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De falcão a pombo

Antes crítico do corte de juros, Kevin Warsh, indicado para o Fed, muda o tom

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Relações. A dúvida é se o futuro presidente do Banco Central dos EUA terá coragem de contrariar o amigo Trump, que pressiona por corte nas taxas – Imagem: iStockphoto e Redes Sociais/UPS
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Em maio, se confirmado pelo Senado, Kevin Warsh vai assumir a presidência do ­Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, e comandar a primeira reunião do Comitê de Política Monetária em junho. O momento não poderia ser mais delicado. Os EUA enfrentam o maior “muro de vencimentos” da história. Perto de um terço da dívida pública norte-americana, aproximadamente 10 trilhões de dólares, vencerá em 2026, e quase metade precisará ser rolada até 2027. Tudo isso enquanto os custos anuais com juros tendem a ultrapassar 1 trilhão de dólares neste ano, segundo projeções do Congressional Budget Office, com tendência a dobrar até 2036.

Warsh, ex-executivo de Wall ­Street próximo ao presidente Donald Trump, carrega uma trajetória contraditória. Durante o governo do democrata Joe Biden, ficou conhecido por ser um “falcão”, sempre pronto a desfiar críticas ferozes aos cortes de juros, mas, desde a posse do amigo Trump, tornou-se um “pombo”. Nenhum risco inflacionário, no curto, médio ou longo prazo abala sua defesa de cortes agressivos das taxas, em linha com o republicano, à revelia dos indicadores e sob o argumento de que o boom no setor de Inteligência Artificial vai produzir queda generalizada nos preços. Apesar da mudança de perspectiva, o indicado mantém no mercado a reputação de ortodoxo, defensor de um Fed avesso a intervenções, afinado à ladainha do pensamento ultraliberal.

A possível nomeação trouxe novamente à tona, porém, o debate sobre a politização do Banco Central em meio a uma economia fragilizada, uma dívida recorde e uma guerra no Oriente Médio com efeitos no crescimento e na alta de preços globais. Nas últimas décadas, o BC norte-americano esteve mais preocupado em agradar a Wall Street do que agira em favor da economia real, e essa expansão de poder abriu espaço para mais interferência política. Reiteradas vezes, Warsh criticou o fato de o poder do Fed ter se tornado “grande demais”. Em um artigo no Wall Street Journal, em novembro do ano passado, classificou o balanço do Fed de “inflado” e argumentou que as compras em massa de títulos e hipotecas “distorceram os mercados financeiros e permitiram déficits governamentais sem freios”.

Um terço da dívida dos EUA vence neste ano

Segundo Ryan Chahrour, professor de Economia e Estudos Internacionais na Cornell University e estudioso da política monetária, se de fato Warsh presidir o Fed por indicação de Trump, será muito difícil “agradar ao presidente tanto quanto manter seus princípios, e não sabemos como essa tensão será resolvida”. Chahrour prossegue: “Acredito que ­Warsh argumentaria que os erros cometidos pelo Fed nos últimos 15 anos abriram espaço para interferências e controvérsias políticas, e que o retorno a um papel mais restrito na economia, na verdade, fortaleceria sua independência ao longo do tempo. Ele, provavelmente, espera que, ao implementar reformas, o Fed consiga evitar pressões políticas no futuro. No entanto, toda essa discussão de alto nível sobre o papel mais amplo do Banco Central não é, em última instância, o que interessa ao presidente. Trump quer juros mais baixos. E será muito difícil para Warsh defender uma queda acentuada das taxas de juro de uma forma que esteja em sintonia com suas convicções filosóficas sobre o papel adequado do Federal Reserve”.

Gerald Epstein, professor emérito de Economia e cofundador do Instituto de Pesquisa em Economia Política da Universidade de Massachusetts Amherst, acredita que essa contradição se intensifica em um terreno já minado. “Legalmente, o Fed é uma criação do Congresso. A Constituição dá ao Congresso o poder de cunhar moeda e, em 1913, esse poder foi delegado ao Federal Reserve, mas a responsabilidade última continua a ser do Congresso, que pode retomá-la a qualquer momento. Ou seja, o Fed não é independente do governo, ele presta contas ao governo. Historicamente, o Banco Central tem sido fortemente influenciado por Wall Street, que tem sido o principal grupo a determinar a política monetária. De tempos em tempos, figuras muito agressivas, como Trump ou antes dele, o ex-presidente Richard Nixon, tentam impor mais controle político sobre a política monetária, mesmo contra a vontade de Wall Street. Portanto, essa noção de ‘independência’ serve, na prática, para proteger o Banco Central do controle político direto, permitindo que outros capitalistas o controlem, não os trabalhadores.”

