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Captura de Maduro divide parlamentares e abre nova crise entre Congresso dos EUA e governo Trump
Democratas e republicanos exigem explicações sobre a legalidade da operação, os custos envolvidos e, principalmente, sobre o que os Estados Unidos pretendem fazer com a Venezuela a partir de agora
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças americanas deve dominar a agenda política em Washington nesta semana e abriu uma crise entre o Congresso e o governo de Donald Trump. Parlamentares democratas e republicanos exigem explicações sobre a legalidade da operação, os custos envolvidos e, principalmente, sobre o que os Estados Unidos pretendem fazer com a Venezuela a partir de agora.
Na tarde desta segunda-feira 5, líderes do Congresso e membros-chave das comissões de Inteligência, Forças Armadas, Relações Exteriores e Relações Internacionais participaram de um briefing fechado com autoridades do alto escalão do governo. Entre os presentes estavam o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, a procuradora-geral, Pam Bondi, o diretor da CIA, John Ratcliffe, e o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine.
Apesar da reunião, o clima foi de frustração entre parlamentares, sobretudo entre democratas, que afirmam não ter recebido respostas claras sobre a base legal da ação militar nem sobre os planos futuros da Casa Branca.
Democratas cobram base legal e alertam para custos e riscos
A senadora democrata Jeanne Shaheen, principal nome do Partido Democrata na Comissão de Relações Exteriores do Senado, disse à CNN que saiu do briefing sem a explicação jurídica que esperava. “Nós não recebemos essa justificativa”, afirmou, ao ser questionada sobre por que o Congresso não foi informado previamente da operação militar na Venezuela.
Shaheen também disse não ter obtido respostas sobre quanto tempo os Estados Unidos pretendem manter controle operacional sobre a Venezuela nem sobre quanto essa ação vai custar ao contribuinte americano.
“Estamos gastando dinheiro no Caribe agora”, declarou, em referência ao deslocamento de forças militares e recursos para a região.
Questionada se acredita que o governo Trump pode estar considerando ações semelhantes em outros países, Shaheen foi cautelosa: “Não está claro ainda”, disse.
As críticas dos democratas se somam à preocupação de parte do Senado em limitar novas ações militares sem autorização do Congresso. Parlamentares já articulam uma votação para restringir futuros ataques caso não haja aval legislativo, o que pode criar um novo ponto de tensão entre o Capitólio e a Casa Branca.
Reuniões se multiplicam no Capitólio
A pressão sobre o governo tende a aumentar nos próximos dias. Além do briefing já realizado, o líder da maioria no Senado, John Thune, e o líder da minoria, Chuck Schumer, trabalham para agendar uma reunião com todos os senadores ainda nesta semana, segundo fontes ouvidas pela imprensa americana.
Na Câmara, o presidente Donald Trump deve falar diretamente com deputados republicanos nesta terça-feira 6, durante o encontro anual do partido, no Kennedy Center, em Washington. A expectativa é que ele tente alinhar o discurso e conter fissuras internas.
Republicanos apoiam captura, mas divergem sobre o futuro da Venezuela
Entre os republicanos, a captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, foi em grande parte celebrada. No entanto, não há consenso sobre o que fazer com a Venezuela daqui para frente, e esse é hoje o principal ponto de discórdia dentro do partido.
A pergunta que domina os bastidores é direta: quem vai governar a Venezuela?
Inicialmente, Trump elogiou a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, que assumiu como líder interina após a captura de Maduro, e afirmou que poderia trabalhar com ela. A declaração irritou parlamentares republicanos da Flórida, tradicionalmente ligados à oposição venezuelana, que defendem abertamente María Corina Machado como principal liderança contra o chavismo.
Trump, por sua vez, minimizou Machado, dizendo que ela não teria “apoio” nem “respeito” suficientes para liderar o país.
Outros republicanos, como o deputado Bill Huizenga, de Michigan, e o senador Bill Cassidy, da Louisiana, defendem que os Estados Unidos reconheçam Edmundo González, apontado por vários países como o legítimo vencedor da eleição presidencial venezuelana de 2024.
Desconfiança crescente em relação a Rubio e ao governo
Nos bastidores, cresce também um sentimento de desconfiança em relação ao secretário de Estado, Marco Rubio, figura respeitada no Congresso e ex-senador. Segundo fontes ouvidas por veículos americanos, alguns republicanos e democratas sentem que foram mal informados ou pouco preparados para a dimensão da operação e para o cenário pós-Maduro.
Embora Rubio sempre tenha sido visto como um aliado confiável no tema Venezuela, a ação militar surpreendeu parte do Congresso e começou a desgastar a relação.
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