Mundo
Estaca zero
A resistência do regime obriga Trump a voltar à mesa de negociações
Os Estados Unidos enviaram ao Irã, na terça-feira 24, uma lista de exigências para pôr fim aos ataques iniciados em 28 de fevereiro. O documento, entregue a mediadores do Paquistão, coloca sobre a mesa exatamente as mesmas questões negociadas entre iranianos e norte-americanos em Genebra, na Suíça, antes do início do conflito, com um item a mais, a desobstrução do Estreito de Ormuz.
Foi exatamente o estrangulamento desse canal marítimo vital para o comércio mundial de petróleo que levou Donald Trump a trocar os bombardeios pela proposta de negociação. Por Ormuz passa 20% de todo o petróleo comercializado no mundo. O republicano, que duvidou da capacidade iraniana de estrangular o estreito, agora colhe como consequência um barril de petróleo Brent a quase 120 dólares, o que faz disparar o preço do combustível nos Estados Unidos, mexendo com o humor do eleitor a nove meses das eleições de meio de mandato. Cada dia a mais de guerra no Oriente Médio é um dia a menos até a disputa eleitoral na qual os democratas têm a chance de conquistar a maioria dos assentos na Câmara, em novembro, colocando sob risco a hegemonia republicana que vem dando rédeas soltas ao presidente dos Estados Unidos neste segundo mandato.
A rigor, os termos da negociação que Trump tenta entabular agora com o Irã não são diferentes daqueles que havia antes do início do conflito, no fim de fevereiro. A mudança, além do fechamento do Estreito, é que o país persa demonstrou capacidade de provocar danos não apenas às bases norte-americanas instaladas nos países do Golfo Pérsico, como também deu mostras de que consegue sobrepujar as defesas israelenses, atingindo a capital, Tel-Aviv, além de Jerusalém e da cidade de Dimona, sede do programa atômico que Israel diz não ter. Tudo isso colocou os iranianos em uma posição mais forte na comparação com as condições que havia antes do início da guerra, mesmo tendo sofrido pesados bombardeios, que decapitaram figuras vitais para o regime e destruíram boa parte de suas defesas.
Para os Estados Unidos, os termos da negociação não são apenas os mesmos de fevereiro, como também representam um retrocesso em relação ao que se tinha conseguido em 2015, quando o então presidente Barack Obama havia logrado um arranjo pelo qual o Irã receberia urânio enriquecido no exterior, afastando, assim, o risco de o país enriquecer o próprio material radioativo em porcentuais que permitissem o uso militar. Em 2018, Trump jogou por terra esse dispositivo diplomático, optando pelo uso da força. Em 2025, bombardeou instalações nucleares iranianas, e saiu dizendo que o programa atômico do país tinha sido completamente obliterado. Mas, no ano seguinte, voltou à carga, com o argumento de que precisava refazer o serviço. O resultado, agora, é a volta à mesa de negociações para tentar recuperar tudo que os Estados Unidos perderam nessa história desde que Trump derrubou o acordo ao qual Obama tinha chegado por meios pacíficos há mais de dez anos.
Washington tem menos trunfos neste momento
As condições se deterioraram tanto para os Estados Unidos no último mês que Trump chegou a levantar parte das sanções e embargos impostos como forma de castigar o país persa por seu programa nuclear. Por força dessas sanções, o Irã estava proibido de exportar petróleo para a maior parte do mundo. Só que a perturbação no mercado mundial de óleo, provocada pela guerra iniciada pelos Estados Unidos e por Israel, foi tão grande que Trump viu-se forçado a levantar as sanções não apenas para o Irã, mas também para a Rússia, que estava igualmente castigada por essas medidas severas de restrição econômica desde o início da invasão na Ucrânia, há quatro anos.
Levantar as sanções foi o meio encontrado para colocar mais petróleo em circulação no mercado, na esperança de segurar a alta no preço do produto. A medida não é aplicável às reservas do Irã, apenas aos produtos embarcados. Além disso, os Estados Unidos dizem ter como congelar ou se apropriar do valor das vendas antes que os iranianos tenham acesso, mas analistas ouvidos pela própria imprensa norte-americana são céticos a respeito. A China, por exemplo, tem no Irã o país provedor de 13% de todo petróleo que importa, e não há obstrução às transações comerciais entre os dois países. Além disso, o Estreito de Ormuz está fechado apenas para navios de países considerados inimigos por Teerã, o que não se aplica aos chineses.
Tanto o relaxamento das sanções quanto a proposta para voltar à mesa de negociações não são apresentadas em Washington como recuos, mas como resultados do avanço dos Estados Unidos, que agora estariam em posição mais forte para impor ao Irã as mesmas condições que não vinham sendo aceitas antes do início da guerra. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, resumiu bem a questão ao dizer: “Nós negociamos com bombas”. Ou seja, na lógica de Trump, o uso ilegal da força é só mais uma estratégia de negociação, não um último recurso em defesa própria, como determina a Carta da ONU.
Os termos da dupla Hegseth e Trump não parecem ter agradado, no entanto, ao seu principal parceiro no Oriente Médio. Israel manteve os bombardeios contra o Irã e também foi alvo de ataques, enquanto a Casa Branca falava em voltar à mesa de negociações. Trump disse que pretende esperar cinco dias por uma resposta iraniana, mas o tempo corre mais rápido que isso para Benjamin Netanyahu, que não quer perder o que considera um bom momento, representado por vitórias contra o Hamas em Gaza e o Hezbollah no sul do Líbano, onde forças terrestres israelenses começam a passar da mera incursão para uma estratégia de ocupação da parte disputada há anos, ao sul do Rio Litani. •
Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Estaca zero’
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