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Menos, Trump, menos

As instituições dos EUA esboçam um princípio de reação aos desmandos do republicano

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Imagem: Timothy A. Clary/AFP
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Após o período de “notas de repúdio”, as instituições dos Estados Unidos parecem ter, enfim, entrado em uma nova fase de sobrevivência às investidas autoritárias do governo de Donald Trump. A suspensão do “tarifaço” e os limites impostos à guerra comercial contra o planeta iniciada pela Casa Branca são só o mais recente episódio de uma reação ao “vírus” que ameaça a democracia norte-americana. O recuo do ICE, a polícia de imigração, em Minnesota e a popularidade em queda livre, a nove meses das eleições de meio de mandato, indicam um cansaço visível dos cidadãos com os prejuízos internos e externos causados pelas políticas arbitrárias do republicano.

O revés na Suprema Corte, de maioria republicana, em relação ao tarifaço, não estava no script. Como costuma acontecer em todas as ocasiões em que se vê contrariado, Trump esperneou. Chamou os juízes de “uma desgraça para a nossa nação” e afirmou estar “envergonhado” por alguns magistrados “não terem a coragem de fazer o que é certo para o país”. Mais: chamou os aliados no tribunal de “tolos” e “capachos” e a minoria, 3 de 9, indicada pelos democratas de “esquerda radical”. Enquanto atacava a Corte, o republicano tentou transformar a derrota em perseguição e combustível político. Sobre se pediria ao Congresso novas medidas para restabelecer as tarifas, deixou claro que não vê necessidade de dividir o poder. Horas depois da decisão contrária, anunciou uma nova tarifa global de 10%, elevada em seguida a 15%, com base em outros dispositivos legais de uma lei comercial de 1974. Detalhe: os impostos sobre as importações só podem vigorar por 150 dias, uma clara limitação à chantagem imposta ao mundo por Washington. “Não preciso do Congresso. Tenho autoridade para impor tarifas”, disse, sugerindo a procura de caminhos alternativos para manter a agenda protecionista mesmo sob “limitações injustas” impostas pela Corte.

A raiva exposta em público não é só performance. Embora seu segundo mandato projete imagem de força, as reações no Capitólio após a decisão do tribunal revelam os limites da Casa Branca. Líderes democratas celebraram a decisão como um freio a um “excesso” sentido diretamente no bolso pelos consumidores e pequenas empresas. “Um presidente não pode contornar o Congresso e impor tarifas unilateralmente sobre os americanos”, declarou o líder democrata no Senado, Chuck Schumer. “Esse abuso fracassou.”

Alguns republicanos, embora sigam a apoiar a retórica trumpista, aproveitaram o momento para defender a retomada das prerrogativas do Legislativo. O senador Chuck Grassley afirmou que o Congresso “precisa recuperar sua autoridade constitucional sobre o comércio”, e o deputado Don Bacon, em entrevista à rede de tevê CNN, afirmou que o Parlamento contestará as novas tarifas. “Pode não ter uma maioria à prova de veto, mas terá uma maioria que se oporá à tarifa global de 10%, então acho que o presidente está cometendo um erro aqui.”

O assassinato de dois norte-americanos brancos em Minnesota acirrou as críticas ao ICE. E a Suprema Corte disse não ao tarifaço – Imagem: Charly Triballeau/AFP, iStockphoto e Jerome Gilles/NurPhoto/AFP

Ao mesmo tempo, o clima ao redor do presidente ficou ainda mais carregado. Em apenas cinco dias, dois homens armados apareceram em endereços de Trump. Em 17 de fevereiro, um deles, de colete tático e espingarda carregada, foi preso ao avançar em direção ao Capitólio­. Na madrugada do domingo 22, Austin ­Tucker Martin, de 21 anos, entrou no perímetro de segurança de Mar-a-Lago com uma espingarda e um galão de combustível, e acabou morto por agentes do Serviço Secreto. Os episódios reacenderam as memórias de atentados recentes e reforçaram a imagem de um país armado à beira de um curto-circuito político.