Assim Warsh entra em cena como um típico produto do sistema nascido em Wall Street e que mantém portas giratórias entre os setores público e privado. “Mas o curinga é Trump”, alerta Epstein­. “Ele quer controlar o Fed e pressionar por juros mais baixos. Quando houve o embate entre Trump e ­Jerome Powell, quem defendeu Powell foi justamente Wall Street, insistindo que o Fed deveria ser ‘independente’, ou seja, controlado por eles, não por políticos.”

Incertezas. O temor de uma bolha de IA não se dissipou, enquanto os ataques ao Irã elevam os preços dos combustíveis – Imagem: Spencer Platt/Getty Images/AFP e iStockphoto

O risco imediato da disputa é o tamanho da dívida. Com 10 trilhões de dólares com vencimento em 2026, qualquer movimento brusco do Banco Central pode ter efeitos colaterais graves. Se Warsh adotar uma política de “mão de ferro”, elevando juros ou encolhendo o balanço do Fed rapidamente, isso pode desencadear uma crise de refinanciamento do Tesouro. E a guerra no Oriente Médio adiciona outra camada de incerteza. “Tudo o que li das declarações anteriores de Warsh sugere que ele tenderia a priorizar a estabilidade de preços nesse cenário, ainda mais considerando os recentes erros de avaliação da inflação, mas isso provavelmente não é o que o presidente Trump gostaria de ver”, avalia Chahrour. “Acho que o resultado mais provável seria Warsh apoiar um corte menor ou até um pequeno aumento nas taxas de juro, atribuindo a decisão às negociações internas do comitê. No fim, a realidade limita o quanto ele pode afastar-se do manual-padrão.”

Há 20 anos, segundo Epstein, a solução para democratizar o Federal Reserve­ seria simples, dar mais assentos nos conselhos nos 12 comitês regionais do Banco Central a organizações de trabalhadores, agricultores e comunidades, “mas, hoje, romper essa estrutura é bem mais difícil. Estamos falando de uma instituição que tenta ser democrática em um sistema político profundamente antidemocrático, cada vez mais controlado por capitalistas, bilionários e forças afins, e que caminha na direção do fascismo ou algo muito próximo disso”.

Quem será o chefe de Kevin Warsh: Wall Street ou a Casa Branca?

Com a escalada de tensões entre os Estados Unidos, Israel e Irã, choques de oferta podem empurrar os preços do petróleo e de outras commodities para os píncaros. O Fed repetirá o erro clássico dos anos 1970 e 1980, de subir juros agressivamente para conter a inflação, mesmo à custa de uma recessão global? Para Epstein­, “a classe trabalhadora dos EUA está muito enfraquecida para exigir reajustes salariais que alimentem uma espiral de preços-salários”. Além disso, assim como Chahrour, acredita que o fator Trump não permitirá excessos. “Ele provavelmente exigirá que o Fed não suba muito os juros, por causa do petróleo, e o Banco Central terá de levar isso em conta.”

É preciso, no entanto, atentar para um perigo menos discutido, a bolha de Inteligência Artificial. “O problema central não é tanto a dívida pública e os déficits do governo, mas a enorme estrutura de dívida privada, em escala global. Pense, por exemplo, no investimento maciço em IA, bilhões e bilhões de dólares em data centers financiados com dinheiro emprestado, muitas vezes por meio de arranjos financeiros complexos, semelhantes aos observados antes da crise de 2008”, diz Epstein. “Um aumento grande e inesperado de juros pode tornar essas posições inviáveis e provocar queda significativa nos preços de ativos, incluindo ações.” Por outro lado, se o Banco Central reduzir juros rápido demais, sob pressão de Trump, a demanda por títulos do Tesouro pode enfraquecer, desestabilizando o dólar e os mercados globais. “Os EUA estão numa posição extremamente frágil”, resume.

A tensão entre os princípios ortodoxos do futuro presidente do Federal Reserve, as demandas políticas de ­Donald Trump e o frágil equilíbrio da dívida norte-americana vão definir os rumos não apenas da economia dos Estados Unidos, mas do sistema financeiro global. Cada passo de Warsh tende, no fim, a mexer com o meu, o seu, o nosso bolso. •

Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘De falcão a pombo’

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