Mundo
Mamãe eu quero
Com ameaças à Groenlândia, Trump arrisca implodir a Otan e romper os laços com uma Europa frágil e ressentida
Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, em 1945, e a Otan foi fundada, quatro anos mais tarde, nada, nem mesmo a União Soviética, parecia capaz de destruir uma aliança transatlântica tão poderosa e coesa. O grupo formado pelas potências capitalistas vencedoras passou os 77 anos seguintes se fortalecendo e se expandindo, enquanto olhava com desconfiança e rivalidade para o Leste. Europeus e norte-americanos tinham certeza de que a ameaça viria do bloco socialista liderado por Moscou. Erro crasso. O maior inimigo estava na mesma sala.
Donald Trump puxou o pino de uma granada que pode causar sérios danos, senão destruir completamente os fortes laços militares, diplomáticos e econômicos que marcaram as relações transatlânticas nas últimas sete décadas e moldaram boa parte do mundo no século XX. O pivô é a Groenlândia, a maior ilha do mundo, que tem quase 11 vezes o tamanho da Grã-Bretanha, e, apesar da relativa autonomia administrativa, faz parte do Reino da Dinamarca, um dos Estados fundadores da Otan e, como tal, aliado dos Estados Unidos, ao menos no papel.
A cobiça de Trump pelo território tem duas explicações estratégicas e uma psicológica. A Groenlândia é rica em recursos naturais, entre eles as chamadas terras-raras, essenciais para as tecnologias de transição energética, além de petróleo e gás, cuja exploração se tornaria mais fácil à medida que o aquecimento global degela parte da região. O segundo elemento estratégico está ligado à defesa. O republicano atribui à Rússia e à China o interesse que ele mesmo não esconde em assegurar para si essa formidável plataforma de projeção de força na região do Ártico. A razão psicológica é mais estranha. O presidente norte-americano enviou uma mensagem escrita ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Stoere, na qual afirma, por não ter sido agraciado com o Prêmio Nobel da Paz no ano passado, não se sentir mais obrigado a “pensar puramente na paz”. Logo, se sente autorizado a avançar sobre a Groenlândia, pois “a Dinamarca não pode proteger essas terras da Rússia e da China”. A posição de Trump no caso foi bem resumida pelo senador francês Claude Malhurer, que em discurso na Assembleia Nacional, em Paris, na segunda-feira 19, disse que “a política externa dele é a de uma criança de 4 anos, que chora porque quer uma boneca na vitrine”.
Política externa de uma “criança de 4 anos”, acusou o senador francês Claude Malhurer
A infantilidade no desejo transparece na linguagem. Em suas redes sociais, Trump passou a publicar ilustrações e animações feitas com Inteligência Artificial, nas quais aparece fincando uma bandeira norte-americana na Groenlândia ou apontando um mapa para os líderes europeus, no qual a ilha dinamarquesa, além do Canadá e da Venezuela, surge pintada com uma bandeira dos Estados Unidos.
A atitude debochada e violenta tem sido respondida com rara agressividade por parte de líderes europeus, que, embora dependam fundamentalmente dos norte-americanos como seus fiadores militares e parceiros comerciais, se veem, por outro lado, compelidos a impor limites ao que o deputado britânico Ed Davey classificou como um “bullying dos Estados Unidos”, em discurso no Parlamento Britânico, em Londres, na segunda-feira 19. O ápice das reações europeias deu-se no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, mas, mesmo antes, começaram a pipocar declarações francamente inamistosas de quase todos os líderes importantes do Velho Continente – exceção feita, talvez, ao primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, que manteve uma postura mais dúbia e relutante, e à primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, francamente apaziguadora.
