Mundo
Cadeira elétrica
Em um país onde presidentes não duram, 35 candidatos disputam a eleição
A cadeira presidencial mais radioativa da América do Sul está localizada na Casa de Pizarro, o palácio do governo em Lima. Na última década, oito mandatários, da direita à esquerda, ocuparam por um breve período o mais alto cargo da república peruana. Todos foram alvo de impeachment em um país conflagrado desde que a franquia da Lava Jato se instalou por lá, tumultuou o cenário e criminalizou a política. Os eleitores, desconfiados, desiludidos e, portanto, raivosos voltarão às urnas no domingo 12 para mais uma tentativa de eleger um presidente e um Congresso que durem além de poucos meses.
O ceticismo guia os peruanos. Metade dos cidadãos considera a democracia o melhor regime e 93% defendem mudanças profundas no sistema político. Os índices aferidos pelo Instituto de Estudos Peruanos e publicados no documento Barômetro das Américas revelam a insatisfação de uma população exaurida pela instabilidade institucional representada pelas constantes trocas no Executivo e pressionada por problemas cotidianos, particularmente a violência urbana.
A instabilidade política levou a um quadro de pulverização. Ao todo, 35 candidatos disputam a Presidência. Prevalecem nomes da direita e da extrema-direita, alguns inspirados no populismo penal de Nayib Bukele, de El Salvador, famoso por construir a maior prisão do mundo, onde cabem 40 mil detentos, e atropelar os direitos humanos básicos em nome de um suposto combate à criminalidade. Os favoritos são Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, morto em 2024 e que cumpriu pena durante 16 anos por crimes contra a humanidade, e Rafael López Aliaga, prefeito da capital e apelidado de “Bolsonaro peruano”. O comediante Carlos Álvarez é o tertius dessa história. “Keiko e Aliaga personificam o pacto mafioso que manda na nossa política há dez anos. Enfrentamos uma conjuntura complexa, inclusive do ponto de vista geopolítico”, afirma a socióloga Maria Farro. Segundo ela, a estratégia central da extrema-direita é garantir a captura do Estado por meio do controle do Legislativo, especialmente do Senado, em vias de ser recriado após 33 anos. “A maioria não desejava o retorno do Senado. O resultado dessa manobra aprovada por um Congresso com mais de 90% de rejeição é que, de uma constituição presidencialista, passamos a uma ordem legislativa em favor dos partidos do poder”, diz o engenheiro Efrain Arana.
Três nomes da direita aparecem à frente nas pesquisas
Além da projeção de vitória de um ultradireitista, é provável o florescimento de uma forte bancada da bala, ancorada nas inúmeras candidaturas de agentes de segurança lançadas por diferentes partidos e espalhadas pelo país. Tudo isso sobre o monitoramento dos Estados Unidos. No ano passado, o Parlamento aprovou operações conjuntas com militares norte-americanos nos moldes do acordo celebrado pelo Equador. Os congressistas eleitos agora terão pela frente a missão de ratificar ou não o tratado. “Os peruanos buscam segurança e por isso há uma boa percepção sobre a família militar e policial. Precisamos expulsar os imigrantes ilegais e fortalecer os serviços de inteligência”, defende José Cueto, candidato ao senado pela Renovação Nacional, de López Aliaga, recebido nas últimas semanas com protestos em uma série de localidades da região sul, palco em 2022 dos principais levantes contra a então presidenta Dina Boluarte, acusada de genocídio pela morte de ao menos 60 manifestantes durante a repressão oficial aos protestos que exigiam nova eleição, na esteira da prisão de Pedro Castillo por tentativa de golpe de Estado.
Keiko Fujimori se espelha no estilo do pai, cuja carreira até o mais alto posto do país foi acelerada pela violência derivada dos conflitos entre a guerrilha e os paramilitares. A herdeira promete combater a criminalidade com mão pesada, enquanto tenta esconder as mazelas do fujimorismo, envolto em escândalos de corrupção. A ex-deputada concorre pela quarta vez. Nas três tentativas anteriores, chegou ao segundo turno, mas acabou derrotada, dada a péssima lembrança que os peruanos têm do período de Alberto Fujimori no poder.
Longe de Lima, sobrevive a residual esperança da esquerda, a partir da resistência nas províncias. Roberto Sánchez, ex-ministro de Castillo, a quem promete indultar, aposta no voto campesino, de segmentos progressistas e de organizações coletivas de base, responsáveis por frear megaprojetos de mineração em áreas de Arequipa, Cajamarca e da Amazônia, mesmo sob assédio de interesses transnacionais.
Está difícil. Conforme a mais recente pesquisa do instituto Ipsos, divulgada nos primeiros dias de abril, Álvarez, conhecido por suas imitações de políticos, se tornou um azarão. O comediante aparece com 10,8% das intenções de voto, em empate técnico com Aliaga (10,3%) e atrás de Keiko Fujimori (18%). O empresário Ricardo Belmont, o economista López Chau e o ex-ministro da defesa Jorge Nieto são outros dos concorrentes, na casa dos 5%. “O cenário parece de uma paródia e a informação sobre propostas é quase nula. Os jovens buscam opções novas não relacionadas à política, mas é difícil encontrar”, lamenta o estudante David Espinoza.
Diminuir os índices de pobreza crescente, enfrentar o avanço das máfias, equilibrar questões territoriais descentralizando o poder de Lima e, sobretudo, completar o mandato até 2031. Eis os desafios postos diante de quem vencer a disputa. O segundo turno acontece em 7 de junho. “Nunca houve tanta dispersão e carência de formação política. O resultado é imprevisível, a continuidade da crise, não”, considera Maria Farro. •
Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Cadeira elétrica’
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