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Com a esquerda fraturada, Chile vai às urnas

Mundo

De Santiago

Única mulher a atualmente presidir uma nação na América Latina, Michele Bachelet está perto de deixar a presidência do Chile após um governo marcado por profundas reformas e pela retomada da confiança de segmentos populares na reta final da gestão. Pouco envolvida na corrida eleitoral, a socialista tem seu legado disputado por diferentes candidaturas no campo da centro esquerda, enquanto a direita concentra suas expectativas no ex-presidente Sebastian Piñera, um dos homens mais ricos do país. Os chilenos vão às urnas neste domingo 19 para o primeiro turno da eleição presidencial.

Presidente entre 2006 e 2010, Bachelet retornou ao cargo em 2014. Seu governo sofreu duras acusações de corrupção e um grande desgaste por conta da pressão dos meios hegemônicos de comunicação, de oposição a ela. A mudança de rota veio com uma agenda progressista em temas como a despenalização do aborto, o fomento a uma nova Constituição e os enfrentamentos nos campos educacional, trabalhista, tributário e de previdência.

A ampliação de direitos e contraste com grupos historicamente detentores de privilégios fez com que muitos chilenos considerassem a gestão de Bachelet como a mais à esquerda dos últimos 50 ano. Outra ala continua enxergando na nação andina um dos mais cobiçados paraísos do neoliberalismo, modelo impulsionado durante a ditadura de Pinochet (1973-1990).

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“Deixamos uma série de avanços sociais. Por exemplo, a gratuidade na educação, algo que me deixa muito satisfeita”, afirmou a presidenta em recente entrevista à imprensa chilena. Em seu governo, houve ampliação do acesso às universidades públicas e escolas de regime misto, que recebiam recursos públicos e ainda assim cobravam mensalidade, passaram para inteira responsabilidade do Estado.

“Aqui há muita desigualdade e as escolas estavam tornando-se empresas, sobretudo as  subvencionadas, administradas entre governo e entes privados”, afirma Catalina Ávila, professora em Espelho, na periferia de Santiago. “Isso não era fiscalizado e trazia resultados ruins. Agora várias ações caminham para o socialismo e a educação realmente será gratuita”, diz. Em todo o território, 33 mil docentes foram efetivados em consequência do novo regime. 

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Apoiadores de Piñera na quinta-feira 16, em Santiago. O ex-presidente é o favorito (Foto: Martin Bernetti / AFP)

A questão trabalhista também foi objeto de debate no governo Bachelet. Os chilenos garantiram a proibição de substituição de trabalhadores em casos de greve, o fortalecimento dos sindicatos e a exigência da participação de mulheres em suas direções. O salário mínimo, em valor equivalente a 1,3 mil reais, somado à inflação baixa e ao desemprego no patamar dos 7%, foi importante para criar um ambiente que facilitasse as modificações.

“O objetivo era equilibrar as forças que intervêm nas contradições entre empresários e trabalhadores”, diz Eric Campos, vice-presidente de Comunicações da Central Única dos Trabalhadores do Chile. “A lei da época de Pinochet ainda está vigente e alguns aspectos foram corrigidos para dar mais poder aos operários”, afirma. A organização não apoia nenhum candidato no primeiro turno, mas assegurou que mobilizará suas bases para derrotar Piñera, líder nas pesquisas de intenção de voto, no eventual segundo turno.

O freio da direita

Piñera, que governou o Chile entre 2010 e 2014, quebrando a hegemonia da Concertación, coalizão de centro-esquerda que dominou a política local após a ditadura, tem uma plataforma que enfatiza o viés economicista da suas propostas. “Acredito mais no indivíduo e menos no Estado. Temos um mau governo e um ótimo país”, afirmou ele recentemente.

Sua candidatura aposta nos 50% de chilenos que se dizem descontentes com a administração atual. Além disso, lembra que, em seu governo, foram criados um milhão de empregos.

“Piñera melhorou a qualidade de vida com crescimento, pleno emprego e segurança. A maior necessidade é voltar a criar fontes laborais. O primeiro governo de Bachelet foi muito ruim, o segundo horroroso”, afirma Carolina Lavín, deputada da União Democrática Independente (UDI), sigla de direita. “Lamentavelmente falta educação ao povo para dar-se conta e não se deixar convencer pelos atributos pessoais relacionados unicamente com a simpatia da presidenta”, diz.

