Mundo
Juntar os cacos
Restabelecer a democracia na Hungria não será tarefa fácil, avalia Lajos Bokros, ex-ministro das Finanças
A Hungria viveu uma experiência única nos últimos 16 anos. Descobriu, em plena luz do dia, como morrem as democracias. Com a derrota nas urnas de Viktor Orbán, o país tem tudo para entrar em uma nova fase, inédita no século XXI no Ocidente: como renascem as democracias. Na entrevista a seguir, o ex-ministro das Finanças da Hungria, Lajos Bokros, não esconde o entusiasmo com o fim do governo Orbán, denuncia o que chamou de “Estado mafioso” criado pelo líder da extrema-direita e destaca que o trabalho de reconstrução de uma democracia liberal será enorme. Bokros liderou a economia húngara nos primeiros anos após o fim da Guerra Fria e foi parlamentar europeu depois da adesão da Hungria à UE.
CartaCapital: Por qual motivo, desta vez, a oposição conseguiu reunir as condições para derrotar Viktor Orbán?
Lajos Bokros: São diversos fatores. Em primeiro lugar, “é a economia, estúpido”, como disse James Carville, assessor de Bill Clinton. A Hungria ainda vive profundas consequências da Covid-19 e, desde então, não há crescimento econômico. Está perdendo espaço e nível de desenvolvimento, mesmo entre os países do Leste e do Centro Europeu. O padrão de vida se deteriorou para muitos. Esse é um fator fundamental. Outro elemento a ser considerado é que o governo, no poder há 16 anos, tinha exaurido sua capacidade de dar respostas. E isso foi sentido pela população. Não tinham novas ideias, novos planos. Os húngaros estavam exaustos de um governo ineficiente.
CC: Como se deu a ruptura entre Peter Magyar e Orbán?
LB: Há dois anos, houve um enorme escândalo em uma instituição de cuidados de crianças e que foi acobertado por gente influente, incluindo a presidente do país e a ministra da Justiça. Uma delas era a esposa de Magyar. Isso lhe deu um enorme ímpeto para começar algo novo. Ele tinha informação sobre o funcionamento do governo e dos crimes dos funcionários de alto escalão. Depois de tantos anos no poder, Orbán e seu grupo se degeneraram em um governo num estilo mafioso. A corrupção se transformou em um sistema de política de governo. Amigos e parentes de Orbán ficaram muito ricos em curto espaço de tempo. Até os mais leais ao partido de Orbán entenderam que havia algo de errado. Essa corrupção revelou a natureza dessa estrutura oligárquica. Em muitos países existe isso, dos EUA ao Brasil, da Itália à Rússia. Mas não era conhecido por parte da população. Orbán e seus aliados ficaram tão arrogantes que ficou evidente, até para o povo, que se tratava de uma organização criminosa. Chamamos de um Estado mafioso.
CC: De que forma isso ocorria?
LB: Cerca de 20 famílias passaram a explorar quase tudo. Não apenas o Estado. Desviavam até dinheiro da UE. E, para completar, Orbán e seu grupo destruíram o Estado de Direito. O resultado foi uma deterioração dos serviços públicos, como saúde e educação.
Orbán instituiu um Estado mafioso, afirma
CC: Por anos, a Hungria liderou um experimento de desmonte da democracia. Como vai ressuscitar agora?
LB: A primeira pergunta que precisamos fazer é se isso será realmente possível. Orbán colocou seus aliados em alguns dos cargos mais estratégicos e eles continuam nessas posições. Isso inclui cargos na imprensa, na educação, na economia e na administração. A boa notícia é que Magyar conseguiu eleger dois terços do Parlamento, o que lhe permitirá mudar a Constituição. Foi exatamente esse caminho que Orbán usou para destruir o Estado de Direito. Isso ocorreu em 2010 e, em um ano, escreveram uma Constituição nova e destruíram todas as principais instituições independentes, incluindo os tribunais, o Banco Central e a imprensa. Outro órgão fundamental que assumiram foi o da concorrência. No fundo, eles tomaram o Estado e, por quase duas décadas, colocaram aliados como funcionários de todos esses locais. Esse agora é um grande problema. Magyar pode usar o mesmo sistema. Orbán ainda cometeu um enorme erro. Distorceu o sistema eleitoral, acabando com princípios de proporcionalidade e permitindo que, com maioria relativa de votos, um partido possa facilmente atingir dois terços dos votos. Isso foi criado para eternizar Orbán no poder. Mas foi um grande erro e, agora, um novo partido, em apenas dois anos, conseguiu atrair toda a oposição e fazer o sistema funcionar a seu favor. Magyar obteve 53% dos votos, mas, pelo sistema, conquistou mais de dois terços do Parlamento. Se ele usar essa maioria de forma correta, pode restabelecer o Estado de Direito. Não será fácil.
CC: Para além do Estado de Direito, o que mais o novo primeiro-ministro terá de fazer para restabelecer a democracia?
LB: Muita coisa. Na economia, será fundamental restabelecer o sistema de livre-mercado, destruído por intervenções do governo para facilitar contratos para amigos. As licitações públicas foram transformadas em um caminho fundamental para destinar dinheiro às empresas privadas. Na Hungria, apenas aquelas 20 famílias ganhavam contratos públicos. Isso permitia que destinassem enormes recursos apenas para esses grupos. Se esse cordão umbilical puder ser cortado entre o orçamento nacional e a oligarquia, uma parte de seus ativos não terá mais valor. Após a Covid-19, a UE criou programas para apoiar os setores econômicos. Bilhões de euros foram distribuídos. Mas o partido de Orbán destruiu o Estado de Direito e a Hungria deixou de receber 35 bilhões de euros. É verdade que, até agora, não sabemos exatamente qual será a política econômica de Magyar. Ele não deu respostas específicas a nenhum dos problemas econômicos. Vamos ver se sabe o que fazer e quanta coragem terá para tomar decisões que poderão ser pouco populares.
CC: Quais são esses desafios?
LB: O déficit fiscal é de mais de 5% do PIB numa economia estagnada. Muitos dirão que pacotes de austeridade serão necessários. Se você quer melhorar o país, você é confrontado com escolhas difíceis e que podem ser impopulares. Isso ocorreu comigo há 30 anos.
CC: O senhor viveu o fim da Cortina de Ferro e liderou a economia do país nos anos 1990. O que significou presenciar essa última eleição?
LB: Podemos chamar o que ocorreu de “terceira mudança de regime” na Hungria nos últimos 35 anos. A primeira mudança ocorreu em 1989, quando o sistema comunista entrou em colapso e iniciamos a democracia liberal. Isso durou 20 anos. Orbán chegou e destruiu a democracia liberal. Agora temos mais uma. É um novo começo e poderia ser a terceira mudança. Podemos ir de volta à democracia e ancorar o destino da Hungria no Ocidente. Isso vai exigir a recriação do Estado de Direito, um mercado competitivo e democracia. É só uma promessa ainda. Veremos. •
Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Juntar os cacos’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.


