Fundações alemãs lançam cartilha de feminismo para leigos

Mundo

Por Clarissa Neher

Feminismo é o ódio aos homens”; “a biologia determina como homens e mulheres se comportam”; “quando usam minissaia, as mulheres estão pedindo para receber cantadas” – são argumentos comuns utilizados para descreditar movimentos pela igualdade de gênero.

Quase sempre baseados em preconceitos e formulados sem base factual, esses discursos invadem redes sociais e chegam a circular na própria imprensa. Nos últimos anos, ataques ao movimento feminista, a políticas e estudos de igualdade de gênero cresceram na Alemanha.

Contra esses argumentos, as fundações Heinrich Böll e Rosa Luxemburgo, ligadas aos partidos Verde e A Esquerda, lançaram na Alemanha em meados de julho a cartilha Gender raus – 12 Richtigstellungens zu Antifeminismus und Gender Kritik (Fora, gênero – 12 retificações sobre antifeminismo e críticas de gênero, em tradução livre).

“Em tempos de populismo de direita e de uma esfera pública fundamentalista, o esclarecimento sobre argumentos e simplificações falsas é importante”, afirma Katharina Pühl, da Fundação Rosa Luxemburgo.

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De acordo com a especialista em feminismo, o objetivo da cartilha é oferecer informações claras e simples para que qualquer pessoa possa apresentar argumentos sólidos contra discursos conservadores, antifeministas e racistas em conversas cotidianas.

A diretora da Fundação Heinrich Böll, Barbara Unmüssig, lembrou durante o lançamento da cartilha que a emancipação sexual, a igualdade de direitos, a identidade de gênero, o reconhecimento de toda a orientação sexual e o combate à discriminação são elementos centrais dos direitos humanos.

“Não podemos deixar o antifeminismo e a homofobia sem resposta”, salientou.

Doze frases
A partir das 12 afirmações do discurso antifeminista mais propagadas em países de língua alemã, a cartilha mostra, por meio de uma linguagem simples, as distorções de cada uma delas. A autora do livro, Franziska Schutzbach, conta que o texto foi pensado para servir como um meio de informação para o público leigo.

“Se essas pessoas só tiverem acesso a argumentações antifeministas, há o risco de que essas críticas e hostilidades acabem formando opiniões”, ressalta a especialista em estudos de gênero da Universidade de Basileia.

Por exemplo, ao debater a afirmação “Feminismo é o ódio aos homens”, o texto explica que o feminismo não é o combate aos homens, mas sim a luta por direitos iguais para todos, homens e mulheres, além da busca por uma divisão igualitária de recursos e poder – que ainda são dominados em sua grande maioria por homens.

“Crítica não é ódio”, ressalta o documento, que lembra que também há homens que são prejudicados por não se encaixarem em padrões ditos como masculinos – por exemplo, ser forte ou ter sucesso na carreira. A argumentação finaliza destacando ser possível lutar contra situações nas quais homens sofrem preconceitos sem precisar atacar o feminismo.

Outro capítulo da cartilha discute a frase: “A biologia determina como homens e mulheres se comportam e mostra que eles são diferentes.” O texto afirma que esse argumento surgiu no século 19 para legitimar os papéis do homem e da mulher e justificar hierarquias entre eles e entre pessoas de diferentes origens.

O texto mostra, no entanto, que diversos estudos já revelaram que o comportamento humano e a construção de gênero não são baseados apenas em fatores biológicos, mas também são influenciados pela cultura, educação e socialização.

A cartilha apresenta ainda argumentos contra afirmações antifeministas que apoiam atitudes sexistas, contestam o aborto, defendem a família tradicional, negam as desigualdades entre homens e mulheres, criticam estudos de gênero e propagam a xenofobia.

Segundo a autora da cartilha, grande parte destes argumentos e desculpas funciona no mundo inteiro: “Há uma continuidade histórica nesta argumentação, com diferentes focos, mas determinados argumentos antifeministas se repetem desde o surgimento do feminismo.”

Atualmente, as fundações não têm planos para traduzir a cartilha em outras línguas. Pühl não descarta a tradução, mas salienta que o texto precisaria de algumas modificações para se encaixar na realidade de outros países.

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