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Espiral infinita

A guerra se alastra pelo Golfo Pérsico e engole o comércio mundial de petróleo e as pretensões eleitorais de Trump

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Escalada. Os Estados Unidos retomaram bombardeios ao Irã, que, por sua vez, ataca alvos norte-americanos em quase todos os países da vizinhança – Imagem: Elke Scholiers/Getty Images/AFP e Atta Kenare/AFP
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Há pouco menos de um mês, a promessa de Donald Trump era de encerrar a guerra no Irã. Mesmo sem nunca ter atingido os objetivos iniciais declarados, de derrubar o regime e capturar o urânio iraniano, o presidente norte-americano se mostrava não apenas disposto, mas ansioso para dar fim a um conflito que, a cada dia, se tornava mais e mais sem sentido. Confrontado pela dura realidade da queda da popularidade e do aumento do preço da gasolina, provocado pelo estrangulamento de um dos principais pontos de escoamento da produção mundial de petróleo, Trump inventou a história de que seus inimigos tinham aceitado os termos de um memorando de acordo de paz. Com isso, acreditou ter encontrado um atalho para escapar do enrosco violento no qual ele mesmo se metera em 28 de fevereiro. Só que as partes não falaram a mesma língua durante as rodadas de negociação na Suíça e no Paquistão. Resultado: pouco tempo depois, o memorando promovido por Trump virou letra morta e a guerra foi retomada, desta vez com maior amplitude.

Desde a volta do conflito, em 7 de julho, todos os países da região do Golfo Pérsico que abrigam bases dos Estados Unidos foram bombardeados pelo Irã. As ações provocaram a morte de ao menos 17 militares norte-americanos no intervalo de apenas 14 dias. As baixas mais recentes ocorreram na Jordânia (que não fica no Golfo), com dois soldados mortos, e no Iraque, com um. A capacidade iraniana de impingir danos aos Estados Unidos não pode ser negada, diante da evidência inquestionável dos caixões enviados de volta para casa cobertos pela bandeira norte-americana.

Até a retomada dessa nova rodada de agressões, o discurso da Casa Branca e do Departamento de Estado norte-americano insistia na tese de que as capacidades militares iranianas tinham sido severamente afetadas, com a anulação quase completa de sua força naval. O que se vê agora, no entanto, são ações explosivas dirigidas contra navios civis que tentam cruzar o gargalo do Estreito de Ormuz­, na costa sudoeste do Irã. Essas ações demonstram que a Guarda Revolucionária, fiel ao regime, não apenas mantém boa parte da capacidade naval, como também tem a disposição e a habilidade de realizar ações que mantenham estrangulada uma das principais passagens internacionais da maior parte do petróleo comercializado pelo Oriente Médio no mundo. Para piorar o cenário, do ponto de vista norte-americano, os rebeldes houthis, do Iêmen, ameaçam disparar contra petroleiros sauditas que tentem passar por um outro ponto nevrálgico do comércio mundial de óleo bruto e derivados, o Estreito de Bab al-Mandab, no Mar Vermelho. Se esse duplo bloqueio, em Ormuz e Bab al-Mandab, for concretizado de fato, a Arábia Saudita, segunda produtora mundial de petróleo, ficará ilhada, com a produção estancada, pois as saídas a leste e a oeste de seu território estarão bloqueadas. Até a penúltima semana de julho, ao menos dois petroleiros deram meia volta em Bab al-Mandab, de acordo com jornais europeus, temendo ataques dos houthis.

Após uma trégua frágil, o conflito voltou mais intenso

A abertura do novo front, no Iêmen, mistura elementos locais com interesses internacionais mais amplos, exemplificando como a guerra entre o Irã e os Estados Unidos destampou uma Caixa de Pandora em toda a região. Do ponto de vista doméstico, os houthis buscam há anos derrubar o governo central iemenita, respaldado militarmente pela Arábia Saudita. Em 2007, eles tomaram o controle da capital, Sana, e, desde então, executam ações militares em toda a zona. As ações violentas correspondem tanto a seus próprios interesses quanto à agenda do Irã, de quem recebem armas, munições e informações. Em 13 de julho, os houthis acusaram os sauditas de terem bombardeado o aeroporto de Sana, para evitar o pouso de um avião iraniano. A dinâmica de proxies – ou, em linguagem mais simples, dos pequenos paus-mandados de países mais poderosos – marca não apenas a situação no Iêmen, mas a dinâmica instalada entre Israel e o grupo armado xiita libanês Hezbollah, no sul do Líbano, grupo que, muito embora tenha sua agenda própria, reflete interesses mais amplos do Irã no conflito com Israel.

Esse emaranhado de agendas cruzadas torna cada vez mais difícil levar a cabo um acordo de paz, à medida que o Irã condiciona o fim das ações ao encerramento das hostilidades de Israel contra o sul do Líbano. Trump, nos Estados Unidos, e Benjamin Netanyahu, em Israel, são premidos por uma agenda eleitoral que avança sem se deter. Ambos precisam de votos, e a guerra pesa para o eleitorado local. Os norte-americanos vão às urnas em novembro para renovar parte do Congresso, onde uma possível nova maioria democrata pode abreviar o segundo mandato do republicano. Já em Israel, as eleições parlamentares são um pouco antes, em outubro. A guerra tem sido fator de amálgama da sociedade israelense em torno de um líder que é ao mesmo tempo longevo e contestado, contra o qual pesa até mesmo o risco de prisão por processos internos, ligados à corrupção. Nos EUA, quanto mais a guerra no Oriente Médio se arrasta, maior a chance de os eleitores castigarem Trump, que havia prometido tirar o país de conflitos “distantes e inúteis”.

No Irã, a cena é diferente. Os políticos leigos e civis considerados moderados, como o atual presidente, Masoud ­Pezeshkian, perderam protagonismo em favor dos clérigos xiitas e dos comandantes da Guarda Revolucionária. Com isso, qualquer perspectiva de transição negociada, de abertura e de troca de urânio por relaxamentos políticos foi deixada de lado em favor de uma abordagem mais coe­sa e militarizada, capitaneada por uma linha-dura do regime que percebe a aproximação de uma ameaça existencial.

Diante do impasse, os dois lados cantam vantagem. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, diz que “a hora certa de negociar é precisamente quando você conseguiu ganhos significativos no campo de batalha”. Do lado contrário, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, declara que “é preciso que o comportamento deles (iranianos) mude para que o nosso (norte-americano) possa mudar”. Ninguém parece ter condição de sobrepujar absolutamente o lado oposto neste momento, e a saída negociada depende de uma distensão que, até o fim de julho, não parece existir. •

Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Espiral infinita’

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