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Mancha no canal

Houve um tempo em que, se você buscasse no Google a frase “Dunquerque, pequenos barcos”, relatos de um dos melhores momentos da Grã-Bretanha se acumulariam nos resultados. Não nos últimos dias. As praias próximas a Dunquerque hoje se tornaram sinônimo não de ponto de embarque […]

Vidas não importam. Johnson e Macron transformam uma crise humanitária em cabo de guerra. Usar a força para resolver o problema costuma dar errado
Vidas não importam. Johnson e Macron transformam uma crise humanitária em cabo de guerra. Usar a força para resolver o problema costuma dar errado
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Houve um tempo em que, se você buscasse no Google a frase “Dunquerque, pequenos barcos”, relatos de um dos melhores momentos da Grã-Bretanha se acumulariam nos resultados. Não nos últimos dias. As praias próximas a Dunquerque hoje se tornaram sinônimo não de ponto de embarque de um resgate dramático, mas de tragédia desesperadora. Os detalhes dos 27 náufragos, entre eles sete mulheres e três crianças, que morreram afogados no Canal da Mancha na quarta-feira 24 demoraram a aparecer. O anonimato é indício do desespero.

A primeira a ser identificada foi uma curda do norte do Iraque, Maryam Nuri Mohamed Amin, estudante que enviava mensagens no WhatsApp para seu noivo, que mora no Reino Unido, quando o bote do grupo começou a murchar. A jovem de 24 anos viajou pela Alemanha e a França para se juntar a Mohammed Karzan na Grã-Bretanha. Pagou milhares de euros a contrabandistas para atravessar o Canal da Mancha, na ausência de outras rotas possíveis. Karzan disse que manteve contato contínuo com sua noiva e rastreava as coordenadas do GPS. “Depois de quatro horas e 18 minutos desde o momento em que ela entrou naquele barco, eu a perdi”, disse.

A morte de Amin, juntamente com outros 26 passageiros num bote do tipo “piscina infantil”, provoca a pergunta: o que leva os migrantes a entrarem em um bote no mar gelado na escuridão, a fim de perseguir as luzes distantes do Reino Unido? Uma resposta está nos acampamentos improvisados perto das praias de ­Dunquerque, onde parece que muitos daqueles que morreram dormiram antes de partir.

Em Grande-Synthe, cidade 1,5 quilômetro a oeste de Dunquerque, entre a rodovia dupla para Calais e as docas, algumas centenas de refugiados vivem ao longo de uma linha férrea desativada, sob lonas ou em barracas suspensas sobre lama ou cascalho. Ao caminhar entre eles, escrevi em meu caderno: quão mais hostil pode ser um ambiente? Não há água ou saneamento. Muitos, quase todos curdos iraquianos, haviam sido retirados de um grande acampamento na estrada alguns dias antes, como parte da política local de “remoção contínua”. Suas barracas foram destruídas e muitos de seus poucos pertences, perdidos ou roubados. Para muitos, essa expulsão foi apenas a mais recente na história de uma longa jornada que começou 4,8 mil quilômetros a Sudeste.

Aqueles com quem falo em seu inglês hesitante dão sorrisos vazios quando contam há quantos meses ou anos estão aqui, ou em lugares como este. Ribar Dhery, homem na casa dos 30 anos, está sentado sob as árvores, protegido da chuva. Ele lista os países pelos quais passou para chegar aqui, vindo do Iraque: Turquia, Grécia, Bulgária, Bielorrússia e Polônia. Ele escapou do Iraque, diz, “porque sempre há gente atirando”. Ele afirma ter um irmão em Leeds. “Aqui ruim, Inglaterra boa”, diz. Quando lhe pergunto como chegará ao Reino Unido, ele responde com movimentos ondulantes das mãos. Outro, Abdul Rahman, me diz com um sorriso quanto custou sua passagem: “Três mil euros”. Ele chegou aqui há uma semana, vindo do Afeganistão. Quando menciono os trágicos acontecimentos do naufrágio, ele apenas dá de ombros.

A morte de 27 náufragos não comove os governos da França e do Reino Unido

A maioria dos que acampam na chuva e na lama é de jovens, mas também há várias famílias, crianças pequenas enroladas em casacos e chapéus, a segurar com força o plástico brilhante de seus poucos brinquedos. Adil e Sarah têm quatro filhos com menos de 6 anos, um bebê incluído. Eles se sentam ao redor de uma fogueira fumegante de gravetos úmidos entre os trilhos da ferrovia e tentam marcar algum espaço próprio. Caminhões de instituições de caridade param e oferecem uma refeição quente, uma xícara de chá e algumas roupas e cobertores. Assistir aos acampados se acotovelarem por calçados infantis ou à espera na fila sob a chuva pela promessa de um edredom faz você se sentir um voyeur do desespero.

Em face da última tragédia, considerada a maior perda de vidas no Canal da Mancha desde a guerra, políticos do Reino Unido e da França têm competido para sugerir que a culpa está em outro lugar. O ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, ao informar que cinco suspeitos foram presos por tráfico de pessoas, esforçou-se para enfatizar que o quinto contrabandista tinha “uma placa de carro alemã” e havia “comprado botes na Alemanha”. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, nem mesmo concluiu uma mensagem de condolências antes de empregar o “mas”, que implicava a culpabilidade, primeiro, das gangues criminosas e, depois, da polícia e do governo franceses. Na vergonhosa politicagem de sua carta tuitada ao presidente francês, Johnson falou de “operações de patrulha marítima”, “sensores de solo e radar” e “aeronaves não tripuladas sob a insígnia conjunta”, soluções militares para uma crise humanitária.

