Mundo

assine e leia

Duplo abalo

O terremoto ofusca a agenda ultraliberal que Espriella queria mostrar ao mundo

Duplo abalo
Duplo abalo
Qual a prioridade? Prefeitos da região afetada reclamam da falta de apoio federal. Enquanto isso, o novo presidente faz agrados ao governo israelense – Imagem: Jaime Saldarriaga/AFP e Luis Acosta/AFP
Apoie Siga-nos no

Abelardo de la Espriella assumiu a Presidência da Colômbia na sexta-feira 7 com a promessa de provocar um terremoto político. Três dias depois, foi surpreendido por um movimento sísmico real tão violento que matou mais de 200 compatriotas e deixou outras centenas de feridos e desaparecidos e se viu obrigado a dar um cavalo de pau nas prioridades. O novo expoente da ultradireita sul-americana tinha planejado entrar em cena com um pacote de medidas espalhafatosas, mas a tragédia inesperada o forçou a decretar estado de emergência econômica e social. Sem nenhuma experiência administrativa prévia em cargos públicos, Espriella teve de tocar uma máquina administrativa que a duras penas chegava aos atingidos. Passadas 24 horas da tragédia, o prefeito do município de El Cairo, no Vale do Cauca, se queixava de que “nenhuma ajuda havia chegado aos moradores”.

Além de ser um dos maiores desastres humanitários da história da Colômbia, o terremoto de 10 de agosto teve o efeito de um jato d’água na espoleta da agenda ideológica de Espriella, que, mesmo assim, seguiu adiante com atitudes tão descoladas da realidade quanto a retomada dos bombardeios aéreos contra grupos criminosos locais, no mesmo dia do terremoto, e o reconhecimento da reivindicação ilegal de Israel sobre as Colinas de Golã, pertencentes à Síria, um assunto completamente alheio às preocupações de uma população mais interessada em obter água, luz, comida, abrigo e acesso à internet.

Os bombardeios contra grupos armados foram iniciados no terceiro dia do novo governo. Com eles, Espriella busca refundar a política de guerra às drogas que marcou o governo de Álvaro Uribe, líder da direita latifundiária colombiana, cuja família é acusada de manter laços estreitos e históricos com os milicianos paramilitares das chamadas Autodefesas Unidas da Colômbia. Voltar a empregar as forças armadas em operações militares de grande envergadura na selva colombiana corresponde a reabrir a guerra civil que durou meio século. Ao optar pela violência, o novo presidente desprezou o acordo de paz firmado na gestão de Juan Manuel Santos, em novembro de 2016.

Ataques pontuais a guerrilheiros não são uma novidade completa. A diferença é que Espriella considera o acordo um “erro histórico”. A Colômbia até manteve algumas investidas isoladas contra focos guerrilheiros renitentes, independentemente de quem era o presidente. Nos últimos dez anos, essas ações eram tidas, no entanto, como táticas e pontuais. O antecessor de Espriella, Gustavo Petro, de esquerda, só autorizou a primeira ação do tipo quando havia transcorrido metade de seu mandato. O ultradireitista, ao contrário, ordenou seu primeiro bombardeio aéreo logo de cara, anunciando uma retomada da postura belicista como carro-chefe de suas ações na área de segurança.

Em meio à tragédia, o novo presidente decidiu bombardear áreas de guerrilha

Ainda durante a campanha, Espriella lançou um ultimato a líderes do Exército de Libertação Nacional e das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia que resistiram a aderir ao plano de paz e se mantiveram mobilizados contra o governo. Ao assumir, mandou bombardear essas posições e avançar sobre elas com grupos de forças especiais. Além disso, ameaça retirar os benefícios concedidos a alguns guerrilheiros que, de boa-fé, largaram as armas e aderiram aos termos do acordo.

A Agência para a Reincorporação e a Normalização estima que 80% dos ex-guerrilheiros que aceitaram depor armas e serem reincorporados à vida civil na Colômbia desde 2016 têm cumprido seus compromissos. Mas, agora, com um presidente que classifica o acordo como um “erro” e ameaça rever os termos acordados, torna-se difícil prever o comportamento de quem aderiu.

A retórica incendiária de Espriella também força a associação de políticos, ativistas e eleitores de esquerda com as guerrilhas. Essa forma de fazer política gera apreensão em organizações de direitos humanos como a colombiana De ­Justicia, que alerta para o risco de “estigmatização” da oposição. “Para os que esperam diálogo e paz, este está sendo um péssimo início, que mantém as expectativas realmente muito baixas”, afirma Melissa Cabrera, gerente de projetos da ONG Artigo 19 para a América do Sul, que trabalha com a defesa da liberdade de expressão. “Os colombianos, de forma geral”, diz Cabrera, “não veem com maus olhos o enfrentamento militar às guerrilhas”, que por 50 anos protagonizaram inúmeras violações de direitos humanos no país. “A questão”, prossegue, “é que o acordo de paz de 2016 trouxe pela primeira vez uma perspectiva de pacificação, agora jogada por terra” com o discurso de Espriella, de que a saída é pelas armas. “Nós não demos tempo suficiente para a via do diálogo.”

Enquanto militariza a agenda interna, Espriella acena para fora do país. Com o anúncio a respeito das Colinas de Golã, o intuito foi proclamar o alinhamento com Israel, país convertido pela ultradireita em ponto focal de sua agenda internacional. Assim que o anúncio foi feito, a conta da chancelaria colombiana na rede social X foi inundada por comentários indignados, feitos por eleitores que não entendiam qual o sentido da decisão, enquanto o povo contava seus mortos. A desconexão de contextos demonstrou a ansiedade do novo governo em acenar para seus iguais, mesmo em meio a uma tragédia. Sem contar a ilegalidade do gesto em si, que viola uma resolução da ONU e atropela os limites territoriais de Israel, tal como traçados originalmente, em 1948.

Este aceno é ainda um sinal de alinhamento a Washington. O problema, diz Cabrera, é que “nós não sabemos o que está sendo prometido a Trump em troca desse apoio. Os norte-americanos sempre apoiaram a guerra, com o Plano Colômbia, mas, desta vez, a transparência é muito menor, e o atual governo não faz as coisas transparentes nem é contido por normas de direitos humanos e pelo direito internacional”. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Duplo abalo’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo