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Como ‘catolicismo paralelo’ excomungado se espalhou no mundo
Com presença em 50 países, movimento fundado em 1970 entrou na mira do papa. Missas em latim e rejeição ao diálogo entre religiões angariaram fiéis contrários a reformas do Concílio Vaticano 2, inclusive no Brasil
O Vaticano anunciou nesta quinta-feira 2 ter excomungado os bispos, padres e fiéis de um movimento conservador e dissidente com presença ao redor do mundo, inclusive no Brasil. A punição vem um dia depois de quatro bispos terem sido ordenados sem a autorização do papa Leão 14, o que foi interpretado como delito de “cisma”, quando há ruptura dentro da Igreja Católica.
Com 1.482 membros formais, a Fraternidade Sacerdotal São Pio 10 (FSSPX) conta com 733 padres, 264 seminaristas e integrantes de cerca de 50 países, de acordo com o próprio site. Os seguidores, chamados de “lefebvrianos”, chegam a estimados 600 mil ao redor do mundo. No Brasil, são 4 priorados e 21 capelas.
Segundo o Vaticano, os sacramentos (ritos católicos) realizados pela fraternidade deverão ser considerados ilícitos. Casamentos e penitências (quando se concede o perdão divino aos pecados confessados) são, a partir de agora, inválidos aos olhos da Igreja.
Estão excomungados (isto é, excluídos dos vínculos com a Igreja) os bispos responsáveis pela ordenação desta semana, os novos ordenados e todos os outros que pertencem à FSSPX. Também qualquer fiel que aderir ao grupo deve ser considerado alvo da excomunhão, a mais severa penalidade da Igreja Católica.
Segundo interpretações anteriores do Vaticano, a adesão formal inclui aqueles que colocam sua lealdade à FSSPX acima da obediência ao papa ou que participam exclusivamente de missas do grupo.
Fiéis viajaram para cerimônia
Para a Santa Sé, consagrar bispos sem a aprovação do papa, chefe da Igreja Católica que governa cerca de 1,4 bilhão de fiéis, é um ato direto de insubordinação, levando à excomunhão automática dos bispos envolvidos.
A abrangência da resposta do Vaticano, entretanto, surpreendeu observadores, sobretudo por penalizar outros sacerdotes que não os diretamente envolvidos na ordenação desta semana e, potencialmente, milhares de fiéis da FSSPX.
Cerca de 15 mil pessoas, incluindo famílias e crianças de vários países, teriam participado da cerimônia de quarta-feira, repleta de ritos tradicionais, em Ecône, na Suíça. Um site oficial organizava este e outros eventos realizados ao longo da semana.
A presença em massa dos fiéis indica que uma ampla base de apoiadores da FSSPX, parte de uma espécie de igreja paralela e fervorosamente católica, viajaram sabendo que estariam desafiando a autoridade papal.
O superior-geral da fraternidade, Davide Pagliarani, chamou o dia de “histórico”. “Estamos rompendo com a Igreja para manter a fé? Este é um falso dilema. Pertencemos à Igreja acima de tudo por meio da fé, pela profissão integral da fé da Igreja”, disse ele durante a homilia.
Em carta à FSSPX, o papa fizera um pedido direto para que o evento fosse suspenso, advertindo que “rasgar a túnica sem costura de Cristo é um pecado de extrema gravidade”. “Eu imploro a vocês e peço de todo o coração: por favor, voltem atrás”, escreveu.
Segunda excomunhão em 38 anos
O desafio pela FSSPX às normas da Igreja Católica não é novidade. Uma corrente minoritária na ala conservadora do catolicismo, o grupo sustenta que preserva a verdadeira tradição católica de forma mais fiel do que a própria Santa Sé.
Os seus adeptos são seguidores do arcebispo francês Marcel Lefebvre, que fundou o grupo em 1970. Morto em 1991, ele também foi excomungado em 1988, junto a quatro bispos consagrados sem o aval do então papa João Paulo 2º.
À época, o confronto representou a maior ruptura na Igreja Católica desde o fim do século 19. A FSSPX não voltou a ordenar novos bispos até esta semana.
O movimento foi criado em resposta ao Concílio Vaticano 2, quando bispos do mundo todo se reuniram, sob a convocação do Vaticano, e aprovaram amplas reformas na Igreja Católica. As missas passaram a ser celebradas na língua dos fiéis, e não mais em latim, com o padre de frente para eles, ao invés de virado para o altar.
O objetivo era fazer com que os católicos se sentissem participando das missas, e não mais numa posição meramente passiva de espectadores. Para a Igreja, era um aceno tão simbólico quanto histórico em direção à modernização.
Lefebvre ficou do lado dos que não gostaram das mudanças, argumentando que elas enfraqueciam a identidade católica e diluíam a doutrina tradicional. A missa em latim, na sua visão, preservava melhor o caráter de mistério e solenidade da liturgia.