As divisões refletem os dilemas de um continente imprensado pela estagnação econômica, o envelhecimento populacional, a dependência militar e o risco de colapso interno, representado pela ascensão de uma extrema-direita que tem cada vez mais votos e que é eternamente crítica à União Europeia. Apesar de todas essas divisões internas, os integrantes europeus da Otan moveram, porém, tropas para a Groenlândia, numa coreografia que misturou duas mensagens. Primeiro, a de que o próprio continente pode zelar pela segurança desse território, caso a preocupação de Washington seja com um possível assédio russo ou chinês. Depois, como uma inverossímil ação de projeção de força e de dissuasão da Europa contra ninguém mais, ninguém menos que os Estados Unidos.
Bullying. Macron é o alvo preferencial do presidente dos Estados Unidos, que usa a humilhação pública como arma – Imagem: Valeriano Di Domênico/WEF
Trump reagiu por meio de uma guerra comercial, ao anunciar a imposição de uma nova rodada de sobretaxas à importação de produtos europeus, começando em 10% e progredindo até 25%, enquanto durar a resistência à anexação da ilha. A França de Emmanuel Macron foi especialmente assediada, com a possibilidade de taxação de 200% sobre vinhos e champanhes, dois itens sensíveis da cesta básica de agricultores franceses, que estão possessos com o governo por causa do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul.
Na sequência, o presidente dos EUA passou a publicar em suas redes sociais mensagens trocadas por celular, de maneira privada, com Macron e o secretário-geral da Otan, o holandês Mark Rutte, expondo ambos de maneira traiçoeira. Macron não acusou o golpe e, em resposta, disse que a troca de mensagens com o norte-americano confirma o que ele sempre diz em público: que está alinhado com os Estados nas questões da Síria e do Irã, mas que considera incompreensíveis os movimentos da Casa Branca em relação à Groenlândia. No caso de Rutte, as comunicações revelam subserviência, mas nada tende a encabular um político que, no passado, chegou a referir-se a Trump como “papai”.
A ruptura anunciada no mundo virtual tomou forma finalmente em Davos, onde um dos primeiros a discursar, o primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, traçou uma linha vermelha. “Nós, como Europa, precisamos dizer a Trump: não mais. Recue ou iremos até o fim”. Wever não explicou, no entanto, o que seria esse “fim”. O belga reconheceu que a Europa tentou “apaziguar” Trump por muito tempo e foi “muito leniente, inclusive com as tarifas”, na esperança de “ter o seu apoio para a guerra na Ucrânia”, mas, agora, disse não mais considerar os Estados Unidos como aliados e defendeu que a Europa volte a se rearmar e desenvolva plataformas tecnológicas próprias, sob risco de se tornar “escrava”. Para ele, essas mudanças são profundas e definitivas e não correspondem a uma situação meramente conjuntural na Casa Branca.
“Vocês podem dizer ‘não’, e nós nos lembraremos disso”, ameaçou Trump em Davos
A presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, fez coro com o premier belga, definindo a aliança com os Estados Unidos como uma “nostalgia que não vai trazer de volta a velha ordem”. Segundo ela, “é hora de aproveitar a oportunidade e construir uma nova Europa independente”. Mas a declaração que mais reverberou foi a do primeiro-ministro canadense, Mark Carney. A ordem internacional baseada em regras acabou, disse, e os países presentes devem abandonar a ideia de acomodar as coisas para evitar problemas, esperando que “a obediência compre segurança”. O Parlamento europeu ameaça suspender o acordo comercial recentemente fechado com Washington e, em último caso, ativar o instrumento contra a coerção econômica, que possibilita a interrupção de qualquer relação comercial e financeira entre o continente e os EUA.
Na quarta-feira 21, coube a Trump responder às declarações dos europeus, em Davos. O presidente norte-americano relembrou a dívida histórica da Europa com os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial: “Sem nós, vocês estariam falando alemão e talvez um pouco de japonês”. Sobre a anexação da Groenlândia, ameaçou: “Vocês podem dizer ‘sim’, e nós ficaremos gratos. Ou vocês podem dizer ‘não’, e nós nos lembraremos disso”. No fim, cedeu à pressão dos aliados e declarou que não usará a força para invadir e ocupar um pedaço do território europeu. Quem acredita? •
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Mamãe eu quero’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



