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O butim dos piratas

A Casa Branca escolhe a contestada Trafigura para comercializar o petróleo “confiscado” do país caribenho

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Balcão de negócios. Genebra não produz uma gota de óleo, mas é o centro das transações da commodity. Por lá passaram os primeiros galões retidos pelos EUA – Imagem: PDVSA e iStockphoto
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Uma empresa na Suíça envolvida em escândalos, uma conta obscura no Catar, acordos pouco transparentes e uma receita administrada integralmente pela Casa Branca. Desde o sequestro de Nicolás Maduro, um dos elementos mais delicados do novo controle dos Estados Unidos sobre a Venezuela passou a ser o destino do petróleo do país. Oficialmente, o governo de ­Donald Trump anunciou a interrupção e o confisco das vendas “clandestinas” de óleo e prometeu que, a partir de agora, as exportações do combustível iriam “beneficiar” o povo venezuelano e o norte-americano. Bravata. O que está em curso mais se parece, porém, com pirataria, com a gestão por tempo “indefinido” dos recursos da nação caribenha nas mãos do republicano, conforme as explicações do secretário de Energia dos EUA, Chris Wright.

Segundo fontes ligadas ao setor do petróleo, Washington hoje supervisiona o comércio do petróleo venezuelano. A liberação do dinheiro obtido com a venda é controlada diretamente pelo governo norte-americano, com Trump a dar a última palavra. Há duas semanas, pela primeira vez desde a queda de Maduro, o governo dos Estados Unidos vendeu barris de petróleo venezuelano e arrecadou 500 milhões de dólares com a transação. Os dividendos foram depositados em contas controladas pelos EUA no Catar.

A escolha do país no Oriente Médio deu-se por conta de um suposto caráter neutro do emirado. A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou que 300 milhões de dólares seriam direcionados ao país, mas diplomatas confirmaram à reportagem que os recursos foram “carimbados” por Washington e devem ser usados exclusivamente para a estabilização da moeda local. Não existe auditoria independente.

A primeira venda rendeu 500 milhões de dólares. O dinheiro foi depositado no Catar

Para a comercialização do petróleo, um acordo foi fechado com a Trafigura, uma das maiores traders do mundo, sediada em Genebra. Ainda que pela Suíça não passe um único e escasso litro do petróleo, a corretora ganhou o direito de intermediar as transações. Em 9 de janeiro, a companhia emitiu um comunicado apologético: “A pedido do governo dos EUA”, diz o texto, “a Trafigura e a Vitol estão prestando serviços de logística e marketing para facilitar a venda de petróleo venezuelano”. Prossegue a nota: “A escala e a capacidade da Trafigura como uma das maiores empresas independentes de comercialização de petróleo do mundo, aliadas à nossa frota global de navios e rede logística, nos posicionam entre as poucas empresas capazes de executar uma operação dessa magnitude e complexidade com eficiência”. Detalhe: John Addison, executivo da ­Viotol, parceira da Trafigura na transação, doou 6 milhões de dólares à campanha de Trump. Seria o contrato de venda do petróleo venezuelano, sem licitação, uma retribuição à generosidade do doador?

Nem o comunicado nem o governo Trump mencionam o fato de que, em 2025, a trader se envolveu em um escândalo de enormes proporções. O Supremo Tribunal da Suíça condenou a Trafigura­ e o executivo Mike ­Wainwright por suborno em um contrato que incluía o acesso ao mercado de petróleo de Angola­. Wainwright, ex-diretor de operações da empresa, pegou 32 meses de cadeia e a empresa viu-se forçada a pagar uma multa de 148 milhões de dólares.

A Trafigura é uma velha conhecida da Justiça dos EUA e do Brasil. Depois de anos de investigações no contexto da Operação Lava Jato, a trader concordou em pagar 75,8 milhões de dólares em um acordo com as autoridades brasileiras, encerrando em abril do ano passado os processos cíveis em andamento. O desfecho só se deu após a confissão de culpa em um tribunal federal norte-americano, onde a empresa admitiu ter pago propinas entre 2003 e 2014 e concordado com uma multa de 127 milhões de dólares.

Parceria. Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez finge indignação, enquanto aceita os termos do confisco imposto pela Casa Branca – Imagem: Federico Parra/AFP e Marinha dos EUA

O histórico não impediu a corretora de ser escolhida pelo governo Trump para atuar no lucrativo mercado venezuelano. Em 25 de janeiro, zarpou do complexo portuário de José, no estado de ­Anzoátegui, a primeira embarcação carregada com petróleo do país sul-americano com destino à Louisiana. O carregamento representou o primeiro marco operacional da entrega dos recursos locais e reabriu a rota direta com os EUA. De fato, enquanto empresas do setor do petróleo hesitavam em embarcar na aventura de Trump na região, nos dias seguintes ao sequestro de Maduro, o CEO da Trafigura, Richard Holtum, afirmou ao republicano que o grupo estava trabalhando “para trazer esse petróleo venezuelano para os Estados Unidos”.

