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Nova guerra civil nos EUA, antes impensável, tornou-se verossímil

Uma série de pesquisas de opinião recente mostra que uma minoria significativa dos norte-americanos aceita a ideia de atos violentos contra o governo

Estímulo. Muitos republicanos negam os riscos à democracia da invasão do Capitólio
Estímulo. Muitos republicanos negam os riscos à democracia da invasão do Capitólio

Joe Biden passou um ano com a esperança de que os Estados Unidos pudessem voltar ao normal. Mas, na última quinta-feira 6, o primeiro aniversário da insurreição mortífera no Capitólio em Washington, o presidente finalmente reconheceu a ampla escala da ameaça atual à democracia do país. “Neste momento, precisamos decidir: que tipo de nação vamos ser?”, disse Biden no Salão das Estátuas, que manifestantes invadiram no tumulto um ano atrás. “Seremos uma nação que aceita a violência política como norma?”

É uma pergunta que muitos se fazem hoje nos Estados Unidos e no mundo. Em uma sociedade profundamente dividida, onde até uma tragédia nacional como aquela de 6 de janeiro só afastou ainda mais a população, há o temor de que aquele dia tenha sido apenas o começo de uma onda de distúrbios, conflitos e terrorismo doméstico. Uma série de pesquisas de opinião recente mostra que uma minoria significativa dos norte-americanos aceita a ideia de atos violentos contra o governo. Até conversas sobre uma nova guerra civil passaram das fantasias marginais à corrente dominante da mídia.

“Haverá guerra civil?” foi o título seco de um artigo na mais recente edição da revista New Yorker. “Estamos realmente diante de uma segunda guerra civil?”, indagou o título de uma coluna no The New York Times na sexta-feira 7. Três generais aposentados escreveram recentemente uma coluna no The ­Washington Post na qual advertem que mais uma tentativa de golpe de Estado “poderá levar à guerra civil”.

“Seremos uma nação que aceita a violência política como norma?”, pergunta Biden

O mero fato de que essas ideias entrem no domínio público mostra que o antes impensável tornou-se verossímil, mesmo que alguns afirmem que continua fortemente improvável. O nervosismo é alimentado pelo rancor em ­Washington, onde o desejo de bipartidarismo de Biden se chocou com a oposição republicana radicalizada. Os comentários do presidente na quinta 6 – “não permitirei que ninguém coloque uma adaga no pescoço de nossa democracia” – pareceram admitir que não pode haver vida normal quando um dos grandes partidos do país abraça o autoritarismo.

Para ilustrar essa tese, quase nenhum republicano participou das comemorações, enquanto o partido tenta reescrever a história, pintando a turba que tentou reverter a derrota eleitoral de Trump como mártires em defesa da democracia. Tucker Carlson, o mais assistido apresentador na rede conservadora Fox News, recusou-se a transmitir qualquer vídeo do discurso de Biden e afirmou que 6 de janeiro de 2021 “mal representa uma nota de rodapé” histórica, porque “realmente não houve muita coisa naquele dia”.

Com o culto a Trump mais predominante do que nunca no Partido Republicano, e grupos de direita radicais como os Oath Keepers (Guardiões do Juramento) e Proud Boys (Rapazes Orgulhosos) em marcha, alguns consideram a ameaça à democracia maior hoje do que um ano atrás. Entre os que dão o alarme está ­Barbara Walter, cientista política da Universidade da Califórnia, em San Diego, e autora de um novo livro, How Civil Wars Start, and How to Stop Them (Como as Guerras Civis Começam e Como Contê-las). Walter serviu anteriormente na força-tarefa sobre instabilidade política, grupo assessor da CIA que tinha um modelo para prever a violência política em países do mundo todo, exceto nos Estados Unidos. Com a ascensão da demagogia racista de Trump, Walter, que estudou a guerra civil durante 30 anos, admitiu, porém, sinais reveladores em sua própria porta.

