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Lula e outras lideranças resistem ao conselho imperial imaginado por Trump para subjugar o planeta

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Suserano. O presidente dos EUA obteve a adesão de países vassalos ao comitê que pretende ir muito além da reconstrução da Faixa de Gaza – Imagem: Fabrice Coffrini/AFP
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Depois de implodir o multilateralismo, as Nações Unidas e o direito internacional, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está empenhado em colocar de pé um ­resort diplomático com contornos brutalistas. O assim chamado Conselho da Paz nasceu com a justificativa de organizar a reconstrução da Faixa de Gaza. Em poucos meses, foi, no entanto, convertido num bunker pessoal do presidente norte-americano, de dentro do qual ele espera imiscuir-se em todos os problemas do mundo, a seu próprio modo e sem contestações.

Ao mesmo tempo que proclama o fracasso das Nações Unidas, Trump dá sinais de que pretende trazer para si a prerrogativa de reorganizar as relações entre os países, declarando intervenções militares onde julgar necessário, como na Venezuela, liderando planos de reconstrução humanitária, a exemplo de Gaza, e impondo embargos e sanções, como fez contra países tão distintos quanto o Irã e o Brasil. Tudo o que as Nações Unidas tinham a prerrogativa de fazer legalmente, ou de impedir que fosse feito de maneira ilegal, passou a ser objeto de interesse do republicano, pessoalmente. “A ONU simplesmente não tem sido muito útil”, afirmou na terça-feira 20. “A ONU deveria ter resolvido todas as guerras que eu resolvi. Eu nunca recorri a ela. Nunca sequer pensei em recorrer.”

O Brasil foi convidado a ingressar nesse clube privado pós-ONUsiano, mas o presidente Lula não se animou com a ideia de pagar 1 bilhão de dólares de ingresso por um assento permanente, tampouco de referendar uma instância obscura na qual Trump vai reinar absoluto, tendo a seus pés uma porção de países dóceis aos interesses da Casa Branca, entre eles a Argentina, ou simplesmente interessados em referendar uma nova ordem mundial, na qual a força bruta fale mais alto do que o direito internacional, o que interessa às aspirações da Rússia em relação à Ucrânia, entre outros.

Multilateralismo. Xi Jinping e o petista trocaram ideias – Imagem: Ricardo Stuckert/PR

O Brasil considera o menu do novo grupo guloso demais. “Propus que o órgão apresentado pelos Estados Unidos se limite à questão de Gaza e preveja assento para a Palestina”, afirmou Lula em uma postagem em suas redes, na mesma segunda-feira 26 em que conversou com Trump ao telefone. “Reiterei a importância de uma reforma abrangente da Organização das Nações Unidas, que inclua a ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança.”

No dia seguinte à conversa com Trump, Lula, que havia dias atrás trocado figurinhas com o colega chinês Xi Jinping, discutiu o mesmo assunto com o presidente da França, Emmanuel ­Macron, com quem disse estar sintonizado. “Defendemos o fortalecimento das Nações Unidas e concordamos que iniciativas sobre paz e segurança devem estar alinhadas aos mandatos do Conselho de Segurança e aos princípios e propósitos da Carta da ONU”, informou o brasileiro.

Com isso, o Brasil declinou do convite para integrar o conselho criado por Trump e reafirmou sua crença no direito internacional e na ordem estabelecida em torno das Nações Unidas após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Lula, ao mesmo tempo, destacou o fato de que o tal conselho deveria ater-se à reconstrução de ­Gaza, assunto que motivou o embrião dessa instância, ainda em 2025, a partir de uma primeira proposta feita pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Para o petista, o assunto do conselho deve ser Gaza, e sua formação deve incluir os maiores interessados no assunto, os próprios palestinos. Não está claro se o Brasil reconsiderará sua posição de não fazer parte do conselho, caso o órgão restrinja de fato a atuação à reconstrução de Gaza. Uma coisa é certa: se a mera substituição da ONU seguir no menu, Lula está fora.

O problema, para alguns estudiosos das relações internacionais, é que a demanda do Brasil, de reformar o Conselho de Segurança da ONU, é legítima, mas ficou velha. “Há 20 anos, querer estar nesse lugar dizia uma coisa, hoje diz outra”, avalia Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional e Comparada na Universidade Federal de Minas Gerais e autor de um livro que passa a limpo a política externa brasileira, de José Bonifácio a Celso Amorim. Segundo ele, esta “é uma ONU à beira do colapso, politicamente esvaziada, sem orçamento e com as ­duas últimas gestões muito frágeis”. Portanto, “participar seria simbolicamente uma vitória da democracia brasileira, mas uma vitória tardia, que não mudaria muito o estado das coisas no mundo”.

O brasileiro ainda aposta na reforma das Nações Unidas, talvez impossível a esta altura

A falência desse sistema tem sido proclamada por atores tão diversos quanto Trump e acadêmicos que estudam as relações internacionais, mas essa tese escatológica não faz parte do vocabulário de líderes como Lula e Macron, que demonstram publicamente empenho em defender o direito internacional e as instituições multilaterais criadas no pós-Guerra.

Neste ano, o Fórum Econômico de ­Davos, na Suíça, foi transformado, inesperadamente, numa cúpula europeia de defesa da chamada ordem internacional, contra o assédio de Trump. O estopim foi a ameaça norte-americana de anexar a Groenlândia, mas o rumo do debate acabou muito mais abrangente, com os principais nomes da União Europeia subindo ao púlpito para falar em nome de uma ordem que muitos proclamam como morta. “Está tudo mudando”, arrisca Lopes. “A ficção jurídica da igualdade soberana entre os povos vai sucumbindo à medida que arranjos de geometria variável e movidos por interesses que não necessariamente se coadunam com o direito internacional vão se impondo muito claramente sob a liderança de Donald Trump.” O Conselho da Paz seria um caso, tanto quanto o Cinturão e a Rota da China, a Conferência de Xangai, o BRICS e até o G20 e o G7. “São arranjos tópicos e pontuais, menores, que agrupam com base em critérios casuísticos”, prossegue o professor. “Sacramento com certa tristeza a derrocada da ONU. É difícil ela se reerguer desta vez. Me surpreenderia muito ela se reerguer no curto prazo.”

A julgar pelas declarações de Lula, o Brasil ainda resiste a esse diagnóstico, e busca associar-se a democracias, como a francesa, que têm a mesma opinião a respeito da necessidade de reformar as Nações Unidas e de preservar o multilateralismo internacional, ao menos até que as divergências sobre os detalhes dessa forma voltem a aflorar entre aqueles que acreditam pensar igual. •

Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Clube privê’

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