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Ato de Mapuches em outubro, em Santiago. O mais numeroso grupo indígena chileno terá destinos diferentes a depender do resultado da eleição (Foto: Claudio Reyes / AFP)

É com a perspectiva de frear as mudanças implementadas por Bachelet que a direita pretende retomar o poder. A coalizão de Piñera disputa as eleições sob a bandeira “Chile Vamos”, que reúne, seu partido, a Renovação Nacional, a UDI e outras siglas menores.

No terreno do comportamento, a Renovação Nacional (RN) de Piñera acena para os conservadores ao colocar dúvidas sobre a recém aprovada lei do aborto e sobre a proposta da situação a respeito do matrimônio igualitário e adoção homoparental. Ainda entre as promessas está a revisão da legislação trabalhista e alterações na regras tributárias com descontos fiscais ao empresariado. A formação de uma assembleia constituinte não aparece na agenda candidato, pouco entusiasta da sugestão de sepultar a Carta elaborada durante a repressão.

Piñera também quer reforçar as fronteiras, selecionando os estrangeiros que chegam ao Chile. Seu grupo deseja, também, endurecer o tratamento ao povo Mapuche, os indígenas ancestrais do Chile. Os governistas, por sua vez, querem ampliar os direitos dos imigrantes e desenvolver a região de Araucanía, com grande concentração de Mapuches.

As ideias do Chile Vamos encontram ressonância entre a elite, os militares e nos que sentem-se pressionados pelo alto custo de vida, sobretudo na capital, Santiago. 

Os votos da esquerda

A esquerda encontra-se dividida. Apesar das controvérsias no bloco representado por seis candidaturas, os principais partidos avaliam de forma unânime que é preciso convencer o maior número possível de cidadãos a comparecer às urnas para evitar o triunfo de Piñera no primeiro turno.

Segundo projeções, metade dos 14 milhões de votantes não deve participar do processo que, além do líder do Executivo, define 23 senadores e 155 deputados. “Muitas leis são aprovadas sem a massa, isso gera desconfiança com os políticos”, comenta a estudante Romina Luna, de Valparaíso.

Escolhido como candidato pela Nova Maioria, a coalizão de sustentação a Bachelet, o senador Alejandro Guillier conta com o apoio de partidos como o Socialista e o Comunista para credenciar-se ao segundo turno. 

Além de dar seguimento às principais políticas do atual governo, o jornalista promete enfrentar as administradoras de fundo de pensão (AFP), que concentram renda em poucos empresários enquanto pagam aposentadorias reduzidas aos beneficiários, e reduzir a pobreza, que atinge três milhões de pessoas. Para isso, anuncia a criação de farmácias públicas, crédito para construção de casas e participação ativa do Estado nas decisões envolvendo as matérias primas, em especial o cobre, e na economia em geral.

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Eleitores de Guillier no último evento da campanha, quinta-feira 16. Ele pode ir ao segundo turno (Foto: Pablo Vera / AFP)

“Guillier representa a maioria do setor que é governo e esperamos que continue com a agenda de profundas transformações sociais impulsionados pela presidenta”, afirma Raúl Saldívar, deputado socialista. “Este governo deixa grande legado para os próximos 50 anos do Chile e desejamos que as forças de esquerda se unam em torno de nosso candidato”, afirma. Ele destaca que é determinante no futuro do país a composição do parlamento, hoje favorável ao governo, detentor de estreita maioria na Câmara e Senado.

A baixa capilaridade no Congresso é apontada como problema para a terceira colocada nas pesquisas, a também jornalista Beatriz Sánchez. Ela lidera a Frente Ampla, coalizão de centro-esquerda crítica de Bachelet baseada no movimento estudantil e que defende uma transição do “poder de poucos para o poder de muitos”. O engajamento de 16 mil colaboradores na construção de sua plataforma, especialmente de jovens, defende imposto sobre grandes fortunas, reestruturação do modelo de saúde e maior integração com a América Latina, tendo a Frente Amplio uruguaia como referência.

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Candidata à Câmara pela província de Los Ríos, Carla Fecci destaca o protagonismo feminino do coletivo e a adesão à elaboração de uma nova constituição. “No parlamento não existem 20% de mulheres e essa é uma das razões por sermos representados por Beatriz e seu projeto participativo de uma nova forma de fazer política”, diz.

Na mesma faixa de eleitorado de Guillier e Beatriz Sánchez há mais quatro candidatos: Fernando Navarro, Eduardo Artes, Carolina Goic e Marco Ominami. Completa a lista o ultraconservador José Kast. “A esquerda está fraturada não só na política, mas no coração do país”, opina Lorena Diaz, trabalhadora da indústria cultural. “Ainda assim, muitos votarão pelo mau menor para derrotar a direita”, 

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