Jorge Sampaio teve uma vida da qual Portugal pode se orgulhar

O ex-presidente português foi um idealista, sempre disposto a abraçar uma causa que o sensibilizasse

Jorge Sampaio em 1996. Foto: Inacio Rosa/AFP

Jorge Sampaio em 1996. Foto: Inacio Rosa/AFP

Mundo

Quando conheci Jorge Sampaio, já ele era um social-democrata que encontrou nesta doutrina e corrente política, marcadamente europeia, a síntese entre a liberdade individual e a igualdade social – valores políticos que, julgo eu, lhe orientaram a ação durante toda a sua vida. Os trinta anos de crescimento econômico na Europa e a construção do chamado modelo social europeu foram certamente importantes para sua intervenção política depois da revolução democrática no partido socialista. O líder estudantil contestador da ditadura e o jovem advogado, que nunca perdia uma oportunidade de defender presos políticos, encontrava assim o seu espaço na vida política portuguesa, onde viria a fazer uma longa e bem sucedida carreira política.

Como todos os que têm longas carreiras, Sampaio conheceu a desilusão. Mas isso nunca o transformou num político cínico, ou calculista – e muito menos num carreirista. Sempre detestou os burocratas. Era um idealista, mais disposto a abraçar uma causa que o sensibilizasse do que os interesses que a carreira lhe ditasse. O conheci melhor nos anos 80, quando liderou o grupo parlamentar socialista. Sempre o vi interessado pelos novos temas políticos desses tempos – a AIDS, o meio-ambiente, a dependência química. Estou, aliás, convencido que foi essa atenção aos novos temas que o levou a interessar- se pelas políticas urbanas e que, mais tarde, o motivou também na candidatura a Presidente da Câmara de Lisboa. Sua candidatura foi inesperada, inovadora, corajosa e um sucesso. Ela viria a constituir um momento especial na política portuguesa, permitindo-lhe, mais tarde, candidatar-se a Presidente da República, vencendo, e sucedendo a Mário Soares, para grande contentamento dos socialistas.

 

A “fortuna” deu-lhe ainda a oportunidade de, como Presidente da República, intervir no processo que conduziu à independência de Timor-Leste, a última grande vitória da diplomacia portuguesa e a última causa verdadeiramente nacional.

Jorge Sampaio era um político atento ao mundo. Tinha viajado muito quando jovem e isso desenvolveu nele uma atenção especial aos assuntos da política internacional, à qual permaneceu fiel até ao fim da vida (nos últimos anos, esteve envolvido em movimentos de apoio aos refugiados, talvez a maior tragédia do projeto político da União Europeia). Como grande parte dos jovens advogados da sua geração, acreditava fortemente no direito internacional e fez dos direitos humanos a nova utopia internacional. Esse é, no meu ponto de vista, um aspecto essencial da sua identidade política – há direitos individuais que se sobrepõem aos Estados e às vontades maioritárias das sociedades. Neste aspecto, nunca teve medo de estar em minoria.

A sua morte deixou a mim e seus amigos e camaradas mergulhados num triste silêncio interior. Fomos, durante muitos anos, companheiros políticos, e tinha por ele um grande afeto e admiração. Fui Primeiro- Ministro nos últimos tempos em que ele foi Presidente da República e ficou-me a sensação de que ambos fomos felizes nesse período. Sampaio tinha uma certa visão estética da política, pormenor que sempre me agradou. Todos os que o conheceram são testemunhas de um homem de espírito, culto e encantador. Agora, que já passaram umas horas desde a notícia do seu falecimento, o que realmente pretendo, ao escrever este breve texto destinado a falar dele ao público brasileiro, é celebrar a sua vida. Uma coisa posso afirmar – Jorge Sampaio teve uma vida plena, uma vida realizada, uma vida boa. Uma vida de que Portugal se pode orgulhar.

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Ex-primeiro ministro de Portugal (2005 a 2011)

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