Igrejas evangélicas de Cuba fazem campanha contra o casamento gay

Financiados por religiosos dos EUA, os cultos neopentecostais crescem a cada dia e testam a influência do povo cubano

Igrejas evangélicas de Cuba fazem campanha contra o casamento gay

Mundo

Cerca de mil fiéis reuniram-se numa manhã de sábado na igreja metodista do bairro de Vedado, em Havana, a capital de Cuba, pouco tempo atrás. Depois que a música de “renascimento” e os tambores de conga se dissiparam, os dançarinos desceram do palco e os fiéis tinham baixado os braços estendidos, o pastor Lester Fernández proferiu um sermão sobre as terríveis consequências que a lei do casamento gay traria.

“A igreja cubana, como parte essencial de nossa sociedade, está preocupada e, portanto, tem o direito de se manifestar publicamente”, brada ao microfone. “Amém”, responde o rebanho.

Numa ilha onde as campanhas em massa contra a política oficial são quase inéditas – e onde o “ateísmo científico” já foi doutrina de Estado –, as igrejas evangélicas irromperam no cenário político nos últimos meses em campanha contra o casamento gay.

Uma nova constituição cubana foi aprovada no domingo 24 e, enquanto o aparelho do Estado faz campanha pelo “sim”, as igrejas Metodista, Batista e Pentecostal, geralmente fraturadas, fazem uma contracampanha unida, mas não chegam a pedir explicitamente o voto no “não”. Elas temem que a nova Constituição abra a porta para o casamento homossexual.

Os cubanos aprovam a nova Constituição. (Foto: Yander Zamora/Anadolu Agency/AFP)

“A Palavra é clara: Deus criou a humanidade à sua própria imagem”, disse Belkis Ros Pascual, 51 anos, parada no Malecón, em Havana, no último domingo, enquanto o bispo Ricardo Pereira e sua mulher, Maritza, se reuniam com mais de cem outros metodistas para renovar seus votos de casamento e declarar apoio à família tradicional. “Deus disse: ‘Sejam férteis e povoem a terra’”, acrescenta Ros Pascual, usando um vestido de casamento e segurando um buquê de flores. Ros Pascual e seu marido vão votar não à nova Constituição, segundo ela.

Em outubro passado, as igrejas Metodista, Batista e Pentecostal organizaram um abaixo-assinado contra o esboço de Constituição que define o casamento como uma união “entre duas pessoas”, e não entre um homem e uma mulher. Eles entregaram 178 mil assinaturas à Assembleia Nacional, um acontecimento inédito em Cuba. Os fiéis colocaram cartazes em portas, postes e ônibus por toda a Ilha.

A campanha enérgica, ecoando a homofobia enraizada na Ilha, superou a campanha oficial pelos direitos LGBT do Centro Nacional para Educação Sexual (Cenesex), liderada por Mariela Castro, filha do ex-presidente Raúl Castro, e uma tímida campanha, principalmente pela internet, de ativistas independentes pelos direitos dos gays.

Leia também: Cubanos aprovam nova Constituição, mas apoio ao regime diminui

Ela pressionou o Estado a recuar de estabelecer na nova Constituição o casamento como um direito de todos, independentemente da sexualidade. Em dezembro, a Assembleia Nacional substituiu a definição “entre duas pessoas” por uma linguagem mais ambígua, dizendo que legislaria sobre o assunto futuramente.

No primeiro grande embate, os pastores levaram a melhor: o casamento gay foi retirado da nova Constituição

“Examinando como eles conseguiram desencaminhar o casamento gay da Constituição, está claro que os evangélicos se tornaram uma grande força política”, disse Javier Corrales, professor de ciência política no Amherst College, em Massachusetts (EUA).

Quase 20% dos latino-americanos hoje se identificam como evangélicos, ante 3% nos anos 1980. Assim como a direita cristã nos Estados Unidos antes, eles estão transformando a política na região, revigorando partidos conservadores e movimentos populistas de direita.

