Guerra econômica dos EUA e da oposição “asfixia” a Venezuela

País já perdeu 345 bilhões de dólares com sanções, calcula a Rússia. Segundo relator da ONU, oposição esconde comida e remédio

Ruas de Caracas e outras cidades venezuelanas foram palcos de intensos protestos contra Maduro nesta quarta-feira <i>(Crédito: AFP)</i>

Ruas de Caracas e outras cidades venezuelanas foram palcos de intensos protestos contra Maduro nesta quarta-feira (Crédito: AFP)

Mundo

O deputado direitista Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana e autoproclamado presidente de seu país, chegou ao Brasil na noite desta quarta-feira 27 para encontrar Jair Bolsonaro. O brasileiro apoia a derrubada de Nicolás Maduro e sua substituição por Guaidó, razões por trás da recente “ajuda humanitária” arquitetada pelos Estados Unidos.

Faiscante, a situação na Venezuela já foi assunto de duas reuniões do Conselho de Segurança da Nações Unidas, uma em janeiro, outra na terça-feira 26. Nesta, o embaixador russo na ONU, Vassily Nebenzia, disse que as sanções econômicas impostas pelos EUA à Venezuela afetaram a economia do país em 345 bilhões de dólares desde 2013. “Um dado que se silencia”, afirmou.

As sanções comandadas pela Casa Branca começaram em dezembro de 2014, com Barack Obama, o mesmo que reataria relações dos EUA com Cuba, outra vítima de um embargo (histórico) liderado por Washington. Congelamento de bens e restrição de vistos contra certas autoridades venezuelanas.

Donald Trump pesou a mão. Proibiu americanos de negociar títulos públicos e ativos venezuelanos. Bancos locais de emprestar dinheiro ao governo da Venezuela e à PDVSA, petroleira que é a maior fonte de renda daquele país. E a Citgo, filial da PDVSA nos EUA, de mandar grana à matriz.

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Em um dos comunicados sobre as sanções, a Casa Branca de Trump disse: foram “cuidadosamente calibradas para privar o regime do presidente Nicolás Maduro de uma fonte essencial de financiamento”.

O governo venezuelano estima em 30 bilhões de dólares a quantia que o país tem e foi congelada com as sanções. E em 15 bilhões o valor dos ativos da Citgo igualmente congelados.

“Houve má administração (nossa)? Talvez. Nós não somos um governo perfeito. E é muito difícil saber quais decisões tomar quando sua economia está sob agressão, quando há uma guerra econômica contra sua economia”, disse o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, na segunda-feira 25 ao programa Democracy Now, de radio, TV e web nos EUA.

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“Mas eu posso dizer que a principal razão pela qual nossa economia tem lutado é por causa do ataque internacional, e especificamente este bloqueio e sanções dos EUA. (…) Esse bloqueio está sendo traduzido em sofrimento de muitos venezuelanos e isso precisa ser interrompido.”

De 2015 para cá, 3,4 milhões de venezuelanos deixaram o país, segundo dados de 22 de fevereiro da agência da ONU para refugiados, a Acnur, e de uma ONG global sobre migrações, a OIM. É quase 10% da população de 31 milhões. Um terço dos imigrantes foi para a Colômbia. Para o Brasil, 96 mil.

Para contornar o boicote dos bancos e obter comida e remédios, a Venezuela tem buscado ajuda da China, da Rússia, da Turquia e, principalmente, das Nações Unidas. As agências da ONU compram suprimentos, e a Venezuela paga por eles quando (e se) chegam ao país.

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A ONU tem um relator especial para a promoção de uma ordem internacional democrática e justa, o americano Alfred Zayas, e este garante: não há crise humanitária na Venezuela. O que há é uma “guerra econômica asfixiante” da qual o governo Maduro é vítima, não culpado, disse ele a um site italiano em 9 de fevereiro.

Zayas esteve dez dias na Venezuela entre novembro e dezembro de 2017, o primeiro enviado da ONU ao país em 21 anos. Conversou com parlamentares, diplomatas, grupos de oposição, ONGs, empresários, professores universitários, líderes religiosos, estudantes.

Na entrevista recente, ele explicou como funciona a “guerra asfixiante”. De um lado, as sanções impostas pelos EUA e seguidas por Canadá e União Europeia. “O nível de maquiavelismo e cinismo” dos que pregam “ajuda humanitária” enquanto impõe sanções “é de tirar o fôlego”, disse.

De outro, uma “guerra econômica (interna) conduzida pela oposição” a Maduro. “A maior parte da economia ainda está no setor privado e tem havido numerosos casos de estocagem, em que os alimentos e medicamentos não são distribuídos para supermercados e farmácias, mas armazenados e depois liberados no mercado negro”, disse.

“Como escrevi no meu relatório” de agosto de 2018 “as sanções matam”.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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