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A eleição para o Congresso em novembro leva parlamentares republicanos a se afastar de Trump

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Afastamento. O Parlamento tem imposto reveses ao republicano, que passou a criticar os deputados e senadores do próprio partido – Imagem: Chip Somodevilla/Getty Images/AFP e Saul Loeb/AFP
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Ao retornar à Casa Branca em janeiro de 2025,­ ­Donald Trump acumulava um capital político raro, o controle simultâneo da Câmara e do Senado, o apoio disciplinado do Partido Republicano e a devoção de uma base mobilizada em torno do bordão “America First”. Um ano depois, o que parecia ser uma base sólida se desmancha no ar. Aliados se afastam, as fissuras na legenda ficam evidentes e Trump parece cada vez mais isolado. Na noite do domingo 11, a morte súbita do senador Lindsey Graham, em decorrência de uma ruptura na principal artéria do corpo, aumentou a sensação de isolamento do presidente dos Estados Unidos. Graham era um expoente de um conservadorismo tradicional: defensor da postura intervencionista no exterior, linha-dura em segurança e aliado consistente de pautas judiciais restritivas. Ao liderar até os últimos dias um pacote de sanções e tarifas contra a Rússia, articulado com o Executivo, o senador voltou a se mostrar como um dos principais fiadores de Trump na Casa.

As fraturas entre Trump e o Congresso ficaram expostas, no entanto, até durante os preparativos das homenagens ao senador. Enquanto líderes republicanos e democratas enfatizaram o papel institucional de Graham e defenderam a continuidade do projeto de sanções à Rússia como uma forma de honrar seu legado, o presidente aproveitou o luto para reivindicar o crédito pelo pacote e pedir que outros dois fossem aprovados como maneira de homenageá-lo, um deles relacionado a criptomoedas, o que para muitos não têm qualquer relação com o trabalho de Graham.

Ao mesmo tempo, o progressivo afastamento do também senador Mitch ­McConnell, internado sucessivas vezes e alvo de atenção pública por episódios de desorientação e quedas que escancararam sua fragilidade física, reforça a impressão de esgotamento de uma geração de caciques republicanos. Mais do que um problema individual de saúde, a saída gradual de cena de McConnell como articulador da agenda governista no Senado indica que até mesmo os pilares institucionais do trumpismo no Congresso não funcionam com a mesma eficiência. Nesse vazio de liderança, ganha força o movimento de afastamento silencioso de deputados e senadores do partido em relação ao presidente a quatro meses das eleições de meio de mandato que podem redefinir o equilíbrio das forças políticas no Parlamento. Em distritos competitivos e estados nos quais o voto moderado é decisivo, muitos passaram a “esconder” a associação com Trump. Motivos não faltam. A pesquisa do Times/Siena divulgada na terça-feira 14 mostra que apenas 37% dos eleitores aprovam o desempenho do presidente. Uma catástrofe. Nos últimos 17 anos, nenhum mandatário havia ficado abaixo de 38% de apoio. Um levantamento do Instituto Gallup divulgado no mesmo dia indica que a confiança no Congresso (9%), na presidência dos Estados Unidos (27%) e na Suprema Corte (27%) permanece bem abaixo dos níveis históricos.

Com a inflação em alta e o desgaste acumulado por crises de política externa, o trumpismo deixou de ser um ativo eleitoral garantido e passou a representar um risco para quem precisa do voto independente e das periferias para se manter no cargo. A debandada tem, portanto, menos a ver com uma súbita tomada de consciência moral e mais com o temor de que a eleição de novembro funcione como referendo sobre o governo.

A popularidade do presidente caiu a 37%, a mais baixa em 17 anos

O ponto de inflexão dessa trajetória ficou ainda mais nítido em 24 de junho, quando Trump decidiu, com a cerimônia preparada, abortar a assinatura de um raro projeto bipartidário sobre habitação acessível. Em meio a uma crise estrutural de moradia no país, marcada por oferta insuficiente, custos recordes e famílias estranguladas por aluguel e hipoteca, a lei havia sido aprovada com ampla margem nas duas Casas. O problema é que na véspera do cancelamento, em 23 de junho, o Congresso decidiu aprovar, com apoio de republicanos, uma resolução inédita exigindo que Trump suspendesse a guerra no Irã ou buscasse autorização formal para prosseguir com o conflito, numa reprimenda bipartidária direta à condução da política externa. Não foi a primeira vez que o Congresso enfrentou Trump neste assunto, mas a sequência de fatos recentes apenas deu forma institucional a um sentimento de “traição” em relação ao Legislativo que vinha fermentando há meses em discursos, entrevistas e postagens do presidente. “Uma votação sem sentido, a Câmara votou, com quatro republicanos incompetentes e todos os democratas, para limitar meus poderes de guerra, bem no meio das minhas negociações finais para encerrar a guerra com a República Islâmica do Irã.Quem faria uma coisa tão antipatriótica? (…) Os quatro republicanos, essa é outra história completamente diferente – eles são exibicionistas! Deveriam ter vergonha de si mesmos”, escreveu Trump na Truth Social após uma das intervenções, no início de junho.

O republicano também tem perdido aliados fiéis fora do Parlamento, seja pela recusa em divulgar os arquivos ­Epstein, pela inexplicável e indecorosa fortuna multiplicada no intervalo de um ano ou pela insistência em entrar em guerras consecutivas. Em entrevista ao jornal The New York Times, o apresentador ­Tucker Carlson, um dos principais porta‑vozes da base MAGA, disse não ser mais um apoiador do presidente. “Eu acho que ninguém na administração Trump queria ir à guerra do Irã, mas eles eram covardes ou se renderam ao poder ‘hipnotizante’ dele”. Carlson disse ter conversado com o ex-aliado por anos sobre o assunto. “Nossas experiências com uma nação muito menor, o Iraque, mostram que isso é uma tarefa assustadora que nem sempre leva a resultados favoráveis e não é benéfica para os Estados Unidos. Trump entendia isso, o que foi um dos principais motivos pelos quais eu o apoiei e fiz campanha por ele. Essa compreensão era central para a minha visão sobre sua candidatura e sua presidência”. Para Carlson, assim como para muitos no MAGA, o presidente há tempos deixou de se importar com o que os eleitores querem e se afastou não apenas de seus parlamentares, mas de parte da base que o levou de volta ao poder. •

Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Líder tóxico’

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