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O bloqueio do bloqueio

Sem a mínima ideia de como sair da encalacrada, Trump fecha o estreito que já estava fechado

O bloqueio do bloqueio
O bloqueio do bloqueio
Mais do mesmo. Após o fracasso das negociações comandadas pelo vice JD Vance, os EUA decidiram interceptar navios “inimigos” que passam por Ormuz – Imagem: Marinha dos EUA e Anna Moneymaker/Getty Images/AFP
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Incapaz de reabrir o Estreito de ­Ormuz, Donald Trump partiu para uma estratégia diferente: fechar o estreito que já está fechado. A ideia do presidente norte-americano é fazer parecer que são os Estados Unidos, não o Irã, que exercem o controle sobre a passagem que tem pouco mais de 30 quilômetros de largura, e por onde, antes da guerra, trafegava 20% do comércio mundial de petróleo.

Ormuz foi fechado pelo Irã em 28 de fevereiro. Desde então, o regime iraniano determina quem pode ou não pode passar pela rota. O controle é exercido por meio da dispersão de minas marítimas em pontos específicos do canal. Além disso, drones aéreos e submarinos, juntamente com lanchas rápidas e peças de artilharia posicionadas em pontos estratégicos da costa escarpada, colocam navios de todas as nacionalidades na mira. Os países neutros ou aliados de Teerã têm passagem liberada. Já os navios norte-americanos ou que estão de alguma forma ligados ao comércio com os Estados Unidos, são bloqueados.

O bloqueio iraniano viola normas do direito internacional, mas o regime argumenta que a medida se justifica como única forma de se contrapor a uma agressão cometida por norte-americanos e israelenses de maneira também ilegal. A ideia é cobrar por um pedágio e usar o dinheiro para reconstruir o país, castigado por mais de um mês de bombardeios aéreos.

A ONU diz que os países cuja costa serve de passagem para o comércio internacional, caso do Irã, não têm o direito de estrangular esses pontos vitais. Da mesma maneira, nenhum país tem o direito de iniciar uma agressão contra outro, como fizeram os Estados Unidos e Israel­ contra o Irã, sem ter sido antes atacado ou sem anuência do Conselho de Segurança das Nações Unidas. É nessa competição de ilegalidade que Trump não quer ficar para trás.

Primeiro, o presidente norte-americano tentou durante 40 dias liberar o estreito, mas não conseguiu. Logo no início do conflito, o republicano pensou que, ao matar o então líder supremo do Irã, Ali Khamenei, o regime inteiro cairia e floresceria uma democracia liberal no lugar da teocracia que vigora no país desde 1979. Khamenei de fato foi morto logo nos primeiros lances desta guerra, mas o regime não apenas se manteve intacto como também encontrou no antagonismo aberto com um inimigo externo mais poderoso motivos para se mostrar ainda mais coeso e aferrado ao poder.

Com capacidade militar muito inferior à dos Estados Unidos, o Irã encontrou no bloqueio do estreito uma maneira de compensar sua desvantagem. Em pouco tempo, o preço do barril do petróleo Brent, usado como referência no mercado internacional, chegou perto dos 120 dólares. A alta histórica provocou efeito dominó na economia mundial, com consequências especialmente nocivas para um consumidor norte-americano que irá às urnas em novembro para renovar o Congresso.

O estoque de ameaças do presidente dos EUA está em baixa

Premidos pela alta dos preços, os Estados Unidos acreditaram que todos os aliados europeus responderiam ao chamado para liberar o estreito, mas o presidente da França, além dos primeiros-ministros da Espanha e do Reino Unido, juntamente com o chanceler da Alemanha, refugou. Nenhum deles aceitou participar do que a Europa classifica como uma agressão ilegal dos Estados Unidos ao Irã. Essa retirada de apoio levou a Otan, a poderosa aliança militar que une europeus e norte-americanos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, ao estado comatoso em que se encontra agora.

Isolado e sem conseguir encontrar uma saída honrosa para a guerra, Trump passou a apelar para ultimatos e ameaças superlativas, como forma extrema de tentar dobrar o regime. Primeiro, ameaçou destruir toda a infraestrutura necessária à vida civil no Irã, incluindo pontes, viadutos, usinas de geração de energia elétrica e estações de tratamento de água. Como esse ultimato não surtiu efeito, partiu para outro, ainda mais grave, e simplesmente anunciou que acabaria com toda a civilização iraniana, de maneira que ela nunca mais pudesse se recompor. A declaração, de conteúdo abertamente genocida, provocou ultraje até mesmo entre seus aliados, e provou-se, além de tudo, um blefe.

Sem conseguir liberar o estreito à força e sem conseguir intimidar o Irã com seus ultimatos apocalípticos, Trump tenta agora tomar para si a iniciativa de fechar o estreito de maneira seletiva. A ideia do presidente dos Estados Unidos é impedir apenas o trânsito de embarcações que tenham como origem e destino os portos iranianos. Se implementada, a medida representaria um endurecimento na política de embargos e sanções impostas há anos contra os iranianos, e teria efeito não apenas na economia nacional de seu inimigo direto, mas na principal potência rival, a China, para a qual os iranianos exportam entre 80% e 90% de todo seu petróleo.

No mesmo dia em que Trump anunciou o bloqueio naval ao Irã, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiankun, defendeu a manutenção de um estreito “seguro, estável e desimpedido”, nos termos do direito internacional. A China tem apoiado o Paquistão em seus esforços para mediar uma saída pacífica para a guerra, até aqui sem sucesso. Na última rodada de conversações, na segunda-feira 13, em Islamabad, norte-americanos e iranianos saíram de mãos abanando.

O desespero de Trump com o atoleiro em que parece ter se metido no Oriente Médio fez com que ele abrisse novas frentes de batalhas retóricas de grande repercussão. A mais recente foi com o papa Leão XIV. O pontífice tem feito seguidas declarações contra a guerra e contra aqueles que a movem. Embora as críticas estejam no script que se espera de alguém nessa função, Trump reagiu com pesadas truculência e ironia em relação ao pontífice. Em suas redes, o presidente norte-americano chegou a publicar uma imagem gerada por Inteligência Artificial, na qual ele aparece como Jesus Cristo, de túnica, a ungir um enfermo. Após críticas da base, voltou atrás, dizendo que a intenção era emular a imagem de um enfermeiro da Cruz Vermelha. •

Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O bloqueio do bloqueio’

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