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Congresso do Peru destitui o presidente interino José Jerí por suposto ‘tráfico de influência’
O mandato de Jerí se encerraria em julho. Com a destituição, o Parlamento peruano elegerá um novo presidente na próxima quarta-feira
O Congresso do Peru destituiu nesta terça-feira 17 o presidente interino José Jerí por má conduta funcional e falta de idoneidade para exercer o cargo, após um julgamento político relâmpago. Jerí, o sétimo chefe de Estado peruano em 10 anos, foi removido do cargo ao qual chegou como presidente do Congresso em outubro de 2025.
Ele foi presidente do Congresso até que, em 10 de outubro, substituiu na presidência Dina Boluarte, destituída pelo Parlamento em um julgamento político relâmpago no qual se alegou sua incapacidade de resolver uma onda de extorsões e assassinatos por encomenda.
A proposta contra Jerí, de 39 anos e cujo mandato termina em julho, ocorre a poucas semanas das eleições gerais de 12 de abril. Na última sexta, os congressistas apresentaram as 78 assinaturas necessárias para forçar uma sessão extraordinária durante o período de recesso.
A destituição de Jerí ocorre em plena crise institucional enfrentada pelo Peru desde as eleições de 2016, quando um conflito permanente de poderes eclodiu entre o Parlamento, fortalecido, e o Executivo, desgastado, em um contexto de fragmentação partidária e ausência de consenso político.
“A mesa diretora declara a vacância da Presidência da República”, anunciou o presidente interino do Congresso, Fernando Rospigliosi, após a votação. Eram necessários 58 votos para destitui-lo.
O Parlamento elegerá na quarta-feira às 18h locais (20h em Brasília) um novo chefe do Legislativo, que assumirá automaticamente a presidência interina do Peru até 28 de julho, indicou Rospigliosi.
“Eu não cometi nenhum crime. Tenho plena suficiência moral para poder exercer a presidência da República”, declarou Jerí em uma entrevista na televisão na noite de domingo.
Do lado de fora do Congresso, um pequeno grupo de manifestantes carregava cartazes a favor da destituição de Jerí por ter transformado o palácio presidencial “em um bordel”. “Não é nosso presidente”, disse à AFP a comerciante María Galindo, de 48 anos.
Crise institucional
“Ter uma nova substituição na presidência, a quarta no atual lustro político, não resolverá nada da profunda crise institucional que o país vive”, disse à AFP o analista político Augusto Álvarez. Além disso, “será difícil encontrar no atual Congresso — com evidências de mediocridade e suspeita sólida de corrupção generalizada — um substituto com legitimidade política”, acrescentou.
O Congresso necessita de maioria simples para censurá-lo. Em caso de destituição, deverá eleger um novo chefe do Legislativo, que automaticamente assumirá a presidência interina do Peru. “Eu sou a favor de que ele não seja censurado pelo pouco tempo que lhe resta como presidente; sugiro que termine seu mandato até julho”, disse à AFP Edgar Clavijo, de 68 anos, um pequeno comerciante.
Mas Zoila Sajami, uma cabeleireira de 44 anos, considerou que “seria bom que o destituíssem porque não faz nada” contra a corrupção.
Contexto eleitoral
A rapidez com que a censura está sendo processada foi relacionada à campanha eleitoral, que registra um recorde de mais de 30 candidatos presidenciais. “Os partidos que apressam a destituição o fazem porque acreditam que isso poderia ajudá-los a obter mais votos na eleição de 12 de abril”, ressaltou Álvarez, diretor do meio digital A3R.net.
O candidato presidencial do Renovação Popular, Rafael López Aliaga, que lidera as pesquisas, tem sido o mais enfático em exigir a renúncia de Jerí. López Aliaga, simpatizante do presidente Donald Trump, afirmou que “Jerí é operador de dezenas de grupos chineses que entram em massa no Palácio”.
O embaixador dos Estados Unidos em Lima, Bernie Navarro, defendeu a continuidade de Jerí em entrevista ao jornal financeiro Gestión. “Para a estabilidade do país, acho que deveria baixar o tom, assegurar eleições dignas e que o presidente siga em funções”, disse o diplomata americano. “Mudar de presidentes com frequência, aos olhos não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo, não é normal”.
Duas investigações do Ministério Público
Depois de um início marcante, com aprovação de quase 60% nas pesquisas devido ao impulso dado à luta contra o crime organizado, a popularidade de Jerí caiu para 37% em fevereiro.
As críticas surgiram quando o Ministério Público abriu em janeiro uma investigação preliminar por suposto crime de “tráfico de influência e patrocínio ilegal de interesses”, após vir à tona um encontro encoberto com um empresário chinês que faz negócios com o governo. A esse encontro Jerí compareceu encapuzado.
Sua situação se complicou na semana passada com outra investigação por “tráfico de influência”, diante de sua suposta intervenção na contratação de nove mulheres em seu governo.
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