Mundo
Hesitação de Trump e apelo no MAGA tornam o Caso Epstein ainda mais explosivo
Em ano de eleições de meio de mandato, os arquivos sobre o criminoso sexual se juntam a problemas imediatos como o custo de vida e a violência do ICE
As milhões de páginas de documentos sobre o criminoso sexual Jeffrey Epstein continuam a pautar o noticiário político nos Estados Unidos, à medida que novos detalhes sobre o caso emergem em mais um lote de arquivos, divulgado pelo Departamento de Estado na última sexta-feira 30. Analistas políticos tentam entender o impacto imediato e de médio prazo sobre o presidente Donald Trump, que manteve uma amizade com Epstein por mais de uma década, pelo menos até o início dos anos 2000.
Os chamados Epstein Files — Arquivos de Epstein, em português — são o conjunto de informações reunidas desde o início da apuração sobre o abuso de menores de idade. Trata-se do resultado de duas investigações criminais conduzidas entre 2006 e 2009. Nesse mar de informações publicadas, contudo, há também mensagens pessoais, fotos e vídeos.
A rigor, a nova leva de arquivos não altera significativamente a percepção geral, mas mantém sob os holofotes as figuras que não abdicaram de conviver com um notório criminoso sexual, rótulo que acompanhava o financista desde 2008.
A proximidade entre Trump e Epstein há muito não é segredo — já se falava a respeito quando o republicano concorreu pela primeira vez à Casa Branca, em 2016. Idas e vindas do presidente, contudo, lançaram gasolina na fogueira: ele prometeu absoluta transparência na publicação dos arquivos, mas recuou e se viu pressionado pela franja mais radical de seus apoiadores a cumprir o compromisso inicial.
Segundo o New York Times, há no último lote mais de 5,3 mil arquivos contendo mais de 38 mil referências a Trump, à esposa dele, Melania, ao clube Mar-a-Lago, na Flórida, e a outros termos relacionados.
Para Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais do Mackenzie Rio, o assunto é extremamente delicado para Trump, apesar de ele reiterar nunca ter participado de atos criminosos.
“É um jogo de narrativas. Ele tenta se defender, mas pode criar um racha bastante importante na sua base eleitoral”, avalia. Brandão projeta que as eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro, serão um termômetro do impacto deste e de outros imbróglios sobre a popularidade do governo. Estarão em disputa as 435 cadeiras da Câmara e 35 dos 100 assentos do Senado. O presidente buscará manter maioria nas duas Casas, enquanto a oposição tentará explorar as fragilidades de sua administração.
Há uma grande insatisfação nos Estados Unidos com a inflação, que pressiona o custo de vida e inviabiliza uma das grandes promessas de campanha de Trump em 2024. Também pesa repercussão dos atos de violência praticados por agentes federais de imigração como foco de preocupação para o governo. O cenário atual, enfatiza a professora, indica a probabilidade de o presidente perder o comando de pelo menos uma das Casas.
Além dos problemas imediatos que afetam os eleitores no bolso, o fantasma de Epstein continua a pairar sobre a Casa Branca. “Ainda há bastante coisa a ser divulgada, e muito do que foi publicado tinha partes censuradas para proteção das vítimas — mas também não sabemos até que ponto vai essa censura e se ela esconde outras informações relevantes conectadas a figuras públicas, incluindo o próprio Trump”, acrescenta a professora.
O fato de ser uma pauta cara ao MAGA, portanto, torna o caso ainda mais perigoso para o presidente.
Trump é uma das seis figuras de destaque sobre as quais os arquivos do FBI incluem “informações escabrosas”, conforme um e-mail que um integrante da agência enviou a um colega em 2025. Muitas das acusações de agressão sexual vinculadas ao republicano resultam de ligações anônimas e informações ainda não verificadas.
Em um comunicado, o Departamento de Justiça afirmou que alguns documentos contêm alegações “falsas e sensacionalistas” apresentadas pouco antes da eleição de 2020, vencida pelo democrata Joe Biden.
É um modus operandi conhecido no trumpismo: transformar acusações — procedentes ou não — em um complô de adversários indeterminados. “Ele já se previne, tentando ligar isso a um tema sensível como a eleição de 2020, colocando seu envolvimento como se fosse parte de uma conspiração para enfraquecer a sua imagem, para que ele perdesse a disputa”, diz Brandão.
Além de tentar se afastar do furacão, Trump pediu aos norte-americanos nesta terça-feira 3 que virem a página. Tudo não passou, de acordo com ele, de “uma conspiração por parte de Epstein e outras pessoas”. E emendou: “Já está na hora de o país pensar em outra coisa, como a saúde ou algo que importe às pessoas”.
Popularidade em xeque
Os novos capítulos Caso Epstein também devem pressionar a já claudicante popularidade do presidente. Uma pesquisa do jornal The New York Times e da Universidade Siena publicada em 22 de janeiro apontou que apenas 40% dos norte-americanos aprovam o desempenho de Trump, ante 56% que o desaprovam.
De acordo com o levantamento, divulgado logo após a marca de um ano de mandato, 42% dos eleitores consideram que Trump caminha para ser um dos piores presidentes da história do país, enquanto 19% o veem na direção de se tornar um dos melhores.
Mais resultados da sondagem reforçam a fragilidade do governo na avaliação popular: para 49%, o país está em situação pior do que estava há um ano, quando Trump sucedeu a Biden. Outros 32% enxergam os Estados Unidos em uma condição melhor.
Embora não haja, ao menos por ora, novidades a incriminarem Donald Trump nos Epstein Files, a cautela do presidente e sua tentativa de esfriar o caso se justificam pelo potencial explosivo do tema, que já atingiu figuras como o ex-embaixador do Reino Unido em Washington Peter Mandelson — que teve de renunciar à Câmara dos Lordes no Reino Unido.
O ex-presidente dos EUA Bill Clinton e sua esposa, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, prestarão depoimento no fim de fevereiro ao Congresso sobre seus laços com o criminoso sexual. Já o empresário Bill Gates afirmou se arrepender do contato direto com Jeffrey Epstein.
A lista de mencionados nos arquivos ainda tem Andrew Mountbatten-Windsor, Elon Musk e Richard Branson, entre outros. Leia aqui mais detalhes.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Citado em documentos do caso Epstein, Trump diz que é o momento de ‘virar a página’ do escândalo
Por AFP
E-mails do Caso Epstein derrubam lorde britânico casado com um brasileiro
Por CartaCapital
Por que vítimas de Epstein querem bloquear o site com arquivos sobre o escândalo
Por CartaCapital



