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‘Nosso feminismo é antifascista’: marcha em Lyon vira resposta a mobilização neonazista
Na mesma praça que semanas antes recebeu militantes neonazistas, cerca de 10 mil pessoas marcharam pelo 8 de Março, sob reivindicações globais e a disputa política local
Lyon, França — Poucos dias após o Dia Internacional das Mulheres, as ruas de Lyon ainda carregam os ecos de um 8 de Março marcado por uma combinação que tem se tornado cada vez mais comum no cenário político contemporâneo: mobilização feminista massiva e reação da extrema direita.
Na tarde de domingo, centenas de vozes começaram a se reunir na Praça Jean-Macé, um dos pontos centrais da terceira maior cidade da França. Aos poucos, o coro se transformou em uma marcha que reuniu quase 10 mil pessoas. segundo estimativa da prefeitura, número superior às 8 mil registradas no ano passado.
O cortejo seguiu em direção à Praça Bellecour entoando um slogan que, embora nascido longe da França, tornou-se símbolo de uma luta global: “Femmes, vie, liberté” — “Mulheres, Vida, Liberdade”.
A expressão, de origem curda, ganhou projeção mundial após os protestos no Irã em 2022, quando milhares de mulheres tomaram as ruas após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia moral do regime.
Entre as principais reivindicações estavam o combate à violência de gênero, a ampliação de políticas públicas de proteção às vítimas e o reconhecimento do trabalho doméstico e de cuidado — historicamente invisibilizado. Coletivos feministas também defenderam a convocação de uma greve do trabalho doméstico, proposta inspirada em mobilizações que ganharam força na América Latina na última década, especialmente na Argentina e no Chile.
- Pichações disputa espaço mobilizado pela extrema-direita lyonesa. Foto: Danilo Queiroz/ Carta Capital
- Ato teve como mote a resistência feminista e a luta contra o patriarcado, imperialismo, fascismo, colonialismo e sionismo. Foto: Ûmberto François/Arquivo Pessoal
- Entre os cartazes, apoio às mulheres migrantes. Foto: Ûmberto François/Arquivo Pessoal
- Entre as reinvindações, está o fim do assassinato de pessoas trans na cidade. Foto: Danilo Queiroz/Carta Capital
Mas o contexto da marcha em Lyon foi marcado por um fator adicional: a sombra recente da mobilização da extrema direita neonazista na cidade.
Duas semanas antes da marcha feminista, a mesma região havia sido ocupada por centenas de militantes neonazistas vindos de diferentes partes da Europa.
O episódio provocou forte repercussão na cidade e gerou preocupação entre moradores e estudantes. Universidades chegaram a alertar alunos para evitarem circular nas imediações da praça.
A mobilização ocorreu após a morte de Quentin Deranque, jovem ligado a círculos ultranacionalistas. O caso foi rapidamente instrumentalizado por grupos radicais, que convocaram atos na cidade.
Diante desse cenário, a marcha feminista também assumiu um caráter explícito de resposta política. Entre cartazes e bandeiras, outro coro ganhou força entre as manifestantes: “Notre féminisme est antifasciste”.
Militantes também apagaram ou riscaram cartazes de incitação ao ódio espalhados pela região após as manifestações da extrema direita.
“Lamentamos profundamente essa morte, mesmo que as opiniões desse jovem fossem diametralmente opostas às nossas — homofóbicas, sexistas e anti-LGBT”, afirmou uma militante que preferiu não se identificar. “Mas desde então temos sido alvo de intimidações e ameaças.”
Para organizadoras da marcha, o crescimento de movimentos ultranacionalistas na Europa representa uma ameaça direta aos direitos conquistados por mulheres e minorias.
O alerta não se restringe à França. Nos últimos anos, partidos e lideranças de ultradireita ganharam espaço em vários países europeus, frequentemente combinando discursos anti-imigração com críticas às pautas feministas e aos direitos LGBT.
A experiência de brasileiras na França
Entre os grupos presentes na manifestação estava também um coletivo de mulheres latino-americanas formado por estudantes e imigrantes.
A brasileira Anita H., que vive na França há seis meses para realizar um mestrado, participou da marcha carregando uma bandeira feminista.
“Mesmo que o aborto seja legal na França, no Brasil tivemos recentemente uma série de casos de feminicídio denunciados pela imprensa”, disse. “Estou aqui para lembrar que a luta feminista pode ter características diferentes em cada país, mas também é internacional.”
Segundo ela, a experiência de viver na Europa não significa estar livre da violência ou do preconceito.
“Já sofri assédio algumas vezes por ser brasileira. No meu primeiro mês aqui um homem me seguiu de carro me chamando para entrar. Eu tinha acabado de chegar e isso mexeu muito comigo.”
Nascida em São Paulo e criada em Alter do Chão, no Pará, Anita afirma que pretende seguir mobilizada. “Vou continuar lutando até que frases como ‘a França salvou a Argélia’, que ainda são comuns de ouvir aqui, deixem de existir.”
Avanços e limites do feminismo francês
Durante a marcha, militantes lembraram que a França possui alguns marcos históricos importantes no avanço dos direitos das mulheres — como a legalização do aborto em 1975 e mudanças culturais impulsionadas por movimentos recentes como o #MeToo.
Ainda assim, organizações feministas estimam que cerca de 150 feminicídios ocorram por ano no país.
Para Roxane M., militante do Partido Comunista Revolucionário da França, as desigualdades de gênero precisam ser analisadas também em sua dimensão econômica.
“Nós organizamos nossas campanhas sob o slogan ‘acusemos o capitalismo’”, afirmou. “A exploração do trabalho e a divisão da sociedade em classes estão na origem de muitas opressões. Combater a violência contra mulheres e pessoas LGBT+ exige enfrentar essas estruturas.”
Delphine J., outra militante feminista, avalia que mudanças culturais ocorreram, sobretudo entre as gerações mais jovens.
“As jovens hoje aceitam muito menos coisas do que há dez ou vinte anos”, disse. “Mas o patriarcado não desaparece apenas porque o denunciamos. Há resistências e reações.”
A candidata à prefeitura de Lyon Anais Belouassa-Cherifi à direita propõe políticas sociais específicas às mulheres migrantes. Foto: Danilo Queiroz/Carta Capital
Feminismo também entra no debate eleitoral
A mobilização feminista ocorre também em meio a um momento de disputa política local. Lyon terá eleições municipais na próxima semana, e propostas relacionadas a políticas públicas para mulheres começaram a aparecer no debate eleitoral.
Uma das candidatas é Anaïs Belouassa Cherif, deputada da Assembleia Nacional e integrante da coalizão de esquerda La France Insoumise – Nouveau Front Populaire.
Para ela, o 8 de Março reforça a necessidade de levar a pauta feminista para além das ruas.
“A luta pelos direitos das mulheres acontece nos movimentos sociais, mas também nas urnas”, afirmou.
Entre as propostas de sua campanha estão a requisição de moradias vazias para abrigar vítimas de violência doméstica, políticas de apoio a famílias monoparentais e a criação de centros municipais de saúde com atenção específica à saúde feminina.
“A questão feminista está ligada ao combate ao patriarcado, mas também às desigualdades sociais. Uma prefeitura comprometida precisa garantir condições concretas para que as mulheres saiam da precariedade.”
Yves G. acompanhado da sua companheira em frente ao ponto de encontro da marcha. Foto: Danilo Queiroz/CartaCapital
No meio da multidão que atravessava as ruas de Lyon, Yves G., um aposentado de cabelos brancos, observava o cortejo com atenção.
Ele afirma acompanhar mobilizações feministas desde o final da década de 1960. “Nem todos os homens são como aqueles que marcharam aqui outro dia”, disse, referindo-se à manifestação de grupos de extrema direita ocorrida semanas antes.
Guinet contou que ficou surpreso com o tamanho da mobilização. “Achávamos que encontraríamos algumas centenas de pessoas.” Ele observa novamente a avenida tomada por manifestantes e conclui: “Hoje somos milhares. Então a esperança renasce.”
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