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Notícias de um sequestro
Com a derrubada de Maduro, os EUA podem lucrar 150 bilhões de dólares anuais com o petróleo venezuelano
As possibilidades de ganhos econômicos e financeiros dos EUA na Venezuela vão muito além do controle da maior reserva provada de petróleo do mundo, com 330 bilhões de barris. De caráter estratégico, elas incluem um amplo conjunto de recursos naturais, vantagens logísticas e participações de investidores norte-americanos em empresas instaladas no país.
Sequestrar o presidente Nicolás Maduro e dominar a economia da Venezuela pode proporcionar um lucro anual de 150 bilhões de dólares para as companhias petrolíferas dos EUA, estima o economista Gabriel Zucman, professor da escola de Economia de Paris e da Universidade da Califórnia-Berkeley e diretor do Observatório Fiscal da União Europeia. É preciso levar em conta também o acesso à segunda maior jazida de ouro do mundo e aos mananciais de ferro, bauxita, terras-raras e gás natural, riquezas avaliadas em 14 trilhões de dólares, segundo a publicação Venezuelanalysis.
Trump declarou que Washington vai administrar “temporariamente” a Venezuela, subsidiar empresas norte-americanas privadas para a modernização da sua infraestrutura petrolífera e vender as reservas de petróleo. Combinou com a vice-presidente no exercício do cargo, Delcy Rodríguez, a entrega de milhões de barris de petróleo nos próximos dois meses e disse que controlará a receita da sua venda “para garantir que seja usada em benefício do povo da Venezuela e dos EUA”. O estoque está armazenado em navios-tanque e reservatórios, que tiveram a entrega paralisada pelo bloqueio imposto pelo próprio presidente norte-americano.
A Venezuela também tem a segunda maior reserva de ouro do mundo
Este é apenas o começo. Os EUA são o maior consumidor mundial de petróleo, mas detêm apenas 2% das reservas mundiais e chegaram a importar 45% da produção da Venezuela. O petróleo representa 98% das exportações e 50% do PIB da nação caribenha e é a fonte mais próxima de suprimento dos norte-americanos, a apenas 2,5 mil quilômetros de distância, enquanto a Arábia Saudita fica a 12,5 mil quilômetros.
Entre as riquezas da economia antes comandada por Maduro destaca-se a segunda maior reserva de ouro do mundo, de 8,9 mil toneladas métricas, enquanto a dos EUA figura na quinta posição, com 3 mil toneladas, aponta um estudo do Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica (Celag). A Venezuela conta também com 5,7 trilhões de metros cúbicos de gás natural, pouco abaixo do manancial dos EUA.
Além disso, “as reservas de ferro estimadas da Venezuela compõem 14,6% do grupo de minerais nos quais os EUA têm um nível moderado de vulnerabilidade, porque importam até 49% do que consomem. Apropriando-se desse recurso, quintuplicariam sua disponibilidade do minério e praticamente eliminariam essa dependência”, sublinha o Celag.
A bauxita, matéria-prima do alumínio, faz parte das riquezas do país latino-americano. Apesar de contar com 1% da reserva mundial, tem 16 vezes mais bauxita do que os EUA, que dependem em 100% da importação desse insumo para abastecer o seu consumo.
“Ainda que os EUA tenham autonomia energética, os ganhos potenciais de explorar o petróleo na Venezuela são muito grandes para serem ignorados. Isso vale não apenas pelo petróleo em si, mas também porque controlar o óleo venezuelano significa, em grande medida, controlar o país”, ressalta o economista Rodrigo Fracalossi de Moraes, membro do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e bolsista em Relações Internacionais na Universidade de Southampton, na Inglaterra.
A Venezuela produz, hoje, cerca de 1 milhão de barris por dia, ante os perto de 3,5 milhões do fim dos anos 1990, prossegue Moraes. Diversas empresas dos EUA têm capacidade de extrair e refinar petróleo pesado, incluindo a Chevron, que opera na Venezuela. Transportar petróleo de lá para refinarias no Golfo do México seria relativamente barato e conveniente.
As dificuldades decorrentes do sucateamento da infraestrutura e da indústria petrolífera venezuelana são reais. “Há, de fato, um problema grave de infraestrutura na Venezuela, mas ganhar contratos de obras foi definido como um dos objetivos na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgada recentemente. A estratégia também estabeleceu que o governo dos EUA iria trabalhar para que empresas de outros países não ganhassem contratos na região”, acrescenta o economista. Uma alusão à retomada da doutrina definida em 1823 pelo presidente James Monroe, de restringir a influência estrangeira nas Américas aos EUA. A Doutrina Monroe é reumida na frase “América para os americanos”, ou, em outras palavras, “Aqui é nosso quintal e de ninguém mais”.
