos antes, em 1953, os norte-americanos e os britânicos tinham derrubado o então primeiro-ministro Mohammed Mossadeg, e colocado em seu lugar, como líder absoluto, o xá Reza Pahlevi. Como em muitas ações dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, esta também foi a troca de uma democracia por uma ditadura. Mossadeg caiu por ser um líder civil nacionalista interessado em estatizar o petróleo iraniano, o que bastou para Washington passar a tratar o cientista político formado em Paris e professor na Universidade de Teerã como um comunista empenhado em bandear o Irã para a esfera de influência soviética. A histeria macarthista estava no auge, então.

O xá Pahlevi prendeu seu próprio primeiro-ministro e passou a governar o país­ sozinho, com mão de ferro, até 1979, período no qual Eisenhower e, depois, outros três presidentes norte-americanos – John F. Kennedy, Lyndon B. ­Johnson e Richard Nixon – mantiveram a cooperação atômica com Teerã a todo vapor. Nenhum deles parece ter considerado o fato óbvio de que o regime do xá não duraria para sempre, e que uma mudança na ordem política iraniana poderia acabar legando essa tecnologia a adversários dos Estados Unidos a qualquer momento.

Em 1979, o xá caiu. A Revolução Iraniana que eclodiu naquele ano trouxe de volta o espírito nacionalista de Mossadeg, desta vez revestido por um forte apelo religioso, que culminou com o regresso a ­Teerã do aiatolá Ruhollah Khomeini, até então exilado em Paris. De volta ao país, no braço sobretudo do movimento estudantil, Khomeini estabeleceu um regime teocrático nacionalista que fez dos Estados Unidos seu principal inimigo e buscou aproximação com outras potências nucleares, como o Paquistão, a China e a Rússia, para manter em funcionamento o programa atômico iniciado 26 anos antes por influência de Eisenhower.

Desde então, os Estados Unidos e seus aliados europeus tentam impedir que o programa atômico do Irã, desenvolvido originalmente para fins pacíficos, nos anos 1950, seja convertido em ameaça militar contra o Ocidente, potencializada pelo fato de que o país persa desenvolveu também uma tecnologia de mísseis capazes de transportar ogivas atômicas a longas distâncias. O alvo mais próximo seria Israel, aliado incondicional dos Estados Unidos no Oriente Médio. O medo de que um dia Teerã borre no mapa o Estado judaico se deve à enorme coleção de declarações antissionistas e antissemitas feitas pelos aiatolás ao longo das últimas décadas, o que é percebido em Tel-Aviv e Washington com uma intenção explícita de causar um novo Holocausto.

Esse é o principal temor alegado pelo atual primeiro-ministro israelense, ­Benjamin Netanyahu, para justificar uma ação militar contra o inimigo. Além disso, o Irã é acusado de fomentar grupos radicais no entorno de Israel, que, sobretudo a partir do Líbano, da Faixa de Gaza, da Síria e do Iêmen, protagonizam conflitos intermitentes ao longo dos anos contra os israelenses. Na ONU, Netanyahu cansou de dizer que o Irã está “há poucos dias” de construir uma bomba atômica, mesmo sem mostrar evidências.

Não há evidências de armas nucleares em poder do país

Até então, o melhor que essa pressão ocidental tinha conseguido foi a adoção, em 2015, do Plano de Ação Conjunto e Abrangente, conhecido pela sigla em inglês JCPOA, por meio do qual o regime dos aiatolás concordou em reduzir tanto os estoques de urânio quanto o porcentual de enriquecimento do material, impossibilitando qualquer súbita conversão do programa nuclear civil em militar.

O JCPOA, firmado entre iranianos e norte-americanos, franceses, chineses, russos e alemães, funcionou a contento por três anos, até 2018, quando Donald Trump, então em seu primeiro mandato, resolveu romper o acordo e, sensível às advertências cada vez mais eloquentes de seus aliados israelenses, passou a impor sanções e embargos cada vez mais pesados contra os iranianos. Essa política hostil culminou com o bombardeio de instalações iranianas em 2025 e, agora, na maior mobilização de meios militares dos EUA de que se tem notícia nos últimos 20 anos.

Teerã tem certeza de que a pressão militar norte-americana não visa o programa atômico, mas uma mudança de regime. Na cabeça dos aiatolás, ecoa a lembrança do que os Estados Unidos fizeram em 2002 contra Saddam Hussein no vizinho Iraque. À época, o então presidente George W. Bush inventou a história de que os iraquianos possuíam arsenais de armas de destruição em massa que justificavam uma ação militar intempestiva. Ninguém acreditou na história, salvo o então primeiro-ministro britânico Tony Blair, o único que topou participar da aventura que culminou com a captura e, depois, o enforcamento de Saddam Hussein.

Assim como aconteceu no caso do Iraque, nenhuma agência atômica independente corrobora neste momento a história de que Teerã esteja desenvolvendo armas atômicas. O país persa assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear e é inspecionado regularmente pela Agência Internacional de Energia Atômica. Além disso, também aderiu ao Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares (CTBT, na sigla em inglês), que possui um mecanismo capaz de detectar qualquer teste com explosões atômicas, não importa a localização, nem a profundidade em que ocorra. Jamais houve qualquer informação desses órgãos que permitisse afirmar que os iranianos possuem uma bomba atômica.

Nada garante, no entanto, que Trump não arrisque a sorte a qualquer momento, buscando o mesmo tipo de êxito em relação a uma intervenção recente, que culminou com a captura do agora ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro. Como ele se diz limitado apenas pela própria consciência – não pela ONU ou pelo direito internacional –, é difícil prever quando e como os norte-americanos serão protagonistas, mais uma vez, de um evento violento que altere o ciclo político no Irã. •

Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O espantalho’

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