Mundo
Cabeça a cabeça
Em uma eleição acirrada e indefinida, a ultradireitista Keiko Fujimori e o esquerdista Roberto Sánchez disputam voto a voto
Até o fechamento desta edição, na manhã da quinta-feira 10, os peruanos ainda não sabiam o nome do próximo presidente do país. Nada de novo. Entre os tantos gargalos políticos, a lentidão na contagem de votos nem chega a ser o principal. A apuração de eleitores no exterior e nos rincões rurais atravancam o processo. Além disso, quem perder certamente pedirá a recontagem de certas urnas, o que tende a prolongar a divulgação do resultado final. Vale lembrar, a definição do segundo colocado no primeiro turno levou um mês para ser revelada pela Justiça Eleitoral.
Quando esta reportagem foi concluída, com 98% da apuração, Keiko Fujimori tinha cerca de 600 votos a mais do que Roberto Sánchez, mas as projeções do instituto Ipsos apontavam a vitória do ministro de Pedro Castillo, ex- presidente preso por tentativa de golpe e a quem o aliado promete indultar. A filha do sanguinário ditador Alberto Fujimori, condenado por crimes contra a humanidade, tenta , por sua vez, superar uma sina – ou maldição. Pela quarta vez consecutiva, a candidata ultradireitista chega ao segundo turno. Caso sai derrotada novamente, se tornará o maior cavalo paraguaio da política sul-americana.
As projeções dão vitória apertada ao ex-ministro, mas o cenário segue indefinido
Pouco se sabe sobre os planos de Sánchez, um azarão que superou, também por diferença ínfima, o ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga, chamado de “Bolsonaro peruano”, e avançou para o segundo turno. Ninguém duvida, porém, que mais uma disputa acirrada, decidida no olho eletrônico, manterá a política peruana refém da incerteza e do caos. Em uma década, o país teve nove presidentes diferentes e, nos últimos anos, houve uma sucessão sem fim de impeachments. Para o governo Lula, a vitória de Sánchez seria um alívio. Caso Fujimori ganhe – e o mesmo aconteça na Colômbia, com o ultradireitista Abelardo de la Spriella – o petista, no caso da reeleição em outubro, ficaria isolado na América do Sul, cercado por mandatários hostis ao Brasil e aliados de Donald Trump. O esforço de integração regional, inclusive física, por meio de obras de infraestrutura compartilhadas, igualmente iria para as calendas.
A imprevisibilidade do resultado do segundo turno era esperada. Nos dias e mesmo horas antes da votação era impressionante o número de indecisos que se constatava nas conversas com os eleitores, apesar das diferenças gritantes entre os programas de governo dos dois candidatos. Um desses eleitores, o desenhador gráfico Rodrigo Eliel, afirma ter se sentido atraído na reta final da campanha pela proposta de Sánchez de elevar o salário mínimo de 1.120 para 1,5 mil soles, em torno de 2.250 reais, medida criticada pelos empresários, a maioria alinhada à cartilha do neoliberalismo. “Se Keiko vencer, terá o controle total do Congresso e do Executivo, o que abrirá espaço para mais corrupção. Além disso, se dizia que com o ex-presidente Pedro Castillo cairíamos em todos os âmbitos e não foi assim”, avalia Eliel, após ter ido à urna no colégio Nossa Senhora de Guadalupe, um dos principais centros de votação da capital.
Cavalo paraguaio? Pela quarta vez consecutiva, Fujimori foi ao segundo turno – Imagem: Anthony Nino de Guzman/AFP
Diferentemente do primeiro turno, quando houve atraso na instalação de mesas e o prazo de votação teve de ser estendido para o dia seguinte a fim de permitir o sufrágio de cerca de 60 mil cidadãos, o processo deu-se de maneira regular, sem nenhuma intercorrência mais grave registrada pelas autoridades. Entretanto, representantes do partido de Fujimori se anteciparam no pedido de revisão de 1,5 mil atas. Os dias serão longos, ameaçam os apoiadores da ultradireitista. “O fujimorismo é uma organização perigosa e não aceitará facilmente a derrota. Por outro lado, se Sánchez de fato assumir, estará à mercê de ser afastado do cargo a qualquer momento e, nesse caso, nenhuma de suas duas vice-presidentes gera confiança. Tivemos que decidir entre dois impresentáveis”, reclama o economista Joel Rodríguez, que diz ter anulado o voto em Miraflores, bairro no qual vive parte dos abastados de Lima. Rodríguez faz parte dos 7% de eleitores que optaram por não votar em nenhuma das duas opções.