Um dos petroleiros apreendidos pelos EUA tinha ligações com a China. Os ganhos da Aramco, principal petroleira da Arábia Saudita, são referência para o lucro potencial com o rapto de Maduro – Imagem: Arquivo/AFP, Aramco Global e PDVSA Venezuela
“De um ponto de vista mais estratégico, o governo Trump quer restaurar o papel dos EUA de xerife das Américas. E o sequestro de Maduro tem um efeito dissuasório, mostrando o que pode acontecer com aqueles que desafiarem Washington. A nova presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, parece ter entendido o recado”, resume Moraes.
Um governo aliado na Venezuela daria aos EUA amplo acesso às elites do país e permitiria a exclusão, ainda que parcial, de países rivais, acrescenta o economista. Washington poderia limitar o acesso de empresas de outros países, como China e Irã, que vinham auxiliando a Venezuela a recuperar parte da produção de petróleo no país. Um dos petroleiros apreendidos semanas atrás pelos EUA tinha ligações com a China, autora do único levantamento geológico completo dos recursos minerais críticos da Venezuela, realizado pela empresa estatal chinesa Citic.
O arco de interesses dos EUA na Venezuela inclui a esfera financeira, ressalta Zucman. “Não é possível compreender a remoção de Maduro sem entender os enormes interesses financeiros envolvidos na mudança de regime em Caracas e o longo histórico de extração transfronteiriça de riqueza da Venezuela para os EUA”, sublinhou Zucman em uma rede social.
Até meados da década de 1950, prossegue o economista, em torno de 12% do produto interno líquido da Venezuela – o valor de tudo que é produzido no país a cada ano – foi diretamente para os bolsos dos acionistas norte-americanos. Esse valor era equivalente à renda somada da metade mais pobre da população venezuelana. Daí em diante, em especial com Hugo Chávez na Presidência, essa participação caiu e em 2020, chegou a zero.
“Trump não esconde sua ambição: restaurar os termos brutalmente unilaterais que prevaleceram entre as décadas de 1920 e 1960. Se ele for bem-sucedido, os lucros da indústria petrolífera dos EUA – um dos maiores financiadores do Partido Republicano – poderão facilmente dobrar ou até triplicar”, dispara Zucman. Quando o PIB da Venezuela crescia, era em benefício das grandes fortunas dos EUA, na forma de dividendos e de altos salários pagos a funcionários americanos, acrescenta o economista.
Até os anos 1950, 12% do PIB da Venezuela foi para os bolsos de acionistas norte-americanos
A partir dos anos 1960, como no resto da América Latina, governos da Venezuela tentaram negociar condições financeiras mais equilibradas. Um político venezuelano, Juan Pablo Pérez Alfonzo, foi importante na criação da Organização dos Países Produtores de Petróleo, a Opep. Com Chávez, o país nacionalizou os ativos da ExxonMobil, Shell e Chevron.
As reservas petrolíferas da Venezuela, apesar de serem as mais importantes do mundo, estão pouco operantes e com a produção parcialmente em colapso devido à má gestão e, principalmente, às sanções mais duras dos EUA em 2017. “Quando Trump diz que quer ‘governar’ a Venezuela, esse é o projeto dele. Para estabelecer uma ordem de grandeza, os lucros da Aramco, a maior empresa de petróleo da Arábia Saudita, que abriga a segunda maior reserva da commodity, subiram para 100 bilhões a 150 bilhões de dólares por ano nos últimos anos. Este é o montante em jogo, hoje, por trás do rapto de Maduro”, dispara o economista.
Em uma observação relevante, em especial para as economias latino-americanas, consideradas por Trump uma área de domínio dos EUA, o economista Michael Hudson, professor emérito da Universidade do Missouri, salientou que a escalada estadunidense vem de longa data e visa impedir a constituição de uma cadeia produtiva e de uma indústria nacional. O setor do petróleo e a diplomacia dos EUA, detalha Hudson, mantiveram a Venezuela como refém antes de tudo porque as refinarias de petróleo não foram construídas no país, mas em Trinidad e nos estados do Sul dos EUA. Isso permitiu que as companhias de petróleo e o governo estadunidense a deixassem sem autonomia para perseguir uma política independente com seu petróleo, que precisava ser refinado. “Não ajuda ter reservas de petróleo se você não conseguir refinar para torná-lo utilizável”, observa o professor. •
Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Notícias de um sequestro’
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