Na terça-feira 24, Trump subiu à tribuna da Câmara dos Representantes para o tradicional discurso sobre o “Estado da Nação”. Falou por 1 hora e 48 minutos, um recorde, e centrou a artilharia na oposição democrata. “Essas pessoas são malucas, estou dizendo, são malucas.” Sobrou também para a Suprema Corte e sua “decisão infeliz”. Dois dias antes, uma pesquisa do instituto Ipsos encomendada pelo diário The Washington Post e pela rede de tevê ABC apontara uma desaprovação popular de 60%, rejeição semelhante àquela registrada após a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

Em Minnesota, o embate é outro. A tentativa do governo de transformar o estado em vitrine de uma nova campanha de choque do ICE, a polícia migratória, encontrou um terreno político e institucional mais hostil. Em janeiro, a administração Trump enviou uma força ampliada de agentes federais para as regiões de ­Minneapolis e St. Paul, com a missão de intensificar as prisões de imigrantes e ampliar o acesso do ICE a cadeias locais. O movimento gerou protestos de rua, críticas de autoridades estaduais e municipais e uma disputa jurídica em torno da 10ª Emenda, que impede Washington de “comandar” diretamente polícias e governos locais.

A escalada teve um custo humano. Em janeiro, Renée Nicole Good, professora e mãe de três filhos, foi morta a tiros por um agente do ICE em Minneapolis, durante um protesto no qual ativistas usavam apitos para alertar moradores sobre a presença de viaturas federais. Vídeos contradisseram a versão oficial de que ela teria tentado avançar com o carro contra agentes. Semanas depois, Alex Pretti, enfermeiro de UTI, foi morto por dois integrantes da patrulha de fronteira durante uma ação ligada à caça de imigrantes, também em Minneapolis. O assassinato virou objeto de investigação de direitos civis no Departamento de Justiça e de uma cobertura extensa na mídia nacional. Em 16 de fevereiro, a professora Linda Davis, em Savannah­, ­Geórgia, morreu quando um homem fugindo do ICE bateu seu carro no veículo que ela dirigia indo para a escola.

Trump corre o risco de perder o controle do Congresso nas eleições de novembro

No início de fevereiro, o governador democrata Tim Walz declarou ter arrancado um compromisso informal da Casa Branca de “considerar” a redução do ­número de agentes no estado, mas, há uma semana do fim do mês, observadores dos subúrbios de Minneapolis afirmam que o ICE continua tão ativo quanto antes. Em entrevistas, Walz comparou a presença da polícia de imigração àquela de tropas de uma “segunda Guerra Civil”. O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, afirmou que não cooperaria com ações de ­deportação em massa, recusando-se a compartilhar dados ou a manter detidos imigrantes cujos casos não se encaixem nas exigências das leis estaduais. “Estamos ao lado das nossas comunidades imigrantes e refugiadas. Saibam que vocês têm todo o nosso apoio.” Em alguns estados, como ­Maryland, Novo México e Maine, legisladores aprovaram às pressas leis que proíbem parcerias de delegacias com o ICE e impedem que presídios locais funcionem como centros de detenção migratória.

O conjunto dos episódios recentes sugere, no entanto, um quadro mais ambíguo. Do ponto de vista político, as derrotas também se acumulam. Nas eleições gerais de 2025, o primeiro grande teste eleitoral após a volta de Trump à Casa Branca, os republicanos foram considerados “abaixo do esperado” em diversas disputas. Os democratas conquistaram os governos da Virgínia e de New Jersey com margens maiores do que aquelas projetadas e ampliaram bancadas em assembleias estaduais. Analistas do Brookings­ Institution acreditam que o padrão histórico tende a se repetir em 2026. O partido­ do presidente em exercício quase sempre perde terreno nas eleições de meio de mandato e, com uma maioria apertada de republicanos na Câmara, a probabilidade de Trump enfrentar um Congresso dividido é considerada alta. A popularidade do republicano é cambaleante. Uma pesquisa de janeiro indica que 58% dos eleitores classificam de “fracasso” o primeiro ano do segundo mandato. O mesmo porcentual desaprova a perseguição a imigrantes. A popularidade roçava os 37%. Segundo um levantamento de dezembro, um terço dos latinos trumpistas se arrepende do voto no magnata.

Pela primeira vez, desde janeiro de 2025, o sistema esboça uma rejeição mais estrutural às imposições trumpistas. Ainda não está claro se essas derrotas localizadas do governo e os recuos parciais do presidente serão suficientes para conter um projeto de poder que não vê problemas em testar, repetidas vezes, os limites formais e informais da democracia. •

Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Menos, Trump, menos’

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