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O embate rende votos

Iván Cepeda, candidato de Gustavo Petro, lidera as pesquisas e é favorito para manter a esquerda no poder

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Continuidade. O ex-senador Cepeda trabalha para ampliar a base eleitoral do Pacto Histórico, a coligação governista liderada por Petro, atual mandatário – Imagem: Vital Juan Cano/Presidência da Colômbia e Raul Arboleda/AFP
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Eleições 2026

Primeiro presidente de esquerda na história da Colômbia, Gustavo Petro aproxima-se do momento decisivo da escolha do sucessor nas eleições presidenciais, agendadas para 31 de maio, com um eventual segundo turno em 21 de junho. O candidato do Pacto Histórico, a coligação governista, Iván Cepeda, lidera a corrida com 44,3% das intenções de voto, segundo a pesquisa mais recente, do instituto Invamer, divulgada no domingo 26. Os números indicam uma subida de 7 pontos porcentuais em relação ao resultado de um mês atrás. Em seguida se situam, praticamente empatados, os dois candidatos mais fortes no campo da direita: Abelardo de la Espriella, com 21,5%, e Paloma Valencia, com 19,8%.

Outra sondagem, do instituto Celag Data, publicada no mesmo dia, além de confirmar o favoritismo de Cepeda (nesta, com 41,6%), apresenta o candidato governista como o mais provável vencedor de um possível segundo turno. Nesse cenário hipotético, o ex-senador derrotaria Valencia por 48,3% a 38,6% e também levaria vantagem contra Espriella, 49% a 36,1%. Os dados contrastam com uma pesquisa anterior, do instituto AtlasIntel, que aponta uma derrota de Cepeda para qualquer dos dois candidatos de direita. As três instituições de pesquisas são consideradas confiáveis pela mídia colombiana.

Petro, impedido por um dispositivo constitucional de buscar a reeleição, vai encerrar um mandato de quatro anos em que agiu exatamente como os críticos de esquerda à gestão de Lula gostariam que o brasileiro fizesse. Em contraste com a conduta conciliadora de Lula, o colombiano governou em confronto aberto e permanente contra as forças da direita. Lutou como um leão por reformas sociais em favor da maioria desprivilegiada e enfrentou Donald Trump com uma inflamada retórica anti-imperialista por ocasião do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro.

O ex-guerrilheiro ganhou várias paradas, e perdeu outras. Conseguiu ampliar os direitos dos assalariados com a aprovação de uma importante reforma trabalhista, depois de oito meses de queda de braço com os congressistas conservadores e o empresariado. Para superar o bloqueio opositor, aliou-se aos sindicatos e movimentos sociais, ameaçou apoiar uma greve nacional e convocou uma “consulta popular” plebiscitária, que acabou não se realizando. “Se tivermos que fazer uma greve por tempo indeterminado, o presidente estará ao lado do povo e, se eles me expulsarem por isso, uma revolução explodirá na Colômbia, porque não vamos nos ajoelhar”, disse Petro, no auge do conflito. Mas a proposta presidencial de uma reforma tributária com foco no aumento da taxação dos milionários naufragou sob o veto de um Judiciário sob controle das tradicionais oligarquias, e o projeto da instalação de um grande sistema de saúde pública inspirado no SUS brasileiro ficou na promessa.

Já os resultados econômicos foram bons, quando confrontados às previsões pessimistas dos mercados financeiros por ocasião da vitória do Pacto Histórico nas eleições de 2022. O Produto Interno Bruto cresceu 2,6% em 2025, acima da média latino-americana de 2,2%, o desemprego ficou em 8,2%, o menor nível histórico no país, e a inflação em 5%, o que é considerado aceitável. O presidente desprezou solenemente os clamores da direita por “austeridade fiscal” e acionou a cláusula constitucional que lhe permite suspender o controle do gasto público. Estimativas citadas pela agência britânica BBC indicam que as contas da Colômbia devem fechar 2025 com um déficit de 6,2% do PIB, enquanto o brasileiro no mesmo ano fechou em 0,48%.

Quanto ao julgamento popular, as pesquisas mostram resultados contraditórios. Em fevereiro, o instituto Invamer apresentou um virtual empate, com um índice de aprovação de 49,1% e 48,6% de rejeição. Já a pesquisa do AtlasIntel em abril apontou uma avaliação claramente negativa, em que a aprovação registra 40,5%, enquanto a reprovação alcança 57,2%.

O atual presidente preferiu o confronto à conciliação

Um fator relevante para definir a atitude dos colombianos perante o governo é a percepção de insegurança. Questionados na pesquisa do Invamer sobre “qual é o principal problema da Colômbia na atualidade”, 30,9% apontaram a (falta de) segurança pública, bem acima dos outros tópicos mais citados: desemprego (18,9%), necessidades básicas (14,6%) e corrupção (13,3%). A preocupação com a criminalidade tem a ver com a atuação dos cartéis de narcotraficantes (as exportações de cocaína atingiram recorde histórico em 2025) e com o fracasso, até agora, do diálogo oficial – chamado pelo governo de “Paz Total” – com os guerrilheiros de esquerda que permaneceram em armas após o acordo que pôs fim, em 2016, a meio século de uma guerra civil protagonizada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. O desarmamento das Farc desencadeou uma disputa sangrenta pelo domínio dos territórios outrora sob seu controle, travada entre vários grupos dissidentes da organização e o Exército de Libertação Nacional, presente em grande parte do país.

Nesse quadro político, Cepeda desponta na dianteira eleitoral. Com 63 anos, advogado conhecido pela militância em defesa dos direitos humanos, é filho de um senador comunista assassinado em 1994 por sicários a serviço da extrema-direita. Ciente do desafio de enfrentar uma direita unificada em um provável segundo turno, o candidato governista aposta na ampliação do contingente de votantes, atraindo às urnas setores sociais que costumam abster-se – indígenas e moradores das favelas –, num país onde o voto é facultativo. Essa intenção se traduz na escolha da companheira de chapa, a senadora indígena Nasa Aida Quilcué.

Valencia, de 48 anos, senadora pelo Centro Democrático, partido de perfil fortemente conservador, é herdeira de uma família oligárquica da cidade de ­Popayán. Figura apagada na política nacional, seu grande trunfo é o de ser a candidata oficial do uribismo, movimento ligado ao ex-presidente Álvaro Uribe, que se notabilizou pelo perfil autoritário, pela oposição ao acordo de paz com as guerrilhas e pelas acusações de vínculos com o narcotráfico e grupos paramilitares.

A grande novidade é o advogado ­Espriella, de 47 anos, outsider sem experiência política prévia que morou até recentemente em Miami e se apresenta como admirador de Trump, do argentino Javier Milei e do salvadorenho Nayib Bukele. Muito ativo nas redes sociais, é o típico demagogo de inclinações fascistas, com um discurso centrado na denúncia da insegurança pública, na defesa da fé cristã e da “família” e no ataque feroz a Petro e a tudo o que pareça ser de esquerda. Sua candidatura é considerada uma espécie de “plano B” do uribismo.

Há muito em jogo na Colômbia, o país­ da América Latina com mais bases militares norte-americanas no seu território, além de uma economia importante. Entre outras coisas, a atual disputa pode servir como teste para a disposição de Trump de interferir nas eleições dos paí­ses que considera incluídos na esfera de influência exclusiva dos EUA. •


*Professor da UFABC.

Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O embate rende votos’

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