Ilusão. Joe Biden acreditava ser capaz de unir o país, mas as fraturas estão expostas

Um deles foi o surgimento de um governo que não é nem totalmente democrático nem totalmente autocrático, uma “anocracia”. O outro é uma paisagem que se desenvolve em política identitária, quando os partidos não mais se organizam em torno de uma ideologia ou de políticas específicas, mas segundo linhas raciais, étnicas ou religiosas. Walter disse a The Observer:­ “Na época das últimas eleições, 90% do Partido Republicano era de brancos. Na força-tarefa, se víssemos isso em outro ­país multiétnico, multirreligioso e baseado num sistema bipartidário, é o que chamaríamos de uma superfacção, e uma superfacção é algo particularmente perigoso”.

Nem mesmo o mais sombrio pessimista prevê uma repetição da guerra civil de 1861 a 1865, com um exército azul e um vermelho a travar batalhas ferozes. “Seria mais parecido com o que a Irlanda do Norte e a Grã-Bretanha experimentaram, onde há mais uma insurgência”, continua Walter. “Provavelmente, seria mais descentralizada do que na Irlanda do Norte, porque temos um país tão grande e há tantas milícias por todo o ­país. Elas recorreriam a táticas não convencionais, em particular o terrorismo, talvez até um pouco de guerrilha, na qual visariam prédios federais, sinagogas, locais com multidões. A estratégia seria de intimidação e de assustar o público, levando-o a acreditar que o governo federal não é capaz de cuidar dele.”

Um complô para sequestrar Gretchen Whitmer, a governadora democrata de Michigan, em 2020, pode ser um aviso do que virá. Walter sugere que figuras da oposição, republicanos moderados e juízes considerados não simpáticos poderão se tornar potenciais alvos de atentados. “Também posso imaginar situações em que as milícias, em conjunção com órgãos policiais nessas áreas, criem pequenos ­etnoestados em áreas onde isso é possível, por causa do modo como o poder é dividido aqui nos Estados Unidos. Certamente, não se pareceria em nada com a guerra civil que aconteceu nos anos 1860.”

Trevas. Trump, que pretende disputar a presidência em 2024, continua a mobilizar suas bases e a contaminar o Partido Republicano, cada vez mais radical, farsesco e autoritário como o businessman

Walter comenta que a maioria tende a supor que as guerras civis são iniciadas por pobres ou oprimidos. Nem tanto. No caso da América, é a reação de uma maioria branca destinada a se tornar uma minoria por volta de 2045, um eclipse simbolizado pela eleição de Barack Obama em 2008. A acadêmica explica: “Os grupos que tendem a iniciar guerras civis são aqueles que foram dominantes politicamente, mas estão em declínio. Ou eles perderam o poder político ou o estão perdendo, e realmente acreditam que o país é deles por direito e que é justificável usarem a força para recuperar o controle, porque o sistema não funciona mais para eles”.

Um ano depois da insurreição de 6 de janeiro, o ambiente no Capitólio continua tóxico, em meio à ruptura da civilidade, confiança e normas comuns. Vários congressistas republicanos receberam mensagens ameaçadoras, incluída uma de morte, depois de votarem a favor de uma lei de infraestrutura bipartidária a que Trump se opôs. Os dois republicanos na comissão da Câmara que investiga o ataque de 6 de janeiro, Liz ­Cheney e Adam Kinzinger, enfrentam pedidos para que sejam expulsos do partido. A democrata Ilhan Omar, de Minnesota, uma muçulmana nascida na Somália, sofreu agressões islamofóbicas.

Mas os apoiadores de Trump afirmam que são eles que lutam para salvar a democracia. No ano passado, o congressista Madison Cawthorn, da Carolina do Norte,­ disse: “Se os nossos sistemas eleitorais continuarem a ser manipulados e roubados, isso levará a um lugar, que é o derramamento de sangue”. No mês passado, a congressista Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, que lamentou o tratamento dado aos réus presos por participarem do ataque de 6 de janeiro, pediu um “divórcio nacional” entre os estados azuis e vermelhos. O democrata Ruben Gallego respondeu com vigor: “Não há ‘divórcio nacional’. Ou você é a favor da guerra civil ou não. Apenas diga se você quer uma guerra civil e se declare oficialmente uma traidora”.