Para os envolvidos nesse esforço em Grande-Synthe, a semana do desastre foi a pior em anos de semanas ruins. No acampamento ferroviário, a instituição de caridade britânica Care4Calais tentou preencher algumas lacunas na vida dos migrantes. Comprou um gerador com tomadas para carregar celulares, ao redor do qual se aglomerou uma grande multidão, montou uma barbearia sobre cadeiras na lama e uma mesa com jogos infantis. Vários adolescentes sentaram-se e se perderam por um tempo com os lápis de cor. Um desenhou o rosto de sua namorada no Iraque.

A Care4Calais foi fundada por Clare ­Moseley há seis anos. Ela vê a mudança da população em Grande-Synthe como um barômetro das crises mundiais. “Coisas ruins acontecem em outros lugares e as pessoas vêm parar aqui”, analisa. “Sejam as guerras no Iraque ou na Síria, a fome no Iêmen, e agora o colapso do Afeganistão.”

Depois do mar. Os refugiados buscam de forma desesperada a chance de reencontrar parentes, amigos e amores

Sua decisão de criar a instituição beneficente foi motivada pela leitura de um artigo sobre as mortes no Mediterrâneo em 2015. Ela trabalhava em um emprego corporativo na Deloitte na época, diz, com pouco interesse por relações exteriores. “Apenas pensei: como as pessoas podem estar se afogando no mar na Europa em 2015?” Ela veio a Calais, viu o estado dos campos e desistiu de seu emprego: “Temos de fazer melhor que isso”.

Para alguns, ao ler relatos da tragédia, a surpresa foi que houvesse tantas mulheres no barco. Frances Timberlake é um dos administradores do Centro de Mulheres Refugiadas em Dunquerque, que oferece a centenas de mulheres “apoio essencial e psicossocial para violência baseada em gênero e saúde sexual e reprodutiva”. É uma tática política fácil, diz, “sugerir que são apenas homens jovens que fazem as travessias, quando quase sempre há mulheres e crianças envolvidas”.

Trabalhistas, o Partido Nacional Escocês, liberal-democratas e parlamentares verdes estabeleceram uma emenda à lei de fronteiras, na qual pedem um novo “sistema de visto humanitário” por uma boa razão, laços familiares. Em outra emenda, o deputado conservador ­David Davis pediu aos colegas de Parlamento para removerem a cláusula do projeto de lei que permite que os requerentes de asilo sejam “processados offshore”.

A Médicos Sem Fronteiras, que montou acampamento em Grande-Synthe, tem longa experiência dos efeitos de algumas dessas políticas em outras partes do mundo. Antes de o projeto ser anunciado, enviou uma carta ao ministro do Interior, descrevendo sua pesquisa que mostrava que o modelo australiano de “processamento offshore” na ilha de Nauru, no qual a ideia do ministro Priti­ Patel parece se basear, causou “alguns dos piores sofrimentos mentais que vimos em nossos 50 anos de existência”, com um terço dos pacientes da MSF a tentar o suicídio, incluídas crianças de apenas 9 anos. A carta também apontou que, recentemente, se revelou que a política custou mais de 2,3 milhões de libras (perto de 17 milhões de reais) para cada refugiado, por ano. A MSF nem mesmo obteve a cortesia de um reconhecimento de que a carta havia sido recebida.

Dunquerque, de memória heroica, tornou-se a praia do desespero

Sophie McCann, representante da organização, diz que, ao contrário da aparente crença do governo, “certamente não é ilegal pedir asilo… Segundo suas próprias estatísticas, dois terços daqueles que forem para o Reino Unido serão considerados refugiados. O projeto basicamente criminaliza qualquer um que tente ir de forma irregular e ao mesmo tempo fecha todas as rotas legais a partir da Europa”.

Uma esperança é que o fato de crianças se afogarem no Canal da Mancha possa finalmente suavizar as atitudes britânicas em relação à crise. A última vez que isso aconteceu, quando o corpo de Alan Kurdi, de 3 anos, foi parar numa praia turística turca em 2015, o governo anunciou que acolheria 20 mil refugiados sírios. Desde o Brexit, compromissos semelhantes com menores desacompanhados e reagrupamento de famílias foram descaradamente abandonados.

Na rodovia perto de Grande-Synthe, há um daqueles supermercados franceses Auchan, do tamanho de um hangar, que vendem dúzias de variedades de tudo. O campo de refugiados fica a 800 metros de distância. No estacionamento do supermercado, havia uma divisão bizarra entre compradores a pegar árvores de Natal e grupos de jovens e famílias do acampamento, a vagar para cima e para baixo no acostamento, porque não têm outro lugar para ir. Ao observá-los, perguntei-me como seria um espírito reinventado de ­Dunquerque, que incluísse esses grandes sobreviventes de jornadas impossíveis, em vez de pensar em maneiras cada vez mais duras de excluí-los. Até que comecemos coletivamente a imaginar como isso poderia ser, uma coisa é certa: muitos mais correrão o risco daqueles 27 que perderam a vida no naufrágio. •


Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1186 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE DEZEMBRO DE 2021.

CRÉDITOS DA PÁGINA: PATRICK SEMANSKY/POOL/AFP E DENIS CHARLET/AFP – BEN STANSALL/AFP

Tim Adams

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The Observer

The Observer Fundado em 1791, é um semanário publicado sempre aos domingos no Reino Unido. Pertence ao mesmo grupo de mídia do reconhecido The Guardian.

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