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Cinco pontos-chave sobre a França após o 1º turno das eleições municipais
O pleito, a um ano da disputa presidencial, registrou avanços da extrema-direita e da esquerda radical
O primeiro turno das eleições municipais ofereceu no domingo 15 uma primeira fotografia da França a um ano da eleição presidencial, com avanços da extrema-direita e da esquerda radical.
Embora as eleições municipais costumem seguir lógicas locais, com listas não partidárias na maioria das 35 mil localidades francesas, elas permitem medir o peso dos partidos antes da eleição presidencial de 2027.
A França vive uma profunda crise política desde o inesperado adiantamento das eleições legislativas em 2024, que resultou em três grandes blocos: esquerda, centro-direita e extrema direita.
A um ano da eleição presidencial francesa, à qual o atual mandatário de centro-direita Emmanuel Macron já não pode concorrer, o candidato da extrema-direita Jordan Bardella lidera as pesquisas e as alianças nos outros blocos se anunciam fundamentais para disputar com ele o segundo turno.
Polarização
O que dizem os resultados do primeiro turno sobre o panorama político?
“Temos uma reativação, de certa forma bastante marcada, da divisão entre esquerda e direita, cada vez mais arrastada para os extremos, com uma polarização bastante forte”, analisa Adélaïde Zulfikarpasic, da Ipsos BVA.
E tudo isso em um contexto de abstenção recorde (cerca de 43%), se não for considerado o mínimo registrado em 2020 em plena pandemia de coronavírus.
Nas grandes cidades, como Paris, Marselha e Lyon, os prefeitos socialistas e ecologistas resistem, embora precisem dos votos dos eleitores da França Insubmissa (LFI, esquerda radical) para garantir a vitória no segundo turno do próximo domingo.
O tradicional partido conservador Os Republicanos (LR) — que nos últimos anos perdeu peso, preso entre os centristas de Macron e a extrema-direita — também resiste em cidades médias como Cannes ou Antibes.
Redutos da extrema-direita
Após seus bons resultados nas eleições europeias e nas legislativas de 2024, o Reagrupamento Nacional (RN) de Marine Le Pen e Bardella se consolida no cenário municipal. Com seus aliados, lidera em mais de 60 municípios, contra apenas 11 em 2020.
A legenda reivindica vitória em 24 localidades já no primeiro turno, como em Perpignan (120 mil habitantes), a maior cidade que governa, e em Hénin-Beaumont.
Em seus redutos no norte e no sudeste da França, chegará ao segundo turno em primeiro lugar em Toulon, Nîmes e Nice. E poderia inclusive governar a segunda maior cidade da França, Marselha, onde seu candidato terminou em segundo lugar.
“O RN poderia recuperar impulso com um bom desempenho no segundo turno”, estimou Mujtaba Rahman, da consultoria Eurasia Group, para quem os resultados foram “medíocres” em comparação com outras eleições em nível nacional.
Oficialismo inexistente
O partido de Macron tem pouca presença local na França, mas um de seus aliados, seu ex-primeiro-ministro de centro-direita Édouard Philippe, poderia aproveitar as municipais para impulsionar sua candidatura à Presidência em 2027.
Philippe apostou nisso com sua reeleição como prefeito na cidade portuária de Le Havre. Com quase 44% dos votos no primeiro turno, parece bem encaminhado para repetir o mandato.
Uma pesquisa do Ifop de fevereiro o apresenta como o melhor candidato do bloco de centro-direita para a eleição presidencial e o segundo em geral com maior intenção de voto, atrás apenas de Bardella.
Surpresa da esquerda radical
O partido LFI surpreendeu ao conquistar sua primeira grande cidade, Saint-Denis, liderar a apuração em Roubaix e ser a primeira lista de esquerda em outras cidades como Toulouse ou Limoges.
Tudo isso apesar de ter estado no centro de uma forte polêmica durante toda a campanha por sua proximidade com o grupo antifascista que matou um ativista de extrema-direita em fevereiro em Lyon e pelo suposto antissemitismo de seu líder, Jean-Luc Mélenchon.
Seu coordenador nacional, Manuel Bompard, celebrou o sucesso de sua “estratégia de nacionalização da campanha”.
Quais alianças?
Além dos resultados, a estratégia de alianças para o segundo turno oferece uma prévia da eleição presidencial, em um contexto de disputa pela hegemonia dentro dos blocos de esquerda e de centro-direita.
Embora os socialistas tenham rejeitado um “acordo nacional” com a LFI, houve pactos para fundir suas listas no segundo turno em Toulouse, Nantes ou Limoges, para impedir a vitória da direita.
As divergências durante a campanha tornaram impossíveis alianças em Marselha, apesar dos apelos para barrar a extrema direita, e em Paris, que poderia virar à direita após 25 anos de prefeitos socialistas.
Uma vitória na capital francesa representaria um impulso para a união do bloco central, cujos dois candidatos — a ex-ministra conservadora Rachida Dati e o político de centro-direita Pierre-Yves Bournazel — poderiam concorrer juntos no segundo turno.
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