Mundo

Morre o filósofo alemão Jürgen Habermas

Democracia foi fio condutor na obra de um dos principais representantes da Escola de Frankfurt, que morre aos 96 anos como um dos pensadores mais influentes da atualidade

Morre o filósofo alemão Jürgen Habermas
Morre o filósofo alemão Jürgen Habermas
Jurgen Habermas: França e Alemanha precisam liderar uma política europeia
Apoie Siga-nos no

Morreu neste sábado (14/03), aos 96 anos, o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas , conforme anunciou a editora alemã Suhrkamp, citando a família do intelectual.

Para muitos, ele encarnava o conhecimento, e sua opinião era ouvida onde quer que ele a manifestasse. Como renomado filósofo, acabou se tornando uma espécie de marca intelectual alemã.

Em 2001, quando recebeu o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, em Frankfurt, a então prefeita, Petra Roth, o elogiou por sua “incansabilidade de reflexão” e pela “incorruptibilidade de seu julgamento”, com os quais, segundo ela, Habermas contribuiu para a reputação cultural da Alemanha no mundo.

Democracia como tema existencial

Quando Habermas falava sobre algum assunto, geralmente se tratava de grandes questões sociais. “O que atravessa a teoria de Habermas como um fio condutor é o tema ‘democracia’. Ele próprio a definiu, certa vez, como a ‘palavra mágica’ de seu pensamento”, disse Stefan Müller-Doohm, sociólogo e biógrafo do pensador, em entrevista à DW.

Um dos componentes do pensamento do filósofo é a noção de que um sistema econômico capitalista precisa ser “domado” com meios democráticos. Para o biógrafo, a democracia tornou-se tema existencial de Habermas devido em parte a suas experiências pessoais.

Nascido em 1929, em Düsseldorf, no oeste alemão, Habermas cresceu durante a era nazista. Ele ainda era um um adolescente quando ela chegou ao fim, mas, assim como outros intelectuais de sua geração, usou o “regime criminoso” donazismo como ponto de partida para suas considerações e sua teoria acadêmica.

Na década de 1980, ele travou uma célebre disputa histórica com o historiador e filósofo Ernst Nolte. Enquanto Nolte tentava traçar paralelos entre os crimes do nazismo e os do stalinismo, para Habermas, isso significava relativizar a crueldade inigualável do Holocausto.

A Escola de Frankfurt

Já durante a juventude, Habermas se interessou por questões sociais. Após estudar filosofia, economia e literatura alemã de 1949 a 1954, entre outras disciplinas, ele atuou inicialmente como jornalista freelancer. Um dos jornais para que escreveu foi o Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ).

Suas publicações atraíram a atenção do filósofo Theodor W. Adorno (1903-1969), cofundador da Escola de Frankfurt de Teoria Crítica, juntamente com Max Horkheimer, diretor do Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt. Adorno levou Habermas para o instituto e o influenciou com sua análise crítica da sociedade.

Juntamente com Adorno e Horkheimer, Habermas acabou sendo um dos principais representantes da Escola de Frankfurt, que reuniu filósofos e cientistas sociais a partir da década de 1920 e teve decisiva influência após a Segunda Guerra Mundial, no clima político e filosófico da então jovem República Federal da Alemanha.

Devido à aversão de Horkheimer, na época diretor do instituto, ao então jovem de orientação marxista e politicamente engajado, Habermas foi forçado a fazer seu doutorado na cidade de Marburg. Em 1964, porém, retornou a Frankfurt, como catedrático de Filosofia e Sociologia, e sucessor de Horkheimer.

Conflito com a esquerda

Para o “incendiário de Frankfurt”, como foi chamado pela mídia, o que importava era o todo. E, por essa completude, ele também estava disposto a lutar e se engajar, fazendo uso da sua própria mistura de reflexão filosófica e intervenção intelectual.

Até mesmo estudantes de Filosofia ocasionalmente se queixavam dos textos do estudioso de Frankfurt. Seus escritos eram controversos e muitas vezes capazes de polarizar e politizar.

Na década de 1960, Frankfurt foi um dos bastiões de protestos estudantis na Alemanha, e muitos dos manifestantes viam Habermas como seu mentor intelectual. Ele era a favor da participação política por meio da desobediência civil, mas se distanciou de grupos radicais e do líder estudantil Rudi Dutschke, o qual acusou de fascismo de esquerda e acionismo (anti-intelectualismo), em seu escrito A pseudorrevolução e seus filhos. Com essa atitude, o filósofo alcançou a hostilidade de boa parte da esquerda alemã.

Em 1971, Habermas passou a codirigir o Instituto Max Planck em Starnberg, cidade próxima a Munique. Foi lá que ele publicou a sua principal obra, Teoria do agir comunicativo, na qual esboçou uma espécie de guia de ação para a sociedade moderna.

Segundo sua teoria, os fundamentos normativos de uma sociedade baseiam-se na sua linguagem, e apenas a linguagem como meio de entendimento possibilita a ação social. Suas questões centrais eram: como alcançar a persuasão sem obrigatoriedade do melhor argumento, a “situação ideal de fala” e o “discurso livre de dominação” em uma democracia?

Estrela para além da filosofia

Somente em 1983, Habermas retornou a Frankfurt, onde lecionou Filosofia até se aposentar, em 1994. Mesmo aposentado, ele continuou exercendo influência sobre debates sociais na Alemanha.

Em 1999, por exemplo, pronunciou-se a favor da controversa intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na guerra do Kosovo. “Quando não há alternativa, deve ser possível aos vizinhos democráticos recorrer à ajuda de emergência legitimada pelo direito internacional”, declarou na época.

Como defensor da integração europeia, Habermas destacou repetidamente déficits democráticos na União Europeia (UE). No contexto da chamada crise do euro, iniciada em 2009, ele se opôs a um curso de austeridade excessivamente rígido e se disse a favor da ampliação da união monetária a uma democracia “supernacional”, em que os Estados renunciariam ainda mais à própria soberania.

Recentemente, Habermas fez um balanço sombrio da situação mundial. Em seu livro Es musste etwas besser werden… (Algo precisaria melhorar…, em tradução livre), publicado em 2024, o filósofo criticou o fato de que, diante dos numerosos focos de crise, “a consciência das elites políticas no Ocidente está cada vez mais sendo dominada pela lógica da guerra”. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, por exemplo, faltou uma “iniciativa oportuna diante da barbárie de uma guerra, por cuja duração prolongada e sem perspectivas o Ocidente é corresponsável”, escreveu Habermas.

Por seu engajamento social, o filósofo recebeu diversos prêmios e distinções. A literatura secundária sobre as obras de Habermas abrange mais de 14 mil livros e artigos, incluindo muitas teses de doutorado. Foi membro eleito de academias científicas na Rússia, nos EUA e em Israel. Em 1999, um asteroide foi batizado com o nome do grande pensador alemão. Uma coisa é certa: não será apenas na filosofia que a estrela de Habermas continuará a brilhar.

ENTENDA MAIS SOBRE: , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo