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Fim de tratado Novo START entre EUA e Rússia traz temores de nova era de proliferação nuclear

A comunidade internacional pressiona os dois países para que retomem as negociações para um novo acordo

Fim de tratado Novo START entre EUA e Rússia traz temores de nova era de proliferação nuclear
Fim de tratado Novo START entre EUA e Rússia traz temores de nova era de proliferação nuclear
Putin e Trump estão em um impasse sobre uma possível trégua na guerra com a Ucrânia. Fotos: Maxim Shemetov / POOL / AFP e Mandel NGAN / AFP
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O mundo entrou em uma nova fase de incerteza nuclear nesta quinta-feira 5, com a expiração oficial do tratado Novo START. Este era o último acordo de desarmamento nuclear ainda em vigor entre os Estados Unidos e a Rússia, marcando um ponto de virada histórico no controle de armas desde a Guerra Fria e gerando temores de uma nova fase de proliferação.

Pela primeira vez em mais de meio século, as duas potências que detêm mais de 80% das ogivas nucleares do planeta não possuem limites vinculantes para seus arsenais estratégicos.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, descreveu o fim do pacto como um “momento grave para a paz e a segurança internacionais”, alertando que a dissolução ocorre em um período muito delicado.

“Essa dissolução de décadas de conquistas não poderia ocorrer em pior momento — o risco do uso de armas nucleares está em seu nível mais alto em décadas”, alertou António Guterres em um comunicado.

Guterres fez um apelo para que Washington e Moscou retornem à mesa de negociações sem demora para estabelecer um novo quadro sucessor que garanta a estabilidade global.

Firmado originalmente em 2010, o Novo START impunha limites rigorosos de 1.550 ogivas estratégicas implantadas e 800 lançadores e bombardeiros pesados para cada lado, contando com mecanismos de verificação mútua. No entanto, a eficácia do tratado já estava severamente comprometida desde 2023, quando as inspeções foram suspensas em decorrência da ofensiva russa em grande escala na Ucrânia.

Em setembro de 2025, o presidente russo, Vladimir Putin, chegou a propor uma prorrogação de um ano, que foi vista como uma boa ideia pelo presidente americano, Donald Trump, na época, mas os Estados Unidos acabaram por não dar seguimento à proposta.

Na quarta-feira, véspera da expiração, o governo russo declarou formalmente que não se sentia mais vinculado a qualquer obrigação ou declaração recíproca prevista no tratado. Apesar disso, em conversa com o líder chinês Xi Jinping, Putin enfatizou que a Rússia agirá de maneira ponderada e responsável diante da nova situação. O assessor diplomático russo, Yuri Ushakov, afirmou que o país permanece aberto a buscar vias de negociação para assegurar a estabilidade estratégica.

Inclusão da China

Do lado americano, o secretário de Estado, Marco Rubio, indicou que qualquer novo acordo de controle de armas no século XXI deve obrigatoriamente incluir a China. Segundo Rubio, o arsenal considerável e em rápida expansão de Pequim torna impossível um controle eficaz que envolva apenas russos e americanos.

A comunidade internacional reagiu com forte preocupação ao vácuo jurídico deixado pelo fim do tratado. O papa Leão XIV fez um apelo raro e urgente para que as potências não abandonem os instrumentos de controle sem garantir um acompanhamento efetivo, exortando os líderes a substituírem a lógica do medo e da desconfiança por uma ética compartilhada para evitar uma nova corrida armamentista.

Na Europa, a França atribuiu a responsabilidade pelo retrocesso das normas internacionais à Rússia, alertando para o desaparecimento de qualquer limite sobre os maiores arsenais nucleares do mundo. Enquanto isso, a coalizão de ONGs ICAN pediu que Washington e Moscou respeitem os limites do tratado expirado enquanto negociam um novo quadro regulatório.

Com agências

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