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França ergue memorial a Ruanda, mas evita encarar a conta do colonialismo
Homenagem às vítimas tutsis também reacende críticas sobre a responsabilidade francesa nos massacres e nos territórios ainda submetidos à lógica colonial
LYON | Uma semana após a Assembleia Nacional francesa aprovar por unanimidade a revogação definitiva do chamado ‘Código Negro’ e de outras legislações que regulamentavam a escravidão nas colônias francesas, a França deu nesta terça-feira 2 mais um passo simbólico em direção ao reconhecimento de violências cometidas durante sua história colonial.
Às margens do rio Sena, em Paris, foi inaugurado um memorial em homenagem às vítimas do genocídio de Ruanda de 1994. A obra, concebida pela artista portuguesa Grada Kilomba, é composta por duas estelas de latão negro que guardam inscrições dedicadas à memória das mais de 800 mil pessoas assassinadas durante os cem dias de massacres, a maioria delas pertencente à minoria tutsi.
Para o governo francês, a instalação faz com que o genocídio dos tutsis passe a ocupar um lugar permanente na memória pública nacional. O monumento foi erguido em frente ao Quai d’Orsay, sede do Ministério das Relações Exteriores, e próximo ao Palácio do Eliseu, centro do poder político francês.
Nas placas está gravada a inscrição:
“Aqui, como um arquivo, repousam as vozes, as palavras, as memórias, as experiências, os sentimentos e as esperanças das vítimas e dos sobreviventes.”
A inauguração acontece cinco anos após o discurso realizado pelo presidente Emmanuel Macron em Kigali, capital de Ruanda, quando reconheceu as “responsabilidades avassaladoras” da França no genocídio, embora tenha rejeitado a acusação de cumplicidade direta.
Nesta terça-feira, Macron afirmou durante cerimônia em Paris, restrita a representantes políticos de ambos os países:
“”Este monumento, se representa uma conquista, não é um ponto final. É uma etapa em um caminho que abrimos”, disse Macron numa transmissão que reuniu veículos jornalísticos franceses e ruandeses.
O presidente francês também retomou argumentos já apresentados em Ruanda em 2021. “Com humildade e respeito, venho reconhecer nossas responsabilidades”, declarou. “Reconhecer este passado é também — e acima de tudo — continuar o trabalho da Justiça”, disse à época.
Ao lado do presidente francês, o chefe de Estado ruandês Paul Kagame saudou o processo de reconhecimento iniciado por Paris.
“Enfrentar responsabilidades históricas exige coragem verdadeira, porque isso desperta forte oposição daqueles que têm contas a prestar. É preciso também um profundo senso de humanidade para levar esse processo adiante. Presidente Macron, quero reconhecê-lo por ambos os aspectos: coragem e humanidade.”
Kagame, que liderou a Frente Patriótica Ruandesa (RPF), movimento responsável por interromper o genocídio e assumir o poder após os massacres, compartilhou nas redes sociais imagens da inauguração do memorial e celebrou o reconhecimento da tragédia no espaço público francês.
Brigitte Macron, Jeannette Kagame, Emmanuel Macron e Paul Kagame inauguram monumento de homenagem às vítimas do massacre dos tutsis no Ruanda. Foto: Ludovic Marin/AFP
Macron, no entanto, não fez qualquer menção ao monumento em suas publicações do dia. Em suas redes sociais, as postagens foram dedicadas principalmente à política interna e à convocação da seleção francesa para a Copa do Mundo.
Reparação ou marketing político?
Apesar da importância diplomática e histórica do evento, a inauguração recebeu cobertura relativamente discreta na imprensa francesa.
O papel da França antes, durante e depois dos massacres permanece um dos temas mais sensíveis da política externa francesa contemporânea.
Em 2021, a Comissão Duclert, criada pelo próprio governo francês para analisar os arquivos do período, concluiu que a França teve “responsabilidades pesadas e esmagadoras” por ter apoiado um regime que preparava um genocídio considerado previsível. O relatório, contudo, não encontrou elementos suficientes para caracterizar cumplicidade direta.
A questão chegou a provocar o rompimento das relações diplomáticas entre França e Ruanda entre 2006 e 2009.
Para ativistas e estudantes entrevistados pela reportagem, o silêncio midiático reproduz uma dificuldade histórica do país em debater publicamente sua atuação durante o genocídio e suas responsabilidades em territórios colonizados.
Para Erwan, estudante de engenharia elétrica nascido na Ilha da Reunião e residente em Lyon, o memorial não representa necessariamente um avanço concreto em matéria de reparação.
“Enxergo isso como marketing político, não como responsabilidade de fato. Memória sem reparação continua sendo apenas memória. Reparação exige inclusive redistribuição de riquezas”, afirma ele a CartaCapital. A Ilha da Reunião possui mais de 800 mil habitantes, segundo os últimos dados disponibilizados em 2019.
Presidente Emmanuel Macron posa nesta quinta-feira, 2, com a seleção da França — Foto: Thomas Padilla/AFP
Segundo ele, os problemas enfrentados pelos 12 territórios ultramarinos franceses, como na América – Guadalupe, Guiana Francesa, Martinica, São Bartolomeu, São Martinho e São Pedro e Miquelão – na Africa (Maiote) e Oceania, com Nova Caledônia, Polinésia Francesa e Wallis e Futuna, demonstram os limites da política memorial adotada por Paris.
