Economia

Entenda o ‘calote’ da Rússia e suas possíveis implicações geopolíticas

A rigor, a Rússia tem o dinheiro e a disposição de realizar o pagamento da dívida, mas não consegue fazê-lo em função da sua exclusão do sistema financeiro internacional

Bandeira russa tremula no Kremlin.

Foto: Alexander NEMENOV / AFP
Bandeira russa tremula no Kremlin. Foto: Alexander NEMENOV / AFP
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Diversos veículos de comunicação, nacionais e internacionais, publicaram na manhã desta segunda-feira 27, notícias que falam sobre o “calote” da Rússia em alguns títulos internacionais. Isto significa que quem havia investido nessa dívida não recebeu os pagamentos que deveriam ter sido pagos até a data limite. Em praticamente todos os casos, há referência ao último “grande calote” (default), realizado em 1918 durante a Revolução Bolchevique.

Entretanto, a situação é bem mais complexa do que parece. A rigor, a Rússia tem o dinheiro e a disposição de realizar o pagamento da dívida, mas não consegue fazê-lo em função da sua exclusão do sistema financeiro internacional após a invasão da Ucrânia. Visto que está impedida de operar pagamentos em dólares ou euros, e que em muitos casos o pagamento em moeda russa (rublo) não é aceito, representantes do governo russo falam em “calote artificial”.

A situação é inédita e ilustra de forma bem interessante uma nova configuração das relações geopolíticas globais. Embora a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) não esteja envolvida diretamente no conflito militar entre Rússia-Ucrânia, as amplas sanções econômicas e diplomáticas, incluindo a exclusão do sistema financeiro global, mostram seu comprometimento com a defesa da hegemonia econômica dos Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido e Japão, assim como suas alianças.

Dito de outra maneira, é uma guerra na qual a OTAN luta, até o momento, sem presença militar oficial, limitando-se a auxiliar como pode a Ucrânia, que há alguns dias recebeu status oficial de candidata a integrante da União Europeia. A Rússia, por sua vez, vem se apoiando no estreitamento ainda maior das relações com países como a China e a Índia, que junto com Brasil e África do Sul formam o bloco dos BRICS – principais economias emergentes da atualidade.

Em termos econômicos globais, esse conflito se desenha sobre um panorama de grande fragilidade: inflação em alta nas principais potências econômicas, vários problemas de distribuição nas cadeias globais de suprimentos, riscos de recessão global, juros em alta, instabilidade política e, claro, as próprias restrições derivadas do conflito militar entre Rússia e Ucrânia.

Todos esses fatores, e outros tantos mais, fazem com que as perspectivas econômicas globais sejam bastante amplas, além de diversas. Isso é um problema para quem investe, porque quanto maior o grau de incerteza no mercado como um todo, menor a disposição ao risco, o que tende a levar a um crescimento mais lento dos rendimentos da renda variável. Um eventual aprofundamento das tensões, especialmente entre China-Rússia e EUA-União Europeia, tenderia a enfraquecer ou mesmo impossibilitar o crescimento global no curto prazo.

A razão disso é que, numa economia profundamente globalizada e integrada, conflitos entre países ou blocos econômicos tendem a afetar toda a cadeia de consumo e produção de bens ou serviços. Um exemplo é a Apple, empresa mais valiosa do planeta, que fabrica a esmagadora maioria de seus produtos na China, um país comunista, que exporta os produtos de volta para os EUA, baluarte do capitalismo.

Nessa medida, quem está lendo pode questionar qual é o caminho correto a se seguir para investir de forma segura e responsável. Pois bem, nesse ponto preciso lembrar que a incerteza é um dos princípios básicos da finança e que não há como prever o futuro, o que nos obriga a adotar uma solução extremamente simples para um problema extremamente complexo.

Uma vez que você conheça o grau de risco que gostaria de correr, em termos de variação no rendimento a curto, médio e longo prazo, você simplesmente deveria buscar investir da forma mais diversificada possível nos mercados ao qual tem exposição. Isso pode ser feito usando fundos ou ETFs de baixo custo que repliquem índices de renda fixa nacionais e, para a renda variável, usando ativos que representem o mercado acionário global e local.

A razão para isso é que, como não temos ideia do que vai acontecer no futuro, muito menos quais empresas ou setores vão se dar melhor, buscamos capturar o retorno médio do mercado inteiro. Segundo dados estatísticos, empíricos, históricos, e em concordância com a comunidade científica internacional, essa é a melhor forma de se investir porque te protege de todos os riscos que não afetam o sistema como um todo.

Especialmente no caso da renda variável global, isso tende a te proteger de momentos extensos de instabilidade e baixo crescimento no longo prazo. Um exemplo clássico é o índice S&P 500, que reúne as 500 maiores empresas dos EUA e sobreviveu às duas guerras mundiais, além de dezenas de crises tanto no seu país de origem quanto no restante do mundo. Não é o ideal, mas é um caminho simples e acessível para a maioria das pessoas.

 

André Salmeron

André Salmeron
Consultor de valores mobiliários autorizado pela CVM e de analista CNPI. Busca divulgar uma visão científica e humanizada das finanças pessoais

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