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Herói de guerra é preso na Austrália por massacre de afegãos
Ben Roberts-Smith é acusado de ter matado cinco pessoas desarmadas enquanto servia no Afeganistão e pode pegar prisão perpétua. Ele é o veterano mais condecorado do país
O veterano de guerra mais condecorado da Austrália, Ben Roberts-Smith, está sendo acusado de crimes de guerra por supostamente ter matado cinco afegãos desarmados enquanto servia no Afeganistão entre 2009 e 2012, informou a imprensa local nesta terça-feira 7.
Embora as autoridades não tenham confirmado o nome do militar de 47 anos preso nesta terça, a imprensa divulgou que se trata de Roberts-Smith, um ex-cabo do Regimento do Serviço Aéreo Especial que recebeu tanto a Cruz Vitória quanto a Medalha de Bravura pela atuação na Guerra do Afeganistão (2001-2021).
O suspeito foi acusado de cinco crimes de guerra por homicídio. Ele permanecerá sob custódia durante a noite e participará de uma audiência na quarta-feira 8, informou a polícia, em comunicado. O homem poderá solicitar liberdade sob fiança também na quarta.
Prisão perpétua
Na Austrália, homicídio qualificado como crime de guerra prevê, como pena, a prisão perpétua. Trata-se de um crime federal no país, definido como o assassinato intencional, no contexto de um conflito armado, de uma pessoa que não esteja participando ativamente das hostilidades, como civis, prisioneiros de guerra ou soldados feridos.
A polícia prendeu Roberts-Smith no Aeroporto de Sydney, quando ele voltava de Brisbane, informou a comissária da Polícia Federal Australiana, Krissy Barrett.
“Será alegado que as vítimas não estavam participando das hostilidades no momento do suposto assassinato no Afeganistão. Será alegado que as vítimas estavam detidas, desarmadas e sob o controle de membros da ADF [Força de Defesa Australiana, na sigla em inglês] quando foram mortas”, disse Barrett.
“Será alegado que as vítimas foram baleadas pelo acusado ou por membros subordinados da ADF na presença e sob as ordens do acusado”, acrescentou a comissária.
Acusações anteriores
Roberts-Smith conheceu a rainha Elizabeth 2ª, teve seu retrato exposto no Museu Australiano da Guerra e chegou a ser homenageado como o “pai do ano” do país.
Mas a reputação do herói de guerra foi colocada em dúvida em 2018, quando uma série de reportagens o associou ao suposto assassinato de prisioneiros afegãos desarmados por tropas australianas.
O militar teria supostamente chutado um civil afegão desarmado de um penhasco e ordenado que subordinados atirassem nele, segundo reportagens do The Age e do The Sydney Morning Herald.
Relatos também indicaram que ele teria participado do fuzilamento de um homem com uma prótese e que mais tarde a usou como copo para beber com outros soldados.
Por causa das acusações, Roberts-Smith moveu, em 2018, um processo por difamação contra os veículos de imprensa. Em 2023, um juiz federal rejeitou as alegações dele e determinou que ele provavelmente matou quatro não combatentes ilegalmente em 2009 e 2012.
Mas, embora o tribunal civil tenha considerado que as alegações de crimes de guerra foram, em sua maioria, comprovadas com base na balança de probabilidades, as novas acusações teriam de ser comprovadas em um tribunal criminal com um padrão mais elevado, ou seja, além de qualquer dúvida razoável.
As acusações surgiram após a publicação de um relatório militar divulgado em 2020, que encontrou provas de que tropas de elite australianas e do regimento de comando mataram ilegalmente 39 prisioneiros, agricultores e outros não combatentes afegãos.
Cerca de 40 mil militares australianos serviram no Afeganistão entre 2001 e 2021, dos quais 41 foram mortos. Desde então, houve 53 investigações sobre crimes de guerra, das quais 39 foram concluídas sem acusações.
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