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Expansão brasileira é considerada imperialista por alguns vizinhos

Em sua trajetória de ascensão no cenário internacional, país encontra-se sob ameaça de desenvolver uma imagem neocolonialista em países da América Latina e África

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No início, os uruguaios ainda gostavam da cerveja brasileira. As filiais do Banco Itaú na capital Montevidéu tampouco eram um problema. Porém, em 2006, quando as firmas brasileiras passaram a comprar os armazéns frigoríficos do país, muitos ficaram desconfiados. De uma hora para outra o grosso dos negócios com a carne bovina, campeã de exportações do país, encontrava-se em mãos brasileiras.

Frigoríficos no Uruguai, plantações de soja no Paraguai, usinas hidrelétricas no Peru: as empresas do Brasil conquistam a América do Sul. E com cifras de impor respeito. Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores, o total das exportações nacionais para o restante da América Latina e o Caribe saltou de 11,5 bilhões para 57 bilhões de dólares, entre 2002 e 2011. Isso situa a região como segundo mais importante mercado para o comércio externo brasileiro, depois da Ásia.

Admiração e rejeição


Porém os demais latino-americanos observam com ceticismo a ascensão econômica do país. “Em muitos aspectos, os países veem o Brasil com um olhar semelhante ao que a América do Sul tinha sobre os Estados Unidos”, expõe Oliver Stünkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas, em entrevista à DW Brasil. “É uma mistura de admiração e rejeição.”

O clima político é especialmente tenso no Paraguai. A atitude brasileira após a posse do então presidente Fernando Lugo, em junho de 2012, ainda é encarada como uma intervenção descabida. “Quando o Brasil pressionou para que o Paraguai fosse suspenso do mercado comum Mercosul, voltou a aflorar o sentimento de que o país se comporta como uma potência colonial”, explica Stünkel.

O ex-ministro brasileiro do Exterior Luiz Felipe Lampreia também classifica como uma gafe diplomática o comportamento de seu governo na época. “Essa decisão política despertou um grande mal-estar no Paraguai”, admitiu em entrevista à DW.

No entanto, o diplomata considera absurda a acusação de que o Brasil estaria se comportando de forma colonialista. “Os brasileiros pagam impostos, exportam mercadorias e criam postos de trabalho, tanto no Paraguai como no Uruguai ou na Bolívia”, contra-argumenta Lampreia.

África, o alvo preferencial

Quer como amigo, quer como inimigo, a expansão econômica e política do Brasil segue a passos largos. A mineradora Vale S.A. pretende investir no exterior, até 2014, um total de 9,6 bilhões de dólares, em especial em países africanos como Moçambique, Angola e Zâmbia. Com 17 mil funcionários, a multinacional Odebrecht é a maior empregadora privada de Angola. E a semiestatal Petrobras explora petróleo em Angola e na Nigéria.

A expansão brasileira no continente africano é fruto de uma intenção política. Lá, o gigante sul-americano está representado com, no mínimo, 37 embaixadas. E, ao oferecer créditos acessíveis, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também ajuda a financiar grandes projetos domésticos.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou os países ao sul do Saara mais de uma dezena de vezes durante seus dois mandatos, de 2003 a 2011. Também sua sucessora Dilma Rousseff segue apostando na cooperação sul-sul. Com resultados palpáveis: de 2000 até agora, o volume anual de negócios Brasil-África cresceu de 4,2 bilhões para mais de 20 bilhões de dólares.

Mais uma nação imperialista?


Entretanto também na África lusófona a expansão brasileira gera tensões. Em julho de 2010, manifestantes enfurecidos invadiram a mina de ferro da Vale S.A. na Guiné, por violações dos direitos dos trabalhadores. Também em Moçambique, no leste africano, pequenos agricultores protestaram no último ano contra a empresa mineradora, por desalojá-los, a fim de dar lugar à exploração de carvão mineral em Moatize.

“Em Moçambique, a relação da Vale com a população local é tão ruim que, para muitos, a atual imagem do Brasil é pior do que a de Portugal da época colonial”, escreveu Carlos Tautz para O Globo. Se o governo não lembrar as firmas brasileiras do respeito às normas internacionais, no futuro o Brasil será percebido “como mais uma nação imperialista”, advertiu o jornalista.

O professor Oliver Stünkel, contudo, não partilha essa opinião. “A reputação do Brasil na África é muito boa. Para o país, ainda se desenrola o tapete vermelho”, afirma o perito econômico.

CartaCapital

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