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Milhares de civis permanecem bloqueados por combates em Gaza

ONU calcula que quase 1,7 milhão de civis abandonaram suas casas desde o início da guerra

Registro de bombardeio israelense contra Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, em 2 de janeiro de 2024. Foto: AFP
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Milhares de civis permanecem bloqueados neste sábado 27 em condições humanitárias desastrosas, sob chuva e frio, na Faixa de Gaza, onde os combates entre as forças israelenses e os milicianos do Hamas continuam devastando o sul do território palestino.

No território cercado, a Agência da ONU para os Refugiados Palestinos (UNRWA, na sigla em inglês) está no alvo das autoridades israelenses, que acusaram alguns funcionários da organização de envolvimento no ataque violento do Hamas de 7 de outubro que desencadeou a guerra.

Israel pretende garantir que a UNRWA não tenha nenhum papel em Gaza após o conflito, afirmou neste sábado o chefe da diplomacia do país, Israel Katz. O movimento islamista palestino Hamas denunciou “ameaças” israelenses contra a agência.

O governo dos Estados Unidos anunciou na sexta-feira a suspensão temporária do financiamento à UNRWA, medida que também foi adotada neste sábado por Austrália, Canadá e Itália.

A Autoridade Palestina pediu aos contribuintes que desistam das suspensões e afirmou que a organização internacional deve receber “apoio máximo”.

O ponto de preocupação está concentrado atualmente em Khan Yunis, a maior cidade do sul de Gaza e onde os dois principais hospitais, que abrigam milhares de deslocados, mal funcionam em um cenário de ofensiva implacável.

Testemunhas afirmaram que a cidade voltou a registrar confrontos violentos neste sábado. O Ministério da Saúde de Gaza, governado pelo Hamas, anunciou que 135 pessoas morreram durante a noite.

Mais ao sul, centenas de milhares de civis estão aglomerados em Rafah, perto da fronteira com o Egito. Segundo a ONU, mais de 1,3 milhão de pessoas estão nesta pequena localidade.

Hospitais em colapso

A ONU calcula que quase 1,7 milhão de civis abandonaram suas casas desde o início da guerra.

Rafah também não escapa das bombas. “Não há nenhum lugar seguro na Faixa de Gaza. Tudo o que se diz é falso”, declarou neste sábado Mohamed Al Chaer entre as ruínas do seu bairro, destruído após um novo ataque.

Durante a noite, as chuvas intensas inundaram os campos de deslocados, que tentavam salvar seus poucos pertences no meio da lama, segundo imagens da AFP.

“As fortes chuvas inundam milhares de deslocados em Rafah, Khan Yunis, Nuseirat, Deir al Bala, assim como na cidade de Gaza, mais ao norte”, declarou o presidente da Proteção Civil, Mahmud Basal.

A guerra começou em 7 de outubro com o ataque de combatentes islamistas, que mataram quase 1.140 pessoas, a maioria civis, e sequestraram cerca de 250 no sul de Israel, segundo um balanço da AFP elaborado com base em dados oficiais israelenses.

As ações de represália, com bombardeios incessantes e ações terrestres em Gaza, deixaram até o momento 26.257 mortos, a maioria mulheres, crianças e adolescentes, segundo o Ministério da Saúde do Hamas.

“Disparos de tanques apontam desde a manhã para os setores do oeste da cidade, para o campo de refugiados de Khan Yunis e os arredores do hospital Nasser”, onde provocaram “um corte de energia elétrica”, anunciou o Hamas.

A organização Médicos Sem Fronteiras afirmou que a capacidade cirúrgica do hospital Nasser, o maior da cidade, é “quase inexistente” e que os poucos profissionais da saúde que permanecem no centro médico trabalham com pouco material.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que 350 pacientes e quase 5.000 deslocados pelos combates estão no hospital.

Neste sábado, o Crescente Vermelho palestino voltou a condenar o cerco “pelo sexto dia consecutivo” de seu hospital, Al Amal, pelo Exército israelense.

Israel acusa o Hamas de ter construído túneis sob os hospitais de Gaza e de utilizar estes edifícios como centros de comando.

Nenhum anúncio “iminente”

Na sexta-feira, a Corte Internacional de Justiça (CIJ), com sede em Haia, determinou que Israel deve prevenir possíveis atos de “genocídio” em sua guerra contra o Hamas, classificado como organização terrorista por Israel, Estados Unidos e União Europeia.

Também pediu a Israel que facilite a entrada de assistência humanitária, “necessária com urgência”, em Gaza. O tribunal, no entanto, não tem como exigir o cumprimento de suas decisões.

A guerra prossegue sem trégua, mas Catar, Egito e Estados Unidos tentam atuar como mediados para obter uma nova trégua, que incluiria a libertação de reféns e prisioneiros palestinos, como aconteceu no final de novembro.

Quase 100 reféns foram libertados na ocasião em troca de presos palestinos. Segundo as autoridades israelenses, 132 reféns continuam em cativeiro na Faixa de Gaza, dos quais 28 estariam mortos.

Uma fonte dos serviços de segurança afirmou à AFP que o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA) americana se reunirá com autoridades de Israel, Egito e Catar “nos próximos dias em Paris” para tentar obter um acordo de trégua com o Hamas.

O presidente Joe Biden conversou com o emir do Catar, Tamim bin Hamad Al Thani, sobre os “últimos acontecimentos em Israel e Gaza, incluindo os esforços para libertar os reféns sequestrados pelo Hamas”, anunciou a Casa Branca na sexta-feira, que, no entanto, deu a entender que nenhum anúncio iminente está previsto.

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