Mundo
Diplomacia energética
O Brasil tem condições de recorrer a diversas fontes para promover a integração regional
É compromisso constitucional da República Federativa do Brasil buscar a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina. Esse compromisso vem sendo testado por uma crise energética sem precedentes em Cuba, agravada pelas ações do governo de Donald Trump e ampliada para um desastre humanitário, com reflexos em todo o subcontinente.
A rede elétrica de Cuba depende de, aproximadamente, 95% de petróleo e gás. A população enfrenta apagões de 12 a 18 horas diárias e as consequências são devastadoras. Cerca de 80% dos sistemas de distribuição de água dependem de bombeamento elétrico e operam de forma irregular. E o sistema de saúde enfrenta dificuldades no armazenamento de vacinas e realização de cirurgias.
A insegurança energética cubana impacta as fronteiras brasileiras com um volume inédito de solicitações de refúgio. Em 2025, o Brasil registrou 41.919 solicitações de refúgio de cidadãos cubanos, aumento de 88% em relação ao ano anterior. Pela primeira vez, os cubanos se tornaram o maior grupo em busca de refúgio no País. Nos dois primeiros meses de 2026, mais de 6 mil cubanos haviam solicitado refúgio em território brasileiro.
Apesar das pressões dos EUA, diversos países têm buscado alternativas para ajudar Cuba. O México, que possui contrato de fornecimento via Pemex, paralisou o envio de petróleo devido à pressão política sobre a presidenta Claudia Sheinbaum, que tem enviado apoio humanitário. A Rússia enviou o navio-tanque Anatoly Kolodkin com 700 mil barris em março, volume que cobre quase um mês de consumo da ilha. A China, por sua vez, tem focado no apoio estrutural, com 49 projetos de parques solares entregues nos últimos 12 meses. A Colômbia, sob Gustavo Petro, prometeu o envio de painéis solares nos carregamentos de ajuda humanitária.
A segurança em energia é fator de estabilidade no subcontinente
Cuba não é, porém, o único país a apresentar vulnerabilidade energética, outros também dependem da importação de petróleo, gás ou carvão mineral na região. De acordo com dados da Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (Olacde), organismo público intergovernamental de cooperação ratificado por 27 países da América Latina e Caribe, a geração elétrica por hidrocarbonetos chega a 90% em Barbados, Granada e Jamaica, 80% no Haiti e República Dominicana e de 30% a 50% em El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá. Esses países, ao lado de Cuba, somam uma população de 80 milhões de habitantes, perto de 12% da população de toda a América Latina e Caribe. As ações dos EUA, sob Donald Trump, expõem os riscos aos quais a região está sujeita.
Em abril, os governos de Brasil, México e Espanha emitiram a Declaração Conjunta Sobre a Situação de Cuba, expressando preocupação e comprometendo-se a intensificar a resposta humanitária coordenada. A declaração demarca posição, mas exige medidas concretas não só para o necessário apoio humanitário, mas para atacar o problema fundamental da crise de abastecimento energético. Assim, é recomendável que esta declaração evolua para o diálogo de alto nível entre seus signatários, incluindo outros países próximos da região, como a Colômbia. Seria necessária a constituição de um mecanismo que promova a segurança energética da região que poderia estar vinculado à Olacde. O Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), junto a outros organismos de desenvolvimento interessados, poderiam contribuir para a sua construção.
O Brasil possui capacidade para liderar essa iniciativa com disponibilidade para atuar, em primeiro lugar, em duas frentes estratégicas: a exportação de soluções em energia renovável e a cooperação técnica e diplomática. Possuímos um parque produtivo que conta com empresas líderes desde a geração de energia renovável até a implantação tecnológica das unidades, dispondo do BNDES para financiamento. Outra possibilidade é a Agência Brasileira de Cooperação atuar em parceria com o Ministério de Minas e Energia, elaborando uma carteira de potenciais projetos de cooperação nas áreas de energia renovável, para transferir conhecimento em eletrificação rural e gestão de sistemas.
Em segundo lugar, como medida emergencial, não podemos esquecer que somos o maior produtor de petróleo da América Latina (atingindo 5,2 milhões de barris por dia em 2025), e a União pode oferecer parte da parcela de óleo do pré-sal que lhe cabe por lei por meio da Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA). Os novos leilões da PPSA podem incluir critérios que obriguem os vencedores a disponibilizar uma pequena parcela de óleo (ou equivalente em derivados) para atender países em crise energética, funcionando como um mecanismo de estabilização regional.
A crise em Cuba mostra que a vulnerabilidade energética de um único país pode fragilizar a estabilidade de toda a América Latina e Caribe. Ao implementar essas soluções, o Brasil cumpre papel constitucional e atua para mitigar os riscos existentes na segurança energética da região por meio de suas opções tecnológicas, especialmente de energia renovável. •
*Giorgio Romano Schutte é professor da Universidade Federal do ABC, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Energia do Laboratório de Política Externa (Lab.Pex) e autor do livro Transição Energética (Editora Blucher); João Pedro Taffner é bacharelando em Ciências e Humanidades e em Relações Internacionais pela UFABC, integrante do Núcleo de Pesquisa em Energia do Lab.Pex; Robson Araújo Silva é mestrando em Relações Internacionais pela UFABC, integrante do Observatório da Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (Opeb) e do Lab.Pex; Rafael Alves Fernandes é graduando em Relações Internacionais pela UFABC e integrante do Lab.Pex.
Publicado na edição n° 1414 de CartaCapital, em 27 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Diplomacia energética’
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