Netanyahu: dias contados como primeiro-ministro?

No fim de 2018, o atual premiê decidiu convocar novas eleições. Antes favorito, ele agora está desgastado por escândalos de corrupção

Benjamin Netanyahu (Foto: AFP)

Benjamin Netanyahu (Foto: AFP)

Mundo

Uma foto de Menachem Begin, o primeiro integrante do partido Likud a ocupar o cargo de primeiro-ministro israelense, em 1977, mira os clientes de uma loja de frutas em Jerusalém. Ao longo de mais de 40 anos, o proprietário Abraham Levy atendeu seus clientes numa das movimentadas vielas do mercado de Mahane Yehuda. Ele é um orgulhoso apoiador de longa data do partido.

“Há um ditado: ‘Por que trocar um cavalo por um burro?’ Benjamin Netanyahu é muito bom, nossa economia está excelente, nossa segurança é boa e todos os países árabes moderados agora querem negociar conosco. Então por que trocá-lo? Ele é um primeiro-ministro excelente”, comenta. Se dependesse de Levy, Netanyahu poderia ficar outros 20 anos no poder.

Outros, no entanto, não estão tão certos disso. “Votei uma vez em Netanyahu, acho que ele já cumpriu seu papel como primeiro-ministro. Ele não tem nada novo a dizer, mas nós somos atacados de vários lados”, diz Reut Schneider, cliente da loja. “Todas as investigações criminais (sobre acusações de fraude e propina) contra o primeiro-ministro têm muitos pontos que precisam ser esclarecidos.”

Em dezembro, Netanyahu convocou eleições antecipadas. Na época, as pesquisas sugeriam que a maioria dos israelenses ainda o apoiava, dando a ele uma vantagem confortável. Mas seu governo está sob a sombra de acusações de corrupção desde o ano passado e, agora, no período que precede as eleições de 9 de abril, enfrenta forte competição.

Dois dos mais fortes concorrentes de Netanyahu anunciaram que vão se candidatar juntos em uma plataforma apelidada de “Azul e Branco”. O ex-chefe do Exército Benny Gantz e Yair Lapid afirmaram que buscarão “unificar o país” e se alternar como primeiros-ministros por dois anos cada, uma manobra descrita como explosiva pela imprensa local.

Embora Benjamin “Benny” Gantz, que ocupa o topo da nova lista de concorrentes, seja um novato na política, ele não precisa impressionar o público. Durante sua campanha, o antigo chefe do Estado Maior das Forças de Defesa de Israel louvou suas próprias conquistas militares, como o bombardeio de Gaza durante a guerra em 2014, e fez um ataque pessoal contra Netanyahu, questionando as suas credenciais militares.

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Da tevê para a política

Já Yair Lapid deixou seu emprego como âncora de TV e jornalista em 2012 e ganhou 19 cadeiras no Parlamento com seu novo partido, Existe um Futuro (Yesh Atid), nas eleições do ano seguinte. Ele também atuou brevemente como ministro da Economia no governo Netanyahu.

“A grande questão é se eleitores de direita decidirão votar para esse novo partido. Até o momento, ao menos, não vimos uma grande migração entre os eleitores de direita”, diz Tamir Sheafer, professor do departamento de Ciência Política e Comunicação da Universidade Judaica.

Gantz e Lapid ameaçam Netanyahu (Foto: Jack Guez/AFP)

O principal desafio será encontrar uma voz comum em temas como política externa, assuntos socioeconômicos ou a questão palestina”. “Com uma lista de candidatos que inclui três antigos chefes de gabinete, o principal tema será segurança”, comenta.

A nova lista certamente mira tirar Netanyahu do cargo. “Netanyahu só fala de segurança, segurança, segurança”, diz Mula Ybarken, segurando uma bandeira de Israel durante um evento eleitoral a favor de Gantz em Tel Aviv. “Segurança é importante, sem segurança não há Estado, mas Netanyahu não unificou o país”. Ele descreve Gantz como um candidato que vai direto ao ponto e não tem problemas passados com racismo. “Para ele (Gantz), uma pessoa é uma pessoa, não há esquerda ou direita.”

Einat Weissbort, também apoiadora de Gantz, é outra israelense que gostaria de ver uma mudança na liderança do país. “Gantz traz nova esperança. Netanyahu acha que ele está fazendo o bem para nós, mas eu sinto que ele não está nos levando a lugar nenhum, e o mundo nos vê de uma maneira negativa.” Por outro lado, a nova plataforma “Azul e Branco” foi criticada por dar prioridade a integrantes homens e relegar candidatas femininas a posições mais baixas.

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Algumas pesquisas projetam que Gantz/Lapid e Netanyahu competirão de igual para igual, mas Netanyahu ainda poderia ter vantagem ao formar uma coalizão de direita. Dada a importância de conseguir formar uma coalizão majoritária no Parlamento – com mais de 61 dos 120 assentos – Netanyahu tem tentado fechar uma aliança de última hora entre o partido religioso nacionalista Lar Judaico e o partido de extrema direita Poder Judaico.

No páreo

Como resultado, Bezalel Smotrich, do Lar Judaico, que chama a si mesmo de “um homofóbico com orgulho” e está alinhado com ocupacionistas radicais, pode acabar se tornando ministro da Educação.

A parceria com o Poder Judaico – que, sem a coligação, poderia não ter superado a cláusula de barreira eleitoral – atraiu críticas contundentes da oposição e até do grupo de lobby pró-Israel AIPAC nos Estados Unidos. Alguns de seus candidatos defendem “a pureza do sangue judaico” e condenam o casamento entre judeus e árabes.

O partido inclui apoiadores da ideologia do falecido rabino Meir Kahane que defende a “transferência de todos os árabes” e que Israel se torne maior. O partido Kach, de Kahane, foi considerado um grupo terrorista nos EUA e banido em Israel na década de 1980.

Ainda há incertezas sobre um possível indiciamento de Netanyahu, que poderia levá-lo a perder votos. A decisão, a ser tomada pelo procurador-geral do país, deve ser anunciada antes das eleições — uma medida fortemente criticada por Netanyahu, que afirma que uma acusação antes do pleito poderia influenciar o resultado.

“A questão é quais acusações serão apresentadas. Se elas forem relativamente pequenas, isso não seria uma boa razão para que os eleitores deixem de votar em Netanyahu”, diz Tamar Hermann, professora do Instituto da Democracia de Israel, que realiza pesquisas com israelenses para preparar mensalmente seu Índice da Paz. “Ele é considerado um bom primeiro-ministro por muitos, exceto pela esquerda.”

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