Contra diálogo entre religiões
Ele fundou, então, a fraternidade cujo nome homenageia São Pio 10, morto em 1914 e conhecido por sua oposição ao modernismo teológico. Segundo a FSSPX, o arcebispo apoiou o estabelecimento de “escolas verdadeiramente católicas” e “respondeu aos chamados de fiéis desorientados pelas reformas” do Concílio.
Por conta da sua resistência às decisões do Vaticano, Lefebvre sofreu punições anteriores à excomunhão. Em 1976, foi proibido de ordenar diáconos e sacerdotes e, depois, de realizar qualquer função sagrada.
Até hoje, o grupo mantém as tradições antigas, incluindo as missas realizadas em latim, com o padre virado de costas para os fiéis. Afirma ainda que “sempre se recusará a seguir a Roma de tendência neo-modernista e neo-protestante” que se manifestou nos anos 1960.
As críticas do movimento abarcam também o ecumenismo, doutrina que considera todas as religiões como benéficas e válidas, e a abertura do Vaticano ao diálogo com outras religiões, incluindo a melhora das relações com o judaísmo. Os seus adeptos rejeitam ainda a colegialidade, pela qual a Igreja é governada principalmente pelo processo democrático e pelas conferências episcopais, segundo a FSSPX.
Prior brasileiro contra ‘esquerdismo’
O principal seminário (onde se formam novos sacerdotes) da FSSPX fica em Ecône, na Suíça, onde também Lefebvre executou a ordenação clandestina que levaria à sua excomunhão. Outros estão localizados nos Estados Unidos, na Argentina e na Alemanha.
Crescendo ao longo de anos, a presença do movimento se capilariza hoje em distritos e casas autônomas nas Américas, Europa, Oceania, Ásia e África. A fraternidade hoje opera escolas, centros de retiro e capelas.
Ela está presente em 12 estados ao redor do Brasil, concentrando-se em São Paulo e Rio de Janeiro. O padre Jean-François Mouroux, enquanto liderança no priorado Padre Anchieta em São Paulo, escreveu, em boletim mensal de maio, que a “Tradição talvez fosse excomungada” em julho e criticou o Vaticano por “aprovar bispos comunistas na China, mas não bispos católicos em Ecône.”
Depois, em julho, acusou “a maioria das paróquias” do Brasil de “ignorância intelectual”, oferecendo “um catecismo de péssima qualidade, sem falar de toda uma propaganda modernista e esquerdista que nada tem de católica.”
Há pelo menos uma escola em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e outra em planejamento em São Paulo. Segundo a FSSPX no Brasil, o objetivo é oferecer um “ambiente seguro e saudável no qual as crianças podem estudar sob a luz da fé para transformarem-se nos líderes católicos do futuro.”
Tentativas de reconciliação
O papa Bento 16, que chefiou a Igreja Católica de 2005 até a sua renúncia em 2013, transformou a reconciliação com os tradicionalistas em prioridade. Em 2007, ele ampliou a permissão para a celebração da antiga missa em latim. Ele retiraria, dois anos mais tarde, as excomunhões dos quatro bispos sobreviventes da FSSPX.
Já o papa Francisco, embora tenha buscado restringir a celebração da missa em latim, realizou alguns gestos simbólicos em direção à FSSPX e voltou a autorizar seus sacerdotes a ouvirem confissões em nome da Igreja. Mesmo assim, a ala conservadora mais ampla do catolicismo se alienou durante o seu pontificado.
A reconciliação plena com a FSSPX nunca foi alcançada devido às divergências persistentes. Ao noticiar a nova excomunhão, o Vatican News, veículo de comunicação oficial da Santa Sé, afirmou que “as numerosas tentativas de reconduzir à plena comunhão com a Igreja Católica os membros do movimento iniciado por Dom Marcel Lefebvre revelaram-se infrutíferas.”
Muitos outros tradicionalistas católicos permanecem em comunhão com a Santa Sé. Eles vinham observando atentamente como o Vaticano de Leão 14 responderia às consagrações da FSSPX desta semana.
Excomunhão pode ser revertida
A excomunhão pode ser revertida caso os seus alvos se arrependam dos atos que levaram à punição. No caso dos padres e fiéis lefebvrianos, o procedimento para oficializar o retorno à Igreja Católica será facilitado.
“A Igreja, como uma mãe cuidadosa, acolherá com afeto sincero e viva preocupação todos aqueles que desejarem retornar à plena comunhão”, escreveu o Vaticano.
Para os sacerdotes e a parte dos fiéis que compartilha explicitamente da doutrina da FSSPX, será necessário apresentar declarações formais de retratação à Igreja. No caso dos católicos que frequentaram a fraternidade “apenas por motivos litúrgicos ou espirituais” ou “não rejeitam” a autoridade do Papa, bastará não mais se engajar com o movimento, diz o Vatican News.
Em excomunhões anteriores, foram criados órgãos específicos para acolher de volta os afetados que se redimissem perante os olhos do Vaticano.
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