Na Líbia pós-Kadafi, imperam o caos e os interesses privados

Em 20 de outubro de 2021, completou-se uma década da morte do ditador líbio; especialistas apontam os reais favorecidos com a deposição

Protesto em agosto de 2020 reivindicou melhora nos serviços públicos em Trípoli, na Líbia. Foto: AFP

Protesto em agosto de 2020 reivindicou melhora nos serviços públicos em Trípoli, na Líbia. Foto: AFP

Mundo

Em 20 de outubro de 2011, Hillary Clinton estava em Cabul, no Afeganistão, sentada à frente de uma repórter da emissora americana CBS News, pronta para uma entrevista, quando soube por um assessor que Muammar Kadafi, o mandatário da Líbia, havia sido capturado. 

“Nós viemos, nós vimos, ele morreu!”, exclamou, com risadas, a secretária de Estado dos Estados Unidos do governo de Barack Obama. Dois dias antes, ela havia cumprido uma agenda em Trípoli, capital da Líbia, como parte de sua persuasiva jornada diplomática pela região.

Aos 69 anos de idade, Kadafi aparecia ensanguentado em um vídeo amador daquela data, gravado num iPhone por um combatente rebelde de 21 anos. Uma multidão encontrou o mandatário escondido em um canal de esgoto, na cidade de Sirte, e o arrastou a pontapés, segundo o site Global Post, primeiro veículo a obter as imagens. Alguns presentes pediam que ele não fosse morto, mas o óbito foi confirmado logo depois.

Sabidamente, o pretexto humanitário das celebrações dos Estados Unidos, vocalizadas por Obama, não se confirmou nos dez anos seguintes. A Líbia, longe de ter se tornado um exemplo de preservação dos direitos civis, seguiu refém da violência por grupos armados, e a piora nos índices sociais legitimou discursos saudosos dos tempos em que Kadafi estava no poder.

Nos anos 90, a Líbia possuía a maior renda per capita do continente africano. Figurou entre os 40 países com os melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo. Kadafi nacionalizou mais de 50% dos bancos e das redes de distribuição de petróleo, redistribuiu a renda petroleira em investimentos sociais, implementou políticas de moradia, educação e reforma agrária, e reduziu a mortalidade infantil.

Além disso, fundou mais de dois mil parlamentos populares com participação nas decisões do Estado, compostos por eleições de quatro em quatro anos. No campo das liberdades individuais, Kadafi incomodou fundamentalistas porque instituiu leis que autorizavam o divórcio e proibiam a poligamia

Desde a morte do ditador, contudo, os indicadores sociais estão em decadência, e o IDH líbio chegou 105º lugar. 

O país se viu em meio a uma guerra civil entre as organizações rivais que disputavam o poder. Em meio aos confrontos, os cidadãos líbios têm de conviver com o pior índice de desemprego em 30 anos, chegando aos 19,4%, além de crescente insegurança alimentar e pior acesso aos serviços públicos, segundo recente relatório do Banco Mundial.

Sob um governo oficial enfraquecido, forte influência de milícias aliadas a monarquias do Golfo e uma gravíssima crise de refugiados, o país se esforça para realizar eleições em 24 de dezembro, ainda sob mediação da ONU.

História

Com território ligeiramente maior do que o Alasca, a Líbia havia sido ocupada, nos tempos antigos, por fenícios, gregos, cartagineses, persas, egípcios, romanos e vândalos, até ser dominada pelo Império Otomano no século 16 e depois colonizada por italianos na primeira metade do século XX.

Com a Itália derrotada na 2ª Guerra, o país passou a ser a administrado pela ONU, alcançando a independência pouco depois, em 1951. Em seguida, ficou sob o controle do intransigente rei Idris I, da seita muçulmana Senussi, que tinha como intermediários chefes de diferentes ramos tribais. 

Foi nesse período, ao fim da década de 1950, que se descobriu que a Líbia era dona de grandes reservas de petróleo. 

Durante a era Idris, conforme descreve um artigo publicado neste ano em revista da UFPR, a renda do petróleo extraído na Líbia era transferida aos países-sede das multinacionais que exploravam o recurso. À época, sete delas controlavam o petróleo líbio: Exxon, Mobil, Chevron, Gulf Oil, Texaco, British Petroleum e Shell.