Na Colômbia, em 2016, os evangélicos votaram não sobre um acordo de paz com o grupo guerrilheiro de esquerda Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A campanha do “não” venceu depois que líderes evangélicos argumentaram que a linguagem dos acordos ameaçava a família tradicional.

No Peru, um grupo evangélico chamado “Tirem as Mãos dos Meus Filhos” mobilizou mais de 1 milhão de cidadãos, em 2017, numa marcha contra o ensino da chamada “ideologia de gênero” nas escolas. E no Brasil, no ano passado, quase 70% dos evangélicos votaram para presidente em Jair Bolsonaro.

Leia também: Cuba desiste de incluir casamento gay na nova Constituição

O Departamento de Estado dos EUA faz doações generosas a grupos evangélicos instalados em Cuba

Em Cuba, o Partido Comunista gradualmente retirou os obstáculos à religião desde os anos 1980. A metade dos habitantes hoje se identifica como religiosos, e o cristianismo evangélico surgiu como uma das três principais forças religiosas, juntamente com o catolicismo e a religião afro-cubana, a santería.

“Os pentecostais foram altamente a favor de integrar os ritmos nacionais a seus serviços”, disse Andrew Chesnut, professor de estudos religiosos na Universidade Commonwealth da Virgínia (EUA). “Os ritmos afro-cubanos, que são fortes em percussão, animam os serviços pentecostais. Do mesmo modo, a dança, que é uma parte importante da cultura cubana, foi integrada aos serviços.”

A crise econômica e social em Cuba depois da queda da União Soviética criou terreno fértil para os missionários. “Antes que o bloco socialista desmoronasse, muita gente tinha a revolução como seu deus, mas depois perceberam que Deus é maior que qualquer governo”, disse Pereira, chefe da Igreja Metodista em Cuba.

Bolsos recheados em tempos de dificuldades também foram importantes. Pereira disse que sua igreja recebe cerca de 200 mil dólares por ano de igrejas da Colômbia, Chile, Brasil, México e EUA. E igrejas latino-americanas têm canalizado fundos para os evangélicos cubanos há décadas, pagando pela transformação de milhares de residências em igrejas improvisadas, assim como por equipamento musical e alimentos.

Os “santos” da revolução ganham concorrência. (Foto: Jens Kalaene)

“Vivendo durante o período especial, você se saía melhor se fosse protestante”, disse Hal Klepak, professor de história no Colégio Militar Real do Canadá. “Em qualquer aldeia em Cuba os frequentadores da Igreja Evangélica ganhavam uma refeição depois do serviço. Em tempos ruins, isso é importante.”

O Departamento de Estado dos EUA – que durante muito tempo viu a religião como alavanca política na Ilha – também doa generosamente. A Echo Cuba, instituição beneficente de Miami que “existe para equipar e reforçar as igrejas evangélicas independentes de Cuba”, recebeu mais de 2 milhões de dólares em verbas do governo na última década.

Enquanto a maioria dos evangélicos cubanos, mesmo aqueles que fazem campanha contra o casamento gay, recusa a sugestão de que estão fazendo uma coisa política, há laços firmes com a direita cristã nos EUA e na América Latina. Os pastores cubanos encontram-se regularmente com colegas de outros países norte-americanos para discutir estratégias.

Analistas especulam que, com o tempo, o casamento gay poderá tornar-se uma cunha para uma agenda maior pró-livre-mercado e anti-Estado. “Com a campanha pelo voto no ‘não’, pela primeira vez esse grupo tornou-se visível politicamente”, afirma Ariel Dacal Díaz, analista político marxista. “Mas essa força está crescendo e poderá ser mobilizada em outros projetos.”

 

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Fundado em 1791, é um semanário publicado sempre aos domingos no Reino Unido. Pertence ao mesmo grupo de mídia do reconhecido The Guardian.

Compartilhar postagem