A operação não termina, porém, nas refinarias dos EUA. A Trafigura tem oferecido petróleo bruto venezuelano à China e à Índia, com as primeiras entregas prometidas para março. Em uma entrevista recente à Bloomberg, o chefe global da divisão de petróleo da trader, Ben Luckock, disse: “Acho que todos estão de olho nas oportunidades que podem existir na Venezuela”. Um fator decisivo é o impacto na variação de preços que a oferta do óleo do país caribenho teria diante do risco geopolítico decorrente dos protestos no Irã e da tensão crescente entre Teerã e Washington.

O esquema montado é radicalmente diferente da estrutura criada após a queda de Saddam Hussein, também pelas mãos dos EUA. Naquele momento, um Fundo de Desenvolvimento para o Iraque foi estabelecido. O sistema havia sido criado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e o dinheiro era administrado pelo ­Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, em um processo que garantia ao mesmo tempo independência em relação à Casa Branca e certa transparência. Um ano depois, a gestão dos poços voltou ao controle dos iraquianos, ainda que os contratos tivessem sido distribuídos a empresas ocidentais e, principalmente, norte-americanas. No caso de Caracas, menos de um mês depois da “extração” de Maduro­, parlamentares venezuelanos deram apoio inicial aos planos para abrir o setor petrolífero a investidores privados, pavimentando o caminho para o retorno das grandes empresas de energia norte-americanas, exigência de Trump. A aprovação enterrava um dos pilares do governo chavista, o controle estatal sobre o setor.

Ao sequestrar Maduro, Washington herdou um abacaxi. Hoje, a Venezuela tem uma dívida com credores estrangeiros de cerca de 140 bilhões de dólares. Uma parte é com a China e há até mesmo pendências com o BNDES, banco de fomento do Brasil. Uma ordem executiva assinada por Trump dias depois da operação em Caracas­ impede, no entanto, que os dividendos das exportações sejam usados para quitar as dívidas do Estado venezuelano. Segundo a ordem, os fundos “pagos ou mantidos em contas designadas pelo Tesouro dos EUA” ou recursos “em nome da Venezuela ou de suas agências ou entidades” devem ser protegidos dos credores. A decisão afeta as petroleiras estrangeiras que tiveram ativos nacionalizados e que esperavam recuperar os investimentos. As companhias norte-americanas reivindicam uma indenização de 25 bilhões de dólares do país­ caribenho. Só a ­ConocoPhillips registrou três solicitações de quase 12 bilhões de dólares. “Não vamos olhar para o que as pessoas perderam no passado, porque a culpa foi delas”, disse Trump ao CEO da empresa, Ryan Lance, durante reunião na Casa Branca em 9 de janeiro. A atitude gerou insatisfação. “Nossos ativos já foram confiscados lá duas vezes”, rebateu o presidente da ExxonMobil­, Darren Woods, no mesmo encontro.

O deputado Thomas Massie, do partido de Trump, chama a operação de roubo

Não só os executivos do setor se sentiram ludibriados. A decisão de Trump gerou reações no mundo político. Os democratas exigem transparência nos negócios venezuelanos e querem mais informações a respeito da contínua presença dos barcos militares na costa caribenha. Um grupo de senadores de oposição enviou uma carta à Casa Branca, na qual exigem saber se o círculo íntimo do magnata lucrará com a venda de petróleo. Os parlamentares querem que funcionários do governo sejam obrigados a divulgar “imediatamente quaisquer interesses financeiros” em empresas com atuação no setor na Venezuela. A carta assinada por Adam Schiff­, da Califórnia, e Elizabeth Warren, de Massachusetts­, entre outros, cita a recente proposta de Washington às empresas, oferecendo garantias de segurança privada como forma de convencer executivos do setor a investir no país politicamente instável. O presidente e CEO do Instituto Americano de Petróleo, Mike Sommers, afirmou que mudanças nas políticas, segurança e proteções de investimento estavam entre os pré-requisitos para as petroleiras voltarem a investir na Venezuela.

Nem mesmo os republicanos parecem convencidos. Um dos ataques mais duros veio justamente de um deputado do partido, Thomas Massie, que descreveu o petróleo adquirido da Venezuela como “roubado” em uma publicação na plataforma social X e argumentou que o governo burlava o poder do Parlamento sobre o orçamento. “Vender petróleo roubado e depositar bilhões de dólares em um banco no Catar para serem gastos sem a aprovação do Congresso não é constitucional”, escreveu. “Somente o Congresso pode destinar verbas.” Massie acrescentou: “O presidente não pode legalmente criar um segundo Tesouro no exterior para seu próprio bolso. Acorde, Congresso”.

O comentário enfureceu a Casa Branca. “O presidente Trump prendeu o líder narcoterrorista da Venezuela que envenenou o povo americano com drogas mortais e enviou milhares de imigrantes ilegais perigosos para o nosso país”, respondeu a porta-voz Taylor Rogers. Quanto às dúvidas lançadas pelo parlamentar, o governo preferiu manter silêncio. •

Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O butim dos piratas’

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