Kadafi tinha apenas 27 anos quando tomou o poder, em 1969, a partir de um movimento que por anos pressionou a monarquia. Pesquisadores registram o processo como um golpe militar de inspiração socialista, anticolonialista e nacionalista, influenciado pelo pensamento político de Gamal Nasser, então presidente do Egito. As ideias de Kadafi viriam a ser sintetizadas no Livro Verde (1975).

A então secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Foto: Reprodução/CBS News

 

Naquela década, atravessou uma crise petroleira mundial com reduções na produção do recurso, ato que alimentou o surgimento de inimigos no Ocidente, por conta do firme controle das riquezas naturais do país. Outro fator de aborrecimento era a defesa que Kadafi fazia pela criação de uma moeda regional africana, que diminuiria a influência do dólar e do euro.

 

A ofensiva dos Estados Unidos

Ao fim dos anos 70, os Estados Unidos já mantinham instalações de bases militares em todo o mundo, até chegar a 750 bases em 80 países. A ofensiva de Washington, que buscava a exploração de fontes de petróleo no Oriente Médio, se estenderia ao longo dos anos 2000, inspirando as invasões do Iraque e do Afeganistão, no início dos anos 2000, e tendo impactos sobre a chamada Primavera Árabe, com início na Tunísia, em 2010, com a Revolução de Jasmim, chegando até a Líbia em 2011. Conforme o próprio presidente George W. Bush gostava de dizer, tratava-se de uma política de regime change, que visava a queda de governos não considerados democráticos.

Muammar Kadafi, na Assembleia Geral da ONU em 2009. Foto: UN Photo/Marco Castro

 

De acordo com revelação de Wesley Clark, um ex-comandante das Forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, os EUA planejavam desde a era Bush uma intervenção na Líbia, bem como na Síria, no Líbano, no Irã, na Somália e no Sudão. A caçada a Kadafi custou à Casa Branca dois bilhões de dólares.

Um “dia de fúria”, em 18 de fevereiro de 2011, com intensas manifestações contra o governo, seria o primeiro passo para a intervenção da Otan em março daquele ano. As revoltas se aprofundariam com a tentativa de insurgentes da região de Benghazi em controlar reservas de petróleo no Norte e no Nordeste do país.

Há um consenso de que as operações da Otan resultaram em mortes de civis inocentes, como mulheres e crianças, mas o número oscila entre observadores: a uma comissão da ONU reportou 60 mortes de civis; a Human Rights Watch documentou 72; a organização Airwars avaliou entre 223 e 403; as autoridades líbias relataram 1.108;  e assim as estimativas vão até 120 mil mortes ou ferimentos.

Veículos como The Guardian e Reuters deixam claro que os Estados Unidos também financiaram os combatentes rebeldes (em parte, paramilitares que atuavam no Afeganistão), com aportes milionários para equipamentos não-letais e treinamento. Também o The Guardian mostrou, em cálculos de um analista de defesa, que os gastos do Reino Unido podem ter superado os 1,75 bilhão de euros em 2011. E o emirado do Qatar revelou que dava aos rebeldes ajuda terrestre com centenas de soldados, servindo como mediadora da Otan.

Caos beneficiou multinacionais, diz especialista

 

Benghazi, cidade onde revoltas se aprofundaram em 2011. Foto: Abdullah Doma/AFP

 

Interesses privados

Issam Rabih Menem, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos, Geopolítica e Integração Regional, pela Federal do Rio Grande do Sul, sublinha que a Líbia tem uma população pequena (de 7 milhões de habitantes), possui um largo território e abriga uma das maiores reservas de petróleo do mundo, condições que facilitam a sua autossuficiência, a distribuição da renda e a inserção internacional. 

“O caos acabou beneficiando as multinacionais do ramo petrolífero”, afirma Menem a CartaCapital

A organização United World Data registrou que, em 2018, quatro empresas representavam cerca de ⅓ da produção de petróleo na Líbia: a italiana ENI, a francesa Total, a espanhola Repsol e a austríaca OMV. O restante diz respeito a empreendimentos conjuntos e complexos com a National Oil Corp, estatal da Líbia, que trabalha com mais de 20 empresas privadas além das citadas.

