EUA anuncia reunião presencial com talebans após atentado no Afeganistão

Os Estados Unidos mantiveram contato com os talebans desde que estes se apoderaram de Cabul em agosto

Um membro do taleban
Foto: BULENT KILIC/AFP

Um membro do taleban Foto: BULENT KILIC/AFP

Mundo

Os Estados Unidos e os talebans terão neste sábado o primeiro diálogo presencial desde a retirada americana do Afeganistão, onde um atentado suicida realizado pelo Estado Islâmico deixou 55 mortos em uma mesquita de Kunduz.

Uma delegação dos Estados Unidos se reunirá neste sábado e domingo em Doha, capital do Catar, com representantes do movimento islamita, informou um porta-voz do Departamento de Estado.

Os Estados Unidos mantiveram contato com os talebans desde que estes se apoderaram de Cabul em agosto, quando as tropas americanas se retiraram, mas esta reunião será a primeira celebrada frente a frente desde então.

“Vamos pressionar os talebans para que respeitem os direitos de todos os afegãos, inclusive as mulheres e meninas, e para que formem um governo inclusivo com um apoio amplo”, informou o porta-voz do Departamento de Estado.

“Enquanto o Afeganistão enfrenta a perspectiva de uma severa contração econômica e uma possível crise humanitária, também vamos pressionar os talebans a que permitam às agências humanitárias o livre acesso às áreas necessitadas”, acrescentou.

O Departamento de Estado enfatizou que a reunião não indica que os Estados Unidos estejam reconhecendo o governo taleban no Afeganistão. “Temos claro que qualquer legitimidade deve ser conquistada através das próprias ações dos talebans”, advertiu o porta-voz.

Atentado durante oração

A iniciativa foi anunciada horas após um atentado realizado durante a oração do meio-dia em uma mesquita xiita de Kunduz, e que deixou 55 vítimas.

O EI, que realizou um ataque a outra mesquita de Cabul no último domingo – com cinco mortos – assumiu a responsabilidade pelo atentado em um de seus canais do Telegram.

Segundo a organização extremista islâmica, o suicida era chamado “Mohammed, o uigur”, o que implica que ele fazia parte desta minoria muçulmana chinesa. Alguns de seus membros se uniram ao EI.

Segundo informações preliminares, a explosão foi obra de um suicida, informou a AFP Matiullah Rohani, autoridade regional talibã encarregada da Cultura e Informação.

Esse foi o ataque mais sangrento no Afeganistão desde a retirada das tropas americanas do país, em 30 de agosto.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou “nos termos mais enérgicos” o ataque, “o terceiro contra um edifício religioso em menos de uma semana”.

“Até agora recebemos 35 corpos e mais de 50 feridos”, disse à AFP um médico do Hospital Central de Kunduz, que pediu para não ser identificado.

A clínica local do Médicos sem Fronteiras anunciou haver lidado com 20 mortos e 90 feridos.

Uma testemunha que se encontrava na mesquita e que forneceu apenas seu primeiro nome, Rahmatullah, afirmou que “havia 300 ou 400 pessoas dentro, não havia mais lugar. Estávamos no átrio de entrada quando de repente aconteceu a explosão”.

O ataque ocorreu durante a oração do meio-dia, a mais movimentada de sexta-feira, dia do descanso muçulmano. Testemunhas descreveram cenas atrozes.

“Eu vi pelo menos 40 cadáveres”, contou um comerciante local, Zalmai Alokzai, que imediatamente foi ao hospital para doar sangue para as vítimas.

“As ambulâncias iam e vinham sem parar para transportar os corpos”, explicou.

Em declarações a jornalistas locais, Dost Muhammad, chefe dos serviços de segurança dos talibãs em Kunduz, afirmou que “quem cometeu este ato quer semear discórdia entre sunitas e xiitas”.

“Asseguramos a nossos irmãos xiitas que garantiremos sua segurança e que estes ataques não vão se repetir, acrescentou.

Arqui-inimigos

Desde que os talebans tomaram o poder no Afeganistão, em meados de agosto, o braço local do EI, o EI-K (Estado Islâmico do Khorasan), multiplicou seus ataques.

Em várias ocasiões teve como alvo combatentes talebans na província de Nangharar (leste), onde o grupo jihadista tem estado muito presente desde a sua criação, em 2015.

Para os talebans, que controlam o conjunto do Afeganistão, a principal ameaça vem do EI-K, que contaria entre 500 e vários milhares de combatentes em território afegão, segundo as Nações Unidas.

Apesar de ambos serem sunitas radicais, EI e Taleban são inimigos declarados.

O EI-K também reivindicou o atentado cometido em 26 de agosto nas imediações do aeroporto de Cabul, que deixou mais de uma centena de mortos, inclusive 13 soldados americanos.

O ataque desta sexta-feira se soma a vários atentados do EI-K, que reivindicou alguns dos ataques mais sangrentos realizados nos últimos anos no Afeganistão e no Paquistão. Sobretudo, atentados suicidas em mesquitas, hospitais e outros locais públicos.

Uma professora de Kunduz contou à AFP que a explosão ocorreu perto de sua casa. “Foi assustador. Alguns vizinhos morreram, ou ficaram feridos. Um vizinho de 16 anos faleceu, só conseguimos encontrar metade de seu corpo”, disse uma professora que mora perto da mesquita.

O EI-K tem como alvo os muçulmanos que considera hereges, como os xiitas do grupo étnico hazara, que representa entre 10% e 20% da população afegã (cerca de 40 milhões de habitantes).

“A principal mensagem dos talebans à população desde 15 de agosto é que restauraram a segurança pondo fim à guerra. No entanto, um atentado como este em Kunduz põe isso em dúvida em grande medida”, disse Michael Kugelman, especialista em sudeste asiático no Woodrow Wilson International Center for Scholars.

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