Os especialistas apontam os riscos de um conflito semelhante à disputa entre Irlanda do Norte e Inglaterra

Também há a perspectiva de Trump se candidatar a presidente novamente em 2024. Os estados de maioria republicana têm imposto leis de restrição eleitoral calculadas para favorecer o partido, enquanto defensores de Trump tentam tomar a direção das eleições atuais. Uma corrida disputada para a Casa Branca poderá ser um coquetel incendiário. James ­Hawdon, diretor do Centro para Estudos da Paz e Prevenção da Violência na Universidade Virginia Tech, disse: “Não gosto de ser alarmista, mas o país caminha cada vez mais para a violência, e não para longe dela. Outra eleição contestada poderá ter consequências sinistras”.

Embora a maioria dos norte-americanos tenha sido levada a acreditar que a democracia estável é um fato consumado, esta também é uma sociedade onde a violência é a norma, não a exceção, do genocídio dos nativos à escravidão, da guerra civil a quatro presidentes assassinados, da violência armada que tira 40 mil vidas por ano a um complexo militar-industrial que matou milhões de seres humanos em outros países. Larry Jacobs, diretor do Centro de Estudos de Política e Governança na Universidade de Minnesota, disse: “A América não está desacostumada com a violência. É uma sociedade muito violenta, e do que estamos falando é de a violência receber uma agenda política explícita. Esta é uma nova direção de um tipo aterrorizante nos Estados Unidos”.

Guerra civil. Talvez as batalhas do século XIX não tenham sido suficientes

Embora não preveja atualmente que a violência política se tornará endêmica, ­Jacobs concorda que tal desenvolvimento também se pareceria mais provavelmente com os problemas da Irlanda do Norte. “Teríamos ataques terroristas episódicos e esparsos”, acrescentou. “O modelo da Irlanda do Norte é o que francamente mais temo, porque não exige que um grande número de indivíduos atue, e hoje há grupos muito motivados e bem armados. A questão é: o FBI os infiltrou suficientemente para poder derrubá-los antes que lancem uma campanha de terror?” O acadêmico prossegue: “É claro, não ajuda o fato de que nos Estados Unidos as armas sejam onipresentes. Qualquer um pode ter uma, e você tem fácil acesso a explosivos. Tudo isso é combustível para a posição precária em que estamos hoje”.

Entretanto, nada é inevitável. Biden também usou seu discurso para elogiar a eleição de 2020 como a maior demonstração da democracia na história dos Estados Unidos, com um recorde de mais de 150 milhões de eleitores, apesar da pandemia. As contestações ao resultado inventadas por Trump foram descartadas pelo que continua a ser um sistema judicial robusto e fiscalizado por uma sociedade e uma mídia que continuam vibrantes.

Em um teste de realidade, Josh ­Kertzer, cientista político da Universidade Harvard, tuitou: “Conheço muitos estudiosos da guerra civil e… poucos deles acham que os Estados Unidos estejam à beira de uma guerra civil”. A suposição de que “isso não pode acontecer aqui” é, no entanto, tão antiga quanto a própria política. Barbara Walter entrevistou vários sobreviventes sobre a escalada de guerras civis. “O que todo mundo disse, fosse em Bagdá, Sarajevo ou Kiev, é que não perceberam sua chegada”, lembrou ela. “Na verdade, não quisemos aceitar que havia algo errado até que ouvimos tiros de metralhadora nos morros. Então era tarde demais.”


Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1191 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE JANEIRO DE 2022.

CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: BRENT STIRTON/GETTY IMAGES/AFP E CAMERON SMITH/OFFICIAL WHITE HOUSE – U.S. LIBRARY OF CONGRESS E GREG SKIDMORE/TFP

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David Smith

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The Observer

The Observer
Fundado em 1791, é um semanário publicado sempre aos domingos no Reino Unido. Pertence ao mesmo grupo de mídia do reconhecido The Guardian.

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