Eleições ao Parlamento Europeu confirmarão (ou não) o clima antipolítico

A eleição de um comediante à presidência da Ucrânia intimida o continente

 (Foto: Dursun Aydemir / Anadolu Agency)

(Foto: Dursun Aydemir / Anadolu Agency)

Mundo

A eleição de um comediante para a Presidência da Ucrânia não foi vista como uma brincadeira por estudiosos sérios da política do continente, temerosos do resultado do sufrágio para o Parlamento da União Europeia no próximo mês.

A vitória de Volodymyr Zelenskiy, um novato que derrotou com folga o atual presidente ucraniano Petro Poroshenko, é o triunfo máximo do clima de antipolítica e antiestablishment dominante na Europa.

Insurreições democráticas desse tipo, que confundem o senso comum, não são raras como poderiam parecer – embora a Ucrânia seja um caso extremo. Os Estados Unidos experimentaram espasmos periódicos de raiva trumpiana contra a política habitual e geraram campanhas ruidosas para “jogar fora os mendigos”. Em 1992, um desconhecido plausível do Arkansas, Bill Clinton, foi o beneficiário direto da revolta insurgente de Ross Perot contra o então presidente, George H.W. Bush.

Na Europa, o Movimento 5 Estrelas, fundado em 2009 por outro comediante, Beppe Grillo, surgiu do nada para invadir o establishment político italiano, conquistando o poder no ano passado (embora ao lado da Liga, de extrema-direita). Grécia, Espanha e outros países europeus tiveram rebeliões semelhantes recentes quando o sistema bipartidário tradicional de esquerda-direita se fraturou sob o peso da insatisfação popular e de campanhas não ideológicas, impelidas por temas. Embora a Grã-Bretanha sempre afirme ser diferente, a votação no Brexit em 2016 refletiu essa tendência.

Enquanto a eleição europeia se aproxima, uma ambiciosa nova pesquisa com 46 mil eleitores em 14 países (que não incluem a Grã-Bretanha), realizada pelo Conselho Europeu sobre Relações Internacionais (ECFR em inglês) e o YouGov, confirma que os sentimentos generalizados de alienação e desconfiança das classes políticas estão mais altos do que nunca. Em consequência, sugere a pesquisa, a Europa experimenta níveis vermelhos de volatilidade eleitoral, um poderoso desejo comum de mudança e uma desconfiança de que ela será feita. Tudo está em jogo.

As previsões de que menos da metade dos eleitores europeus realmente votarão em maio não são raras. O comparecimento a cada cinco anos tem diminuído constantemente desde 1979.

Volodymyr Zelenskiy  (Foto: Serg Glovny/Zuma/Wiere/Fotoarena)

Em 2014, foi de 43%. Mas, segundo a pesquisa Eurobarômetro do ano passado, aproximadamente dois terços dos europeus acreditam que seu país se beneficiou da afiliação à UE, a maior porcentagem desde 1983. Também se espera que as coalizões da corrente dominante mantenham o controle geral do Parlamento. Mas esses números escondem muita angústia e sofrimento.

Na França, onde os protestos dos coletes amarelos, ao falar de uma sensação nacional de grande mal-estar, humilharam o presidente Emmanuel Macron, uma porcentagem extraordinária de 69% dos eleitores acredita que o sistema político nacional e o sistema europeu estão quebrados, segundo conclusões do ECFR.

Um alto número de respondentes na Grécia – o infeliz receptor da austeridade imposta pela UE –, Itália e Espanha sente o mesmo. Os europeus orientais tendem a pensar que a União Europeia funciona bem, mas só em comparação com seus próprios governos.

Até na Alemanha e na Suécia, tradicionalmente vistos como dois dos países mais estáveis e conservadores da Europa, 35% dos eleitores disseram que as políticas nacional e europeia não funcionam. Por isso não causa surpresa, talvez, que lá, como em outros lugares, os partidos políticos estabelecidos sofram enorme pressão. A coalizão de centro-direita governante CDU/CSU de Angela Merkel, por exemplo, hoje pode contar com uma sólida base de apenas 8,6% de apoio central, e os social-democratas, de centro-esquerda, com apenas 3,4%, segundo a pesquisa.

Por essas medidas, a volatilidade é a nova palavra de ordem, um fenômeno que pode, paradoxalmente, tornar-se permanente. Quase 100 milhões de eleitores – cerca de 70% daqueles que pretendem votar – ainda não decidiram quem vão apoiar. Igualmente significativo, uma grande porcentagem deles poderá mudar à esquerda ou à direita, a depender das opções oferecidas e das questões que mais importam a eles.

As pesquisas parecem destinadas a se tornar uma festa para antigos e novos, grandes e pequenos grupos políticos de inúmeras persuasões, jogando fora antigos preceitos sobre afiliação, lealdade e tribo.

“Em vez de abranger uma comunidade eleitoral estável e previsível de cidadãos organizados em partidos, o sistema político europeu desceu a um imprevisível campo de batalha de alianças em constante mudança entre grupos que se unem momentaneamente antes de explodir logo depois”, diz o ECFR.

Ao mesmo tempo, a pesquisa sugere que os temores de uma mudança desestabilizadora à direita em toda a Europa em favor de grupos nacionalistas-populistas, ou de uma divisão entre Leste e Oeste Europeu, são exageradas. Embora muitos partidos anti-imigrantes, entre eles a Alternativa para a Alemanha (AfD), a Liga da Itália e a Reunião Nacional da França, devam registrar ganhos, a questão da migração não domina as pesquisas como esperavam os radicais de direita.

A vitória do comediante Volodymyr Zelenskiy na Ucrânia aumenta a angústia de quem torce pela Europa unificada

Uma série de preocupações, incluída a economia, a ascensão do nacionalismo, a Rússia, a emigração (para países mais ricos) e a mudança climática foram identificados como fatores-chave que influenciam os eleitores em toda a União Europeia. Se há uma questão comum que se destaca é o temor do radicalismo islâmico, e não da imigração, segundo a pesquisa. “A Hungria é o único país onde a imigração ainda é sentida como a principal ameaça… Em todos os outros 14 países pesquisados, um em pelo menos cada um dos outros cinco temas são igualmente, ou mais, importantes para os europeus.”

A Hungria, chefiada por Viktor Orbán, um porta-estandarte das forças nacional-populistas de direita da Europa, é um caso interessante. Apesar do visceral euroceticismo de seu primeiro-ministro, mais de 60% dos eleitores húngaros disseram que sua identidade europeia é tão importante para eles quanto a identidade nacional.

A maioria em quase todos os outros países (incluídos Grécia, Itália, Alemanha e Espanha) pensa do mesmo modo. Mas, para provar que algumas coisas nunca mudam – por mais volátil que seja o clima político –, os franceses dizem que ser francês é mais importante.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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