Mundo
Conflito no Oriente Médio provoca nova onda de deslocamentos e pressiona redes humanitárias
Mais de 30 mil pessoas tiveram de deixar suas casas só no Líbano, segundo a ONU
A ofensiva militar lançada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã em 28 de fevereiro desencadeou uma nova onda de deslocamentos forçados no Oriente Médio, agravando uma crise humanitária que se espalha rapidamente pela região. No Líbano, país diretamente afetado pela escalada, pelo menos 31 mil pessoas já foram obrigadas a abandonar suas casas, segundo números divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira 3.
Israel ordenou a evacuação de moradores em mais de 53 localidades e lançou ataques intensos em três regiões libanesas: o sul do país, o Vale do Bekaa e os subúrbios do sul de Beirute. De acordo com o porta-voz da ACNUR, a agência das Nações Unidas para os refugiados, Babar Baloch, milhares de pessoas buscaram refúgio em centros de acolhimento, enquanto outras passaram a noite nos carros ou à beira das estradas, sem ter para onde ir.
Do Cairo, o diretor regional do Programa Mundial de Alimentos (PMA), Samer Abdel Jaber, alertou que o número de deslocados deve “aumentar consideravelmente” nos próximos dias. O Líbano, diz ele, foi o primeiro país a ativar abrigos e permitir que o PMA distribuísse refeições quentes às famílias em fuga. Caso a situação piore, o organismo prevê que serão necessários ao menos 200 milhões de dólares para sustentar uma resposta emergencial de três meses.
A crise humanitária se agrava também dentro do território iraniano. Pelo menos 175 pessoas, a maioria crianças, morreram no ataque a uma escola primária feminina na cidade de Minab, no sul do país. Há relatos adicionais de centenas de civis mortos em várias cidades, incluindo ataques contra hospitais. Em resposta aos bombardeios, o Irã realizou contra-ataques em pelo menos sete países da região, atingindo inclusive hotéis e prédios civis no Bahrein, Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos.
A Federação Internacional para os Direitos Humanos (FIDH) condenou veementemente tanto os ataques dos EUA e de Israel quanto as retaliações iranianas. A organização afirma que as ações violam o direito internacional e alerta para o risco de aprofundamento da instabilidade regional. O presidente da entidade, Alexis Deswaef, criticou especialmente o impacto sobre a população civil, destacando que escolas, hospitais e demais estruturas civis são protegidas por convenções internacionais. A FIDH pede investigações independentes e responsabilização por eventuais crimes de guerra.
Atenção na fronteira com a Turquia
Na fronteira entre Irã e Turquia, autoridades e especialistas acompanham com preocupação os primeiros sinais de deslocamento de civis iranianos rumo ao território turco. Embora ainda restrito, o movimento pode crescer rapidamente caso o conflito se intensifique. A Turquia, que já abriga milhões de refugiados de guerras anteriores, teme uma pressão ainda maior sobre suas regiões fronteiriças.
Organizações humanitárias reforçam que a situação exige resposta imediata. A Médicos do Mundo, presente em diversos países da região — incluindo Líbano, Palestina, Síria, Iêmen e Iraque —, mantém suas equipes ativas, embora parte de seus profissionais no sul do Líbano também tenha sido forçada a abandonar suas casas. A ONG alerta para o risco crescente à infraestrutura civil e destaca que a ajuda humanitária “jamais deve ser condicionada ou politizada”.
“Nossas equipes estão avaliando as necessidades mais urgentes e se preparando para intervir em conjunto com o Ministério da Saúde libanês”, afirma Caroline Bedos Esteban, responsável pelo departamento do Oriente Médio da organização. Ela acrescenta que a ONG também acompanha a situação dos civis iranianos e avalia a possibilidade de prestar assistência tanto dentro do Irã quanto em países vizinhos.
Com deslocamentos simultâneos no Líbano, bombardeios devastadores em cidades iranianas e o risco iminente de uma nova rota de refugiados em direção à Turquia, o Oriente Médio vive um momento de extrema instabilidade. O alerta de agências humanitárias e de direitos humanos converge em um ponto: sem um cessar-fogo imediato, a crise pode ultrapassar rapidamente a capacidade de resposta internacional — deixando civis, mais uma vez, no centro do problema.
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