“No meu país, ainda reivindicamos nossa independência e nossa própria história. Dependemos de importações, do turismo e de decisões tomadas na França continental. Nossos professores são franceses e não aprendemos a história da nossa própria terra. Se a França realmente acredita em reparação, deveria começar libertando suas colônias”, critica ele, filho de um policial e de uma assistente administrativa. “Nem mesmo os empregos são nossos, cabe à França exportar seus cidadãos”, completa.
O sentimento é compartilhado por Ûmberto, estudante de letras chinesas e natural da Guiana Francesa, que possui hoje 318 mil habitantes.
“Macron nunca disse que a França foi culpada pelo genocídio. Ele prefere falar em responsabilidade, mas evita a palavra culpa. É uma omissão que lembra a postura das tropas francesas durante os massacres.”
Para ele, a situação da Guiana Francesa também revela a distância entre discurso e prática.
“Nos chamam de territórios ultramarinos, mas continuamos sendo colônias. Temos nacionalidade francesa, mas não somos tratados como iguais. Precisei deixar meu país para estudar porque o Estado francês prefere explorar nossos recursos e manter presença militar do que investir em universidades, disse à CartaCapital”
O senegalês Mouhmad, estudante de biologia em Lyon, também questiona a narrativa segundo a qual a França seria referência mundial em reconhecimento de crimes coloniais.
“Escutamos frequentemente que a França é exemplo quando o assunto é pedido de desculpas do colonizador. Não é bem assim. O país fala em memória, mas evita discutir as desigualdades que ajudou a criar na África.”
Ele cita a própria língua como exemplo da herança colonial. “Se hoje eu falo francês, é porque a colonização decidiu marginalizar o wolof – língua falada por 10 mil senegaleses num país com 18 milhoes de habitantes – e outras línguas africanas. O que chamam de integração muitas vezes foi apagamento cultural.”
Reparação jurídica ainda distante
A inauguração do memorial ocorre poucos dias após a Assembleia Nacional aprovar a revogação formal do Código Negro, conjunto de normas que regulamentava a escravidão nas colônias francesas.
A medida tem forte peso simbólico, embora os textos já não tivessem qualquer efeito jurídico desde a abolição definitiva da escravidão em 1848.
Durante os debates parlamentares, deputados dos territórios ultramarinos questionaram o alcance real da medida. “O que significa revogar o Código Negro em 2026 se os territórios ultramarinos continuarem a ser vistos, a partir de Paris, como periferias distantes?”, perguntou a deputada da Ilha da Reunião Emeline K/Bidi.
O relator do projeto, Max Mathiasin, classificou a iniciativa como “um poderoso ato de memória, justiça e reconhecimento”, mas admitiu que ela não seria capaz de “curar sozinha as feridas da história”.
Primeiro país a reconhecer oficialmente a escravidão e o tráfico de escravizados como crimes contra a humanidade, por meio da Lei Taubira de 2001, a França continua enfrentando resistências quando o debate avança para formas concretas de reparação.
Em março deste ano, Paris se absteve em uma votação da Assembleia Geral da ONU que classificou o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o “crime mais grave cometido contra a humanidade”. O governo francês justificou a decisão afirmando que não desejava estabelecer hierarquias entre crimes históricos.
Para descendentes de pessoas escravizadas e moradores dos territórios ultramarinos, a decisão foi recebida como um sinal de que o reconhecimento histórico continua limitado ao plano simbólico.
Enquanto monumentos são inaugurados e discursos são pronunciados, permanecem abertas as questões sobre redistribuição de riquezas, autonomia política e reparações materiais para populações que ainda convivem com as consequências do colonialismo francês.
O memorial às vítimas do genocídio de Ruanda passa agora a ocupar um espaço permanente no coração de Paris. Para muitos, porém, a verdadeira medida do compromisso francês com a memória não será dada pelas homenagens aos mortos, mas pela capacidade de enfrentar as desigualdades deixadas aos vivos.
Paraquedistas franceses ajudam órfãos de Ruanda na sua chegada no aeroporto de Goma, após terem sido retirados de Giseny, em 16 de julho de 1994. Críticos acusam a França de não ter feito o suficiente para impedir os massacres (Getty Images)
Ruanda, o maior massacre do século XX
O genocídio de Ruanda ocorreu entre abril e julho de 1994 e resultou na morte de mais de 800 mil pessoas em apenas cem dias.
As origens da violência remontam ao período colonial. Quando os belgas assumiram o controle do território no final do século XIX, passaram a classificar a população entre hutus e tutsis, criando documentos de identidade étnicos e estabelecendo hierarquias sociais artificiais.
Os tutsis foram apresentados pela administração colonial como um grupo superior e receberam privilégios administrativos, enquanto a maioria hutu foi relegada a posições subalternas. Décadas depois, essas divisões alimentariam ressentimentos que explodiriam durante o processo de independência.
Em 1961, a maioria hutu assumiu o controle do governo e aboliu a monarquia tutsi. Milhares de tutsis fugiram para países vizinhos, entre eles Uganda, onde surgiria a Frente Patriótica Ruandesa.
Após a morte do presidente Juvénal Habyarimana, em abril de 1994, grupos extremistas hutus iniciaram uma campanha sistemática de extermínio contra tutsis e hutus moderados.
Aliada do governo ruandês à época, a França enviou tropas para retirar cidadãos franceses e posteriormente criou uma zona considerada segura. Críticos acusam a França de não ter feito o suficiente para impedir os massacres e de ter mantido apoio político a autoridades ligadas ao regime responsável pela violência.
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