Segundo a Bloomberg, o atual governo da Líbia se esforça para atrair mais investimentos estrangeiros no setor, apesar do cenário de guerra, agravado pela pandemia. Em 28 de setembro, o site reportou uma entrevista que mostra que o país mandou um enviado especial aos Estados Unidos para negociar com empresas norte-americanas, para que invistam em operações já realizadas pelas companhias ConocoPhillips, Marathon Oil Corp e Occidental Petroleum Corp. O governo também abriu um escritório em Londres para conversar com companhias europeias, como a francesa Total Energies e a espanhola Repsol. A Líbia bombeia 1,3 milhão de barris por dia e quer aumentar a produção para 2,5 milhões em seis anos, mas depende de melhor tecnologia. 

 

A Líbia está localizada no Norte da África, entre o Egito, a Argélia e a Tunísia. Foto: Reprodução/Google Maps

A responsabilidade do Ocidente e os erros de Kadafi

“Por que fazer o que fizeram com o Kadafi? (…) O quê que criaram na Líbia? Agora começou a guerrilha de verdade.” O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dedicou parte de sua 1ª entrevista na prisão, à Folha de S. Paulo e ao El País Brasil, para expor sua indignação com a morte do mandatário líbio, o qual chamou de “loucura” – e ainda coube um depoimento simpático sobre os looks extravagantes e o rosto cheio de maquiagem daquele chefe de Estado: “Eu achava ele muito parecido com o Cauby Peixoto”.

Lula se somou a uma série de líderes internacionais que já criticaram a Otan pela operação na Líbia, desde Vladimir Putin, da Rússia, até mesmo o ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, que disse que as mortes dos civis minavam a credibilidade da organização.

Anedotas à parte, Lula se referiu a algo que o mundo, de fato, testemunhou: a guerrilha perdurou depois da morte do ditador.

Nelson Roque Suástegui, pesquisador do Centro de Pesquisas em Política Internacional, em Cuba, assinala que, diante da instabilidade na Líbia após a morte de Kadafi, é preciso responsabilizar os Estados Unidos e a Otan por operações que perpetuaram as condições de colonialismo no país. Por outro lado, pondera, algumas características do governo de Kadafi também contribuíram para que seu projeto social não se consolidasse.

Diferentemente de outros países que desafiaram a Casa Branca, como a própria Cuba, a Líbia é marcada por uma enredada fragmentação religiosa: apesar da maioria sunita, tem pelo menos 140 tribos religiosas. “O fundamental para resistir ao imperialismo é ter unidade, e eles não tinham a unidade entre as forças”, afirma Suástegui a CartaCapital

Homenagem ao governo de Muammar Kaddafi é vista na cidade de Bani Walid. Foto: Mahmud Turkia/AFP

 

Issam Menem lembra também que a era Kadafi, que durou 42 anos, foi marcada por um forte personalismo. “Ele era um líder autoritário e centralizador, e eram registradas algumas perseguições políticas contra rivais”, avalia o pesquisador. “Houve falta de abertura política.” 

Por último, algumas decisões de Kadafi são vistas como, no mínimo, ingênuas. O filho de Kadafi, Saif al-Islam, viria a dizer ao Russia Today que os Estados Unidos viam a Líbia como um fast-food (um guerra rápida, uma vitória rápida) e que outros chefes de Estado descreveram a desistência como incorreta. Os comentários se referem ao episódio em que Kadafi decidiu desmantelar o seu programa de enriquecimento de urânio, para que Bush suspendesse as sanções contra o país. Naquela década, a Líbia tentou viver uma era de normalização de relações e chegou a instituir uma associação de negócios com empresas ocidentais. 

“Muitos países, como Irã e Coreia do Norte, nos disseram que foi um erro nosso parar de desenvolver mísseis de longo alcance e fazer amizade com o Ocidente. Nosso exemplo significa que nunca se deve confiar no Ocidente e deve estar sempre em alerta – para eles é bom mudar de ideia durante a noite e começar a bombardear a Líbia”, afirmou Saif-al Islam Kadafi, que hoje tem 49 anos e deixa suspeitas de que pretende disputar a política no país em um futuro próximo. “Achávamos que os europeus eram nossos amigos. Nosso erro foi sermos tolerantes com nossos inimigos.”

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Repórter do site de CartaCapital

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