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Com bases militares, a China dá o segundo passo para consolidar sua hegemonia global

A Pequim de Xi Jinping segue à risca o manual dos seus antecessores ocidentais

Avante. Os delegados do partido deram a Xi Jinping o poder para conduzir a estratégia chinesa de expansão
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Os Estados Unidos descrevem seu recém-anunciado boicote às Olimpíadas de Inverno de Pequim, apoiado pelo Reino Unido e outros países ocidentais, como um protesto contra os “egrégios abusos aos direitos humanos na China e as atrocidades em Xinjiang”, onde o Partido Comunista Chinês é acusado de genocídio, assim como sua extirpação da democracia em Hong Kong. Mas outra preocupação à espreita determina a atitude de Washington: que a China possa transformar os jogos em um show de propaganda e exibir sua força crescente ao público global. Pense em Gladiador, e então pense em Xi Jinping, o presidente chinês, atuando como um imperador romano dos tempos modernos, exercendo poder de vida e morte. Não é uma imagem bonita. O relatório de um tribunal independente descreveu a terrível realidade que enfrentam milhares de uigures que sofrem “atos de crueldade sem escrúpulos, privação e desumanidade”, incluindo tortura e estupros coletivos, nos campos de concentração de Xinjiang.

Enquanto os atletas mundiais recebem aprovação para se apresentarem nos “jogos do povo”, o imperador Xi dita a sentença de suas incontáveis e invisíveis vítimas.

É difícil ver Xi, com seus inatacáveis poderes ditatoriais, seu estado da vigilância tecnofascista que suprime a dissidência e oprime as minorias, e sua política externa agressivamente expansionista, como qualquer coisa diferente de um maluco por controle totalitário com fantasias imperiais. Os impérios, especialmente o britânico, têm repercussão negativa na mídia hoje em dia. Sua estreita associação com o colonialismo, o racismo, a escravidão e outros males é motivo suficiente. Mas a suposição de que tais abusos foram banidos ignora o que acontece no mundo hoje, debaixo dos nossos narizes.

O imperialismo, em todas as s­uas formas horríveis, ainda representa uma ameaça. Mas não é mais o imperialismo ocidental, corretamente execrado e autocondenado. A ameaça atual emana do Oriente. Igualmente objetável, e potencialmente mais perigosa, é a perspectiva de um império global chinês no século XXI.

Historicamente, a construção de impérios conta com três fatores, ou projeções. Primeiro vêm as redes ou polos comerciais internacionais, via ligações marítimas e corredores terrestres. Logo atrás vem o estabelecimento de bases militares no exterior, para garantir e defender esses novos interesses, com ou sem o consentimento local. Por último, os impérios nascentes estabelecem uma história (com frequência ilusória), ou “declaração de missão” para justificar suas atividades. Os imperialistas britânicos afirmavam ser uma força civilizatória, levando a lei e o cristianismo à grande plebe. O império norte-americano no pós-Guerra foi, supostamente, sobre a defesa da democracia.

Quase como se tivesse feito um estudo, o Partido Comunista segue o ­manual imperialista ocidental ao pé da letra, com um detalhe importante. Pequim não trava lutas estrangeiras distantes para sustentar sua dominação, como fizeram os Estados Unidos no Vietnã, Iraque e Afeganistão, e a Grã-Bretanha no mundo todo. Ao menos ainda não.

A primeira fase da nova era imperial da China está em curso. A ambiciosa iniciativa de infraestrutura e investimento cinturão e estrada (BRI, na sigla em inglês) atinge 60 países. A China é o maior país comercial do mundo e o maior exportador, com 2,6 trilhões de dólares em 2019. O foco do partido, enquanto isso, muda o império para a fase 2:­ bases militares. A mídia norte-americana relatou que a cidade portuária de Bata, na Guiné Equatorial, poderá tornar-se a primeira base naval chinesa no Atlântico. A China tem uma base naval no Djibuti, no Chifre da África. Dizem que também considera uma base aérea numa ilha em Kiribati, que poderia na teoria ameaçar o Havaí. Enquanto isso, continua a militarizar atóis no Mar do Sul da China.

A Pequim de Xi Jinping segue à risca o manual dos seus antecessores ocidentais

Um relatório do Pentágono previu que a China construirá uma série de bases militares ao redor do mundo. “Países-meta” incluem Paquistão, Sri Lanka, Mianmar, Emirados Árabes Unidos, Quênia e Angola, segundo o documento.

As preocupações dos Estados Unidos sobre as incursões chinesas na América Central concentram-se em Cuba, no Panamá e na Nicarágua. A Europa também não está imune à projeção de poder do partido: veja as preocupações sobre a Huawei, espionagem e o esquema “Portal da Europa” no porto grego de Pireu. Xi não faz segredo de seu objetivo de conquistar a ascendência global, refazer a ordem internacional à imagem da China e dominar as tecnologias emergentes do século XXI, como inteligência artificial, computação avançada, gestão de informação e armamento espacial.

Ao mesmo tempo passa uma mensagem mais suave, o tipo de discurso tranquilizador que as potências imperiais preferem. A China não é uma ameaça, diz. Nós somos seus amigos benevolentes, parceiros para a prosperidade global.

Em um discurso, em julho, para marcar o centenário do partido, Jinping ofereceu uma visão menos tranquilizadora de suas ideias combativas. O poder imperial está certo, sugeriu. Onde a ­Britannia um dia balançava na superfície, a China hoje domina as ondas.

“Nós nunca fomos prepotentes, oprimimos ou subjugamos os povos de nenhum outro país, e nunca o faremos. Pelo mesmo critério, nunca permitiremos que alguém domine, oprima ou subjugue (a China)”, discursou. “Qualquer um que tentar se verá em rota de colisão com um muro de aço forjado por 1,4 bilhão de habitantes.”

Segundo medidas importantes – o número de bases no exterior, alianças, poder de ataque militar –, os Estados Unidos ainda superam em muito o regime chinês. As ambições do BRI de Xi encontram uma reação contrária cada vez maior. Mas, com frequência, o Ocidente parece inseguro em relação a como lidar com o desafio chinês. O boicote parcial às Olimpíadas cheira a fraqueza.

Depois de dois séculos na ponta final do imperialismo, o império chinês contra-ataca. O problema é que a visão de futura dominação global é um totalitarismo centralmente controlado, coletivamente opressor, individualmente esmagador. Ele só promete sofrimento para as massas. •


Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1188 DE CARTACAPITAL, EM 16 DE DEZEMBRO DE 2021.

CRÉDITOS DA PÁGINA: JU PENG/XINHUA/AFP

Simon Tisdall

The Observer

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Fundado em 1791, é um semanário publicado sempre aos domingos no Reino Unido. Pertence ao mesmo grupo de mídia do reconhecido The Guardian.

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