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Negociações para trégua em Gaza fracassam, mas podem ser retomadas na terça-feira

O Hamas exige o fim definitivo da guerra, enquanto Israel quer manter suas ações militares em Gaza

Tanque israelense anda sobre Gaza destruída. Foto: Menahem KAHANA / AFP
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As discussões no Cairo para chegar a uma trégua entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza terminaram neste domingo (5) sem progressos concretos, devido às posições inflexíveis de ambos os lados após sete meses de guerra. A delegação do grupo islâmico retornou para o Catar depois que as divergências se intensificaram sobre os termos de um acordo que, além de uma trégua, inclui a libertação de reféns em troca de prisioneiros palestinos detidos em Israel.

O diretor da CIA, William Burns, que representa os Estados Unidos nas negociações, também deixou o Cairo para se reunir de urgência com o primeiro-ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdelrahmane Al Thani, em Doha. Burns irá discutir com Al Thani formas de restabelecer as conversas entre as partes.

Apesar da falta de progressos nas discussões, uma delegação do Hamas retornará na terça-feira (7) à capital egípcia “para concluir as negociações indiretas” com Israel, informou o veículo de comunicação egípcio Al Qahera News, próximo dos serviços de inteligência, citando uma “fonte bem informada”.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que aceitar as “exigências” do Hamas para acabar com a guerra em Gaza seria “uma derrota terrível para o Estado de Israel” e equivaleria à “capitulação”. Em resposta, o chefe do Hamas, Ismail Haniyeh, acusou Netanyahu de “sabotar os esforços dos mediadores” para obter uma trégua no território palestino, devastado após quase sete meses de conflito.

A última proposta de trégua que os mediadores internacionais – Catar, Egito, Estados Unidos – apresentaram ao Hamas no final de abril prevê uma interrupção dos combates durante 40 dias e uma troca de reféns israelenses detidos em Gaza desde 7 de outubro em troca de palestinos presos em Israel.

Poucas horas antes da retomada do segundo dia de negociações, neste domingo na capital egípcia, um líder do Hamas afirmou que o grupo não aceitará “em nenhuma circunstância” um acordo que não inclua explicitamente o fim da guerra.

“Nossas informações confirmam que (Benjamin) Netanyahu está pessoalmente impedindo um acordo devido a cálculos pessoais”, disse o líder à AFP sob condição de anonimato.

“Quando Israel mostra a sua boa vontade, o Hamas persiste nas suas posições extremas, entre as quais se destaca a sua exigência de retirada das nossas forças da Faixa de Gaza, o fim da guerra e a preservação do Hamas. Israel não pode aceitar isso”, declarou Netanyahu em uma reunião de gabinete.

“Israel não aceitará as exigências do Hamas, que significam capitulação, e continuará lutando até que todos os seus objetivos sejam alcançados”, insistiu. O Fórum de Famílias de Reféns apelou a Netanyahu para “ignorar a pressão política” e aceitar um acordo que permitiria a libertação dos reféns. Israel não esteve presente nas negociações do Cairo.

Fechamento de passagem fronteiriça

Israel, que assim como os Estados Unidos e a União Europeia, classifica o Hamas como organização terrorista, opõe-se ao cessar-fogo definitivo e insiste em lançar uma ofensiva terrestre contra Rafah, por considerá-la o último reduto dos batalhões de combatentes islâmicos.

Os Estados Unidos, principal aliado de Israel, opõem-se a uma invasão dessa cidade palestina no extremo sul da Faixa de Gaza, onde 1,2 milhão de pessoas estão aglomeradas, a maioria delas deslocadas pela guerra.

Uma operação terrestre em Rafah também comprometeria a ajuda humanitária que entra na Faixa, principalmente através desta cidade na fronteira com o Egito, e que já é insuficiente para os 2,4 milhões de habitantes de Gaza.

Na madrugada desta segunda-feira, segundo a AFP, 16 pessoas foram mortas na cidade por ataques aéreos israelenses. Autoridades têm pedido que parte da região seja evacuada, diante de um risco iminente da ofensiva.

“Queremos um cessar-fogo e que Gaza volte a ser como era, ou até melhor”, disse à AFP Umm Jami al Ghussein, uma mulher deslocada da cidade.

Na cidade de Khan Yunis, também no sul, Arwa Saqr, outra deslocada, criticou que todas as negociações terminaram “com o mesmo cenário”. “Perdemos a esperança de que as negociações serão bem-sucedidas”, afirmou.

O Exército israelense anunciou neste domingo o fechamento da passagem Kerem Shalom que dá acesso à Faixa de Gaza – e por onde entra a ajuda humanitária – após um ataque com foguetes.

O ministro das Comunicações israelense, Shlomo Karhi, assinou e publicou uma ordem de apreensão dos equipamentos do canal Al Jazeera, do Catar, depois que o governo anunciou a decisão de fechar a emissora em Israel e bloquear a sua transmissão.

Chefe da UNRWA diz que Israel voltou a impedi-lo de entrar em Gaza

O chefe da Agência da ONU para os Refugiados Palestinos (UNRWA), Phillippe Lazzarini, denunciou neste domingo que as autoridades israelenses o impediram de entrar em Gaza pela segunda vez desde o início da guerra em 7 de outubro.

“As autoridades israelenses seguem negando o acesso humanitário para as Nações Unidas”, escreveu Lazzarini no X, antigo Twitter. “Esta mesma semana me negaram – pela segunda vez – a entrada em Gaza, onde eu deveria estar com nossos colegas da UNRWA, incluindo aqueles que estão na linha de frente”, acrescentou.

Lazzarini já disse em meados de março que Israel não o havia autorizado a entrar no enclave palestino.

(Com informações da Reuters e AFP)

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