A vendedora Gloria Botoni, que trabalha todos os dias da semana, incluídos os domingos, apresenta outro ponto de vista. “Se um provinciano chega à Presidência, imediatamente o menosprezam e isso tem a ver com o racismo em nossa sociedade. Todos temos de índios e de serranos, não somos gringos. Pensam que por sermos de esquerda e do povo somos terroristas”, pontua em sua banca no Mercado Flores, onde vende frangos – atualmente, o quilo sai pelo equivalente a 14 reais.
Longe de Lima, o endosso de movimentos campesinos e indígenas é o grande trunfo de Sánchez. No estado de Cusco, o ex-ministro chegou a 78% dos votos. Foram 86% em Puno, palco dos principais protestos quando da prisão de Pedro Castillo em 2022, momento em que mais 50 mortes foram registradas sob o governo de Dina Boluarte, a vice-presidenta mais tarde aliada do fujimorismo. A traição custou caro a Boluarte. Ao fim de três anos conturbados no comando do país, a mandatária registrou uma reprovação de 90%.
A vitória de Sánchez evitaria um strike da ultradireita na vizinhança do Brasil
Também na Amazônia peruana os progressistas sobressaíram. “Os povos dos Andes e da selva, historicamente excluídos por sua raça, cultura, idioma e origem étnica, exigem mudanças. Por isso defendemos uma reforma agrária e tributária que leve serviços básicos a esses territórios esquecidos pelo pacto mafioso liderado pelos fujimoristas, baseado em uma ditadura congressual que privilegia os mais ricos e cuja consequência é a concentração de riqueza para apenas 2% dos peruanos”, prega Paul Fernández, eleito ao Parlamento Andino pelo Juntos por el Peru, coligação de Sánchez.
Adicionalmente, a aliança com setores de centro e a reformulação do plano de governo permitiram ao ex-ministro ampliar os apoios no segundo turno. “Os meios de comunicação estão alinhados contra Sánchez, e isso acabou por beneficiá-lo ao transformá-lo em vítima. Muito similar ao que se passou cinco anos atrás com Castillo”, avalia a jornalista Cris Reyes, do canal ATV.
Divisão. A maioria dos peruanos sabe que a eleição não irá pacificar o país – Imagem: Anthony Nino de Guzman/AFP
Enquanto Sánchez atrelou a campanha ao controverso Castillo, a quem visitou na prisão e promete indultar, Fujimori apostou no legado do pai, presidente e ditador durante os anos 1990. No domingo 7, antes de votar, a candidata visitou o túmulo do pai, falecido em 2024, depois de passar anos na prisão por crimes de corrupção e contra a humanidade. “Com El Chino erradicamos o terrorismo e melhoramos economicamente. Antes de Fujimori tínhamos de fazer filas para comprar pães e outros alimentos que eram racionados. Estive no velório e fiquei seis horas na fila para me despedir”, afirma Sofia Guerrero, dona de um pequeno hotel em Lima. A funcionária pública Luísa García, do Instituto Nacional de Estatística, votou em Fujimori pela primeira vez, depois de no primeiro turno apoiar López Aliaga. “Tudo vai encarecer, haverá desemprego e recessão, mas lamentavelmente mais valeu o ódio contra o fujimorismo”, lamenta.
O próximo presidente terá de enfrentar um cenário adverso do ponto de vista social e da segurança pública. Por dia, sete peruanos são assassinados e o porcentual da população abaixo da linha da pobreza chega a 25%, com cerca de 1 milhão de crianças em vulnerabilidade alimentar. “A sociedade civil está muito debilitada. Se a esquerda vencer, deve buscar um gabinete qualificado e teria de negociar com o Congresso permanentemente, para evitar um impeachment. Se Keiko chegar ao Executivo, terá mais chance de completar o mandato, pois seu partido é manejado como um clã familiar que capturou grande parte das instituições do Estado. Em caso de derrota, seria bom que se retirasse da política”, defende o geógrafo Daniel Martínez.
Definitivamente, a eleição não trará paz ao Peru. •
Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Cabeça a cabeça’
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