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Comunistas da América
Pupilos de Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, agitam as primárias do Partido Democrata
Quando Zohran Mamdani conquistou a prefeitura de Nova York, em novembro passado, a ala moderada do Partido Democrata tratou o resultado como exceção metropolitana, uma vitória que, apesar de improvável, refletia o humor de uma cidade inclinada à esquerda. Entre republicanos, o socialista democrata enfrentou adversários que não recorreram apenas ao velho espantalho do comunismo, mas exploraram a imagem de muçulmano, imigrante e defensor da causa palestina como uma ameaça à segurança e à identidade da metrópole. Ao ressuscitar os fantasmas do 11 de Setembro e insinuar vínculos com o extremismo, os adversários tentaram transformar o medo e o preconceito em arma eleitoral. Não funcionou. Mamdani foi eleito e sete meses de governo bastaram para mostrar que ele não é apenas um fenômeno eleitoral. Sua gestão acumula avanços concretos em proteção a inquilinos, fiscalização de empregadores, transporte e expansão gradual da educação infantil gratuita. Na pesquisa do Siena Research Institute de junho, o democrata registrava 58% de aprovação, índice alto para um prefeito, sobretudo em um ambiente nacional de forte descrença na política.
Consciente de seu poder como fiador político, Mamdani decidiu endossar correligionários na tentativa de construir, nas eleições de meio de mandato em novembro, uma bancada própria no Congresso dos Estados Unidos. Os primeiros resultados dão a medida de sua força. Os três candidatos apoiados pelo prefeito venceram as primárias democratas, impondo duas derrotas a deputados em exercício e sacudindo a velha guarda do partido. Ao transformar disputas locais em um referendo sobre moradia, Israel e o poder das corporações, o nova-iorquino não apenas se firmou como um forte cabo eleitoral. Colocou a esquerda socialista no centro da disputa pelo futuro do Partido Democrata.
Brad Lander, um dos três pupilos, é figura conhecida da esquerda do Brooklyn. Ele construiu uma trajetória de defesa da moradia acessível, dos direitos dos imigrantes e de maior controle sobre o poder das corporações. Na campanha, somou a essa agenda uma crítica ao apoio militar dos EUA a Israel. Outro nome ungido por Mamdani foi Darializa Chevalier, doutoranda em Sociologia, militante da causa dos imigrantes e uma das organizadoras dos acampamentos pró-Palestina no campus da Universidade Columbia em 2024. Claire Valdez é uma sindicalista ligada aos Socialistas Democráticos da América, maior grupo do gênero no país. Sua trajetória política foi forjada em greves e mobilizações pelo direito à moradia.
O alcance de Mamdani não se limita, porém, ao trio. Sua vitória alicerçou candidaturas que, mesmo sem receber o apoio formal do prefeito, adotam pauta semelhante: custo de vida, serviços públicos, combate ao poder corporativo e organização de base. No Colorado, no Michigan e em Washington D.C., a insurgência progressista encontrou rostos próprios e venceu prévias que o establishment democrata tratava como terreno seguro. No Colorado, a advogada Melat Kiros, de 29 anos, enterrou na primária a carreira de 15 mandatos de Diana DeGette na Câmara. Socialista democrática, Kiros fala em nome de uma geração para a qual moradia, saúde e creche se tornaram privilégios. Em Washington D.C., a vereadora Janeese Lewis venceu a indicação para a prefeitura com uma plataforma de creche universal, habitação social e empregos, apresentando-se como alternativa à gestão mais moderada da correligionária Muriel Bowser.
Ativistas ganham espaço nas disputas internas da legenda
Em Michigan, deu-se o resultado mais sentido por Donald Trump e pela base MAGA. Filho de imigrantes egípcios, muçulmano e crítico da limpeza étnica de Israel em Gaza, Abdul El-Sayed conquistou a indicação democrata ao Senado em uma disputa que pode definir o controle da Casa. Médico e ex-secretário municipal de Saúde de Detroit, El-Sayed defende o Medicare for All, a taxação dos bilionários, o fechamento do ICE e a suspensão do apoio militar norte-americano a Tel-Aviv. Na reta final da primária e, sobretudo, depois de sua vitória, o democrata virou alvo de ataques islamofóbicos. Em 5 de agosto, o senador republicano Tommy Tuberville chamou-o de “terrorista” e “islamista radical” em uma postagem no X. Dois dias depois, Nancy Mace, deputada da Carolina do Sul derrotada nas primárias republicanas para o governo estadual, escreveu na mesma rede que “todo muçulmano que ocupa um cargo público nos Estados Unidos” representa “uma ameaça tanto à segurança nacional quanto à nossa república”. Na segunda-feira 10, Trump elevou o tom. Em conversa com jornalistas no Salão Oval, afirmou haver “jihadistas sendo eleitos por toda parte”. El-Sayed respondeu aos ataques durante entrevista à rede de tevê CNN. Disse que o presidente do país e integrantes do MAGA tentam definir os EUA como um país “pequeno demais para incluir certos tipos de gente”, ao usar seu nome e sua fé para insinuar que ele seria menos norte-americano. “Eles querem uma América pequena. E eu acredito que a América é grande, de mente aberta e de coração generoso.”
A forma como El-Sayed define o país onde nasceu também ilustra o desafio da elite democrata. Para sobreviver, o partido terá de reconhecer que a linguagem de Mamdani e de seus aliados alcançou eleitores afastados da política tradicional, inclusive nos estados-pêndulo, no Meio-Oeste e nos subúrbios. A ironia é que até Trump foi arrastado para esse terreno. Depois de transformar Mamdani em “comunista”, o presidente passou a falar em objetivos comuns de affordability. Aliados republicanos, entre eles Michael Whatley, candidato ao Senado pela Carolina do Norte, passaram a disputar o tema do custo de vida com outra receita, cortes de impostos, desregulação e expansão da oferta imobiliária. Segundo as pesquisas de boca de urna da NBC News, em novembro passado, 9% dos eleitores de Trump em 2024 apoiaram Mamdani na disputa à prefeitura. Depois de se reunir com o então prefeito eleito, o próprio Trump citou o dado: “Muitos dos meus eleitores votaram no Mamdani. Um em cada dez, e eu não me importo com isso”. Não sejamos ingênuos. Não há aí uma conversão trumpista à agenda do prefeito, mas o reconhecimento, ainda que relutante, de que a crise do custo de vida extrapola as trincheiras ideológicas. Resta saber se o prefeito da cidade mais populosa dos EUA de fato mudou o debate nacional ou se a crise social que afeta o país apenas tornou inevitável o assunto. •
Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Comunistas da América’
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