Mundo

As sanções impostas à Rússia são um claro sinal de novos tempos na política global

Duas semanas depois da invasão, é possível identificar a linha de força da nova ordem em construção, a separação dos mundos

Jogo de cena. Biden quer ver o circo pegar fogo, Putin atropela as regras básicas e o Parlamento europeu transforma Zelensky em herói - Imagem: Saul Loeb/Pool/AFP e Dursun Aydemir/Anadolu Agency/AFP
Jogo de cena. Biden quer ver o circo pegar fogo, Putin atropela as regras básicas e o Parlamento europeu transforma Zelensky em herói - Imagem: Saul Loeb/Pool/AFP e Dursun Aydemir/Anadolu Agency/AFP
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Em 1988, o dirigente soviético Georgi Arbatov afirmou perante uma audiência norte-americana que “lhes iriam fazer uma coisa terrível – vamos privar-vos de um inimigo”. Trinta e quatro anos depois, a agressão da Rússia à Ucrânia devolve o inimigo ao Ocidente e dá-lhe ainda alguém a quem odiar profundamente, o presidente Vladimir ­Putin. A brutal e injustificada invasão constituiu um sério abalo na reputação da Rússia enquanto potência mundial e dá um novo fôlego político à União Europeia e à Otan. A guerra da Ucrânia tem todo o potencial para vir a ser registrada na história como o início de qualquer coisa nova na organização política global.

As interessantes discussões sobre a nova ordem mundial destes últimos anos costumam girar à volta de duas visões alternativas. Para uns deveria assentar num acordo entre as principais potências capaz de impulsionar a cooperação multilateral. Para outros, aquela ordem deveria resultar do estabelecimento de esferas de influência que, uma vez respeitadas, constituiriam a forma mais segura e eficaz de estabelecer a paz no mundo. Como muitas vezes aconteceu no passado, o debate em curso foi, no entanto, subitamente interrompido pela História, que insiste em nos lembrar que as diversas “ordens mundiais” sempre resultaram mais da contingência política e do incidente fortuito do que de doutrinas estratégicas previamente concebidas. Mais ainda: a força dominante por detrás delas foi sempre o medo e o ódio ao inimigo, não o desejo de cooperação na construção de um mundo melhor. O que quero dizer é que, infelizmente, as ordens políticas mais fortes nasceram de forma negativa, nunca foi acerca do que queriam os diferentes países, mas do que não queriam. Nunca foi acerca de cooperação, mas de alianças para fazer frente aos inimigos comuns. Este momento, infelizmente, não é diferente. O que quer que seja que esteja a nascer desta situação de guerra trará consigo a lógica da exclusão baseada no medo e no desprezo do inimigo. Para a escola cínica das relações internacionais, que também se diz realista, nada de novo debaixo dos céus.

Até o esporte, que no passado resistiu à pressão da escolha de lados, resolveu entrar no jogo político

Duas semanas depois da invasão, é possível identificar a linha de força da nova ordem em construção, a separação dos mundos. Dois campos, dois blocos políticos, dois mundos. De um lado, a China e a Rússia compondo o núcleo essencial de um bloco, do outro, os ­Estados Unidos formando com os países do G-7 a vanguarda do grupo ocidental.

As sanções impostas à Rússia são um claro sinal destes tempos: separação dos sistemas financeiros, separação das economias, separação das empresas, separação das viagens aéreas, separação das ofertas culturais. A divisão da internet em duas pode muito bem ser o próximo passo. Os telefones de um lado não funcionarão no outro, as contas de e-mails de um lado não estarão ligadas ao outro, as aplicações eletrônicas de um lado não serão utilizadas no outro. Até o desporto, que no passado sempre resistiu à pressão política da escolha de lados na Guerra Fria, resolveu entrar agora no jogo político de exclusão ao banir a Rússia das competições desportivas globais. Este parece ser o duplo mundo que nos aguarda – dois mundos reais, dois mundos digitais.

Na verdade, esse movimento de exclusão econômica não é novo, mas foi agora fortemente acelerado pela guerra. Há muito que as economias ocidentais colaboram para criar restrições à China na economia global, pela simples razão de lhes ser impossível aceitar que foi ela, a China, a vencer a batalha da globalização – e a vencer com as regras do Ocidente e com as instituições criadas pelo Ocidente. A mais ostensiva operação de exclusão são as restrições impostas à empresa chinesa Huawei, a mais importante fornecedora de tecnologia 5G, no acesso aos mercados de equipamentos de telefonia celular do mundo ocidental. As razões invocadas são de segurança nacional, mas, na verdade, a ameaça de segurança a que se referem resulta do sucesso econômico da China. Nada mal para os defensores do livre-mercado.

Palco. As tropas russas avançam no território ucraniano, enquanto os civis, mais de 2 milhões, fogem em desespero – Imagem: Kostantin Mihalchevsky/Sputnik/AFP e Aris Messinis/AFP

No fundo, é possível vislumbrar no atual discurso ocidental um desejo não confessado de regresso ao mundo da Guerra Fria, que, bem vistas as coisas, alguns consideram agora que talvez não fosse assim tão mau. Nesse mundo, dizem, estávamos a ganhar e ainda nos lembramos dele como um mundo seguro. A consequência desse discurso é óbvia: todo o esforço de globalização política dos últimos anos foi uma perigosa ilusão. A ideia de que poderíamos viver sem inimigos e a ideia de que poderíamos construir uma ordem à escala global baseada nos valores da cooperação e do direito internacional não passaram de uma aventura estouvada que deixou de lado as preocupações de segurança.

Um pouco por todo o mundo, em especial na Europa, o discurso dominante é agora o do medo e da desconfiança. Mais exércitos, mais armas, mais orçamento de defesa. Pela primeira vez, desde 1945, a Alemanha decide armar-se e a Europa aplaude a mudança. Não há dúvida de que a cultura política mudou. Leio um artigo de jornal que classifica esta guerra como o 11 de Setembro europeu. Sinto que vi esse filme e vêm-me ao espírito as palavras de Michael Ignatieff: “O terrorismo (…) tem conduzido a governos mais secretos, mais poderes policiais e a um aumento dos poderes executivos (…) em todos estes aspectos é a resposta ao terrorismo, mais que o terrorismo ele próprio, que tem feito pior à democracia”. É justamente isto que temo. O dever dos democratas é bater-se para acabar com a guerra, não alargá-la.

É possível vislumbrar no atual discurso ocidental um desejo não confessado de regresso ao mundo da Guerra Fria

Durante os quase 30 anos que se seguiram à Guerra Fria, muitos de nós tentaram centrar o debate político internacional na organização da globalização – a economia mundial, o ambiente global, a informação global, as doenças globais. Foi um tempo em que a lógica da política se virou para a abertura política, para o fim das fronteiras econômicas, para o mercado global e para a necessidade­ de construir instituições supranacionais capazes de produzir bens públicos globais. Nas palavras de Bill Clinton, talvez o maior arauto político destes novos tempos, “a globalização não era algo que nós pudéssemos desligar ou ligar. É o equivalente a uma força da natureza, como o vento e a água”. Estas palavras podem parecer hoje ingênuas, mas por detrás delas estava um pensamento: um só mundo, um só planeta, uma agenda de cooperação mundial.

Na altura, ninguém tinha ilusões. A globalização política e econômica não acabaria com o conflito político nem significaria o fim da história. Os debates sobre a globalização e sobre a melhor forma de a regular continuaram ferozes ao longo dos anos. Esses debates tinham como pano de fundo, no entanto, uma visão política cosmopolita que fosse capaz de deixar de lado os fantasmas políticos da terra e do sangue que sempre trouxeram consigo a intolerância, o nacionalismo e a xenofobia. Essas discussões parecem agora postas de lado à medida que são lentamente substituídas pela paranoia do medo e da segurança nacional. Nesta loucura que parece agora varrer o mundo, fazem falta as vozes dos países não alinhados, dos países que defendem a paz, o direito internacional e a resolução pacífica dos conflitos. Nenhum dos grandes problemas mundiais, nem sequer os de segurança, terá solução sem cooperação à escala global. É por essa razão que o lento caminho de dividir o mundo em dois blocos me parece ser tão desesperador. Em face do que vejo, não consigo deixar de pensar que a humanidade é capaz de fazer melhor. •


“PELA NEGOCIAÇÃO OU PELA GUERRA”

Putin reapresenta suas exigências à Ucrânia

Outra rodada. A terceira reunião deu em nada – Imagem: Maxim Guchek/Belta/AFP

Milhares de ucranianos deixaram Irpin, nos arredores da capital Kiev, e o nordeste de Sumy na manhã da terça-feira 8, décimo segundo dia da invasão. Os civis aproveitam o cessar-fogo anunciado pela Rússia após os “pequenos avanços”, na versão de ­Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, obtidos na reunião entre representantes dos dois países. O próximo encontro está marcado para a quinta-feira 10, na Turquia, mediador com maiores credenciais neste momento do que a Bielorrússia aliada de ­Vladimir Putin.

Os russos ofereceram abrir múltiplos corredores humanitários, desde que os refugiados seguissem para o Leste e não em direção ao Ocidente. A proposta, recusada por Zelensky, acabou alterada no fim da tarde: as tropas russas permitiram o deslocamento para áreas mais seguras da própria Ucrânia. Segundo a ONU, o número de deslocados passa de 2 milhões. Michele Bachelet, alta comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas, criticou, por sua vez, a repressão a manifestantes contra a guerra em Moscou e outras cidades. “Continuo preocupada com o uso de legislação repressiva que impede o exercício dos direitos civis e políticos”, declarou a chilena. O número de opositores russos detidos nos últimos dias passa de 13 mil.

Putin reapresentou sua lista de exigências para interromper a incursão militar: rendição da Ucrânia, mudança na Constituição para garantir a “neutralidade” do vizinho, ou seja, a não adesão à Otan ou à União Europeia, e o reconhecimento da Crimeia como território russo, além da independência das “repúblicas” separatistas de ­Donetsk e Lugansk, na conflituosa região de Donbas. Na quarta-feira 9, Zelensky deu sinais de ter recobrado um pouco da racionalidade. Após duas semanas inebriado pela fama de “herói” espalhada pelo Ocidente, o presidente ucraniano indicou a possibilidade de negociar um acordo que cesse o sofrimento dos 40 milhões de compatriotas. O re­conhecimento da Crimeia e a desistência ou ao menos adiamento do “projeto europeu” entraram na pauta das negociações. A Rússia, em contrapartida, estendeu o cessar-fogo. Em conversa telefônica com o colega francês Emmanuel Macron, Putin havia reiterado que alcançaria seus propósitos “pela negociação ou pela guerra”. Macron disse esperar “dias piores”. No campo econômico, o conflito só piorou. Os EUA e a UE ampliaram os embargos e sanções no intuito de sufocar a economia russa e estimular uma revolta popular que desague na derrubada do governo. O Kremlin respondeu com armas semelhantes e ameaça cortar o fornecimento de petróleo, gás, fertilizantes e alimentos. O mundo, mal recuperado da pandemia, está prestes a mergulhar em nova espiral de inflação e recessão.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1199 DE CARTACAPITAL, EM 16 DE MARÇO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Dois mundos”

José Sócrates

José Sócrates
Ex-primeiro ministro de Portugal (2005 a 2011)

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