Itamaraty ataca Maduro, e Venezuela acusa Bolsonaro de ‘genocídio’

Ministro Ernesto Araújo se manifestou após relatório de missão independente da ONU acusar Venezuela de violar direitos humanos

 Foto: Gustavo Magalhães/MRE

Foto: Gustavo Magalhães/MRE

Mundo

Uma nota publicada pelo Itamaraty, nesta quinta-feira 17, motivou uma resposta agressiva do chanceler da Venezuela, Jorge Arreaza, que acusou o governo do presidente Jair Bolsonaro de promover um “genocídio” durante a pandemia do coronavírus.

 

O principal órgão brasileiro nas relações exteriores escreveu que o governo do presidente venezuelano Nicolás Maduro, chamado de “ditadura” pelo texto, “não tem quaisquer condições ou legitimidade para convocar um processo eleitoral limpo e justo”, e pede que as eleições parlamentares marcadas para 6 de dezembro “não devem ser apoiadas pela comunidade internacional”.

A manifestação do Itamaraty se baseou em um relatório publicado nesta semana, que acusa o governo da Venezuela de violar direitos humanos. O documento de mais de 400 páginas foi produzido, pela primeira vez, pela Missão Internacional Independente do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), que diz ter investigado 223 casos, com aprofundamento em 48.

No Twitter, o ministro das Relações Exteriores escreveu que o relatório “é devastador”.

“O relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre a Venezuela é devastador. Considera que Maduro e ministros seus cometeram crimes de lesa-humanidade. O mundo precisa unir-se para dar fim a esse regime atroz, começando por rejeitar a farsa das ‘eleições’ convocadas por Maduro”, disse Araújo.

Em resposta, o chanceler venezuelano responsabilizou o governo Bolsonaro pelo 2º maior índice mundial de mortes decorrentes da Covid-19, acima dos 130 mil óbitos. Já a república bolivariana reúne 502 mortes e 62.655 casos confirmados pela doença, atrás de países europeus e latinos como Bolívia, Argentina e Colômbia, de acordo com a contagem da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Senhor Ernesto Araújo: Quantas centenas de milhares de brasileiros morreram ou sofreram danos com Covid-19, graças à irresponsabilidade de seu Presidente? Isso sim é um crime contra a humanidade: GENOCÍDIO. Falo com fatos, não com relatos falsos, tendenciosos e ideológicos”, rebateu.

 

Chanceler venezuelano rechaça metodologia de relatório

 

Jorge Arreaza criticou a metodologia do relatório divulgado pela ONU. Na quarta-feira 16, o chanceler escreveu que o documento está “cheio de falsidades” e carece de “rigor metodológico”. Uma das críticas recai sobre o relatório ter sido produzido à distância.

Segundo informa o próprio relatório, em seu capítulo II, sobre a metodologia, a Missão Independente “lamenta profundamente não ter podido visitar a Venezuela e realizar uma investigação no País”.

A equipe diz ter solicitado oficialmente uma reunião com o governo venezuelano em janeiro, e afirma ter enviado cartas em maio, junho, julho, agosto e setembro, mas alega não ter obtido respostas às correspondências.

Entre agosto e setembro, o grupo teria escrito ao governo chavista sobre sua intenção em entregar o relatório antes da publicação, para que as autoridades fizessem observações, mas também não teria sido atendido.

Além disso, a Missão diz ter tido limitações na investigação, entre elas a “falta de acesso à Venezuela” e a “impossibilidade de viajar” durante a pandemia do coronavírus.

Portanto, as informações recolhidas foram entrevistas confidenciais, pessoalmente, por telefone ou vídeo, documentos obtidos por pessoas e organizações e informações disponíveis na internet, como no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube, blogs, informes, artigos jornalísticos e de opinião e comunicados de imprensa.

A partir disso, a Missão relata ter feito 274 entrevistas com vítimas, testemunhas, familiares, ex-funcionários do Estado, advogados e representantes de organizações não-governamentais.

A chancelaria da Venezuela alega que tem cooperado de forma coordenada e construtiva com o Conselho de Direitos Humanos da ONU, mas somente através do escritório da Alta Comissária Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, a representante oficial do setor na ONU.

“Desde 2 de dezembro de 2019 temos afirmado que não reconhecemos nenhum mecanismo politizado e inquisidor, criado com fins ideológicos por países com péssimos índices de direitos humanos, para agredir a Venezuela e tratar de prejudicar a relação com o escritório da Alta Comissária”, disse Arreaza.

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Repórter do